Salazar, António de Oliveira (1889 - 1970)
Estadista português, presidente do Conselho de Ministros entre 1932 e 1968. Foi o inspirador e líder do regime autoritário que ficou conhecido pelo nome de Estado Novo ou salazarismo, dada a importância que nele assumiu o seu principal dirigente.
Oriundo de Vimieiro (Santa Comba Dão), Salazar entrou para a faculdade de direito da Universidade de Coimbra, depois de uma passagem de oito anos pelo seminário de Viseu. Foi na universidade que iniciou a sua actividade política, militando no Centro Académico da Democracia Cristã, onde fez amizade com Manuel Gonçalves Cerejeira, futuro cardeal patriarca e importante aliado do regime. Em 1914, concluiu o seu curso com elevada classificação, chegando a assistente e, logo em seguida, à cátedra.
A sua militância em grupos da Acção Católica prosseguiria no Centro Católico, por cujas listas foi eleito deputado para o parlamento republicano, em 1921. Depois do 28 de Maio de 1926, e após uma meteórica passagem pela pasta das Finanças, começou uma calculada ascenção política. Face à derrapagem finaceira do Estado, foi chamado em Abril de 1928 para o governo de José Vicente de Freitas. As condições que impôs tornavam-no, na prática, coordenador de todos os ministérios através da pasta das Finanças. Federando várias correntes ideológicas da direita portuguesa, a facção política liderada por Salazar foi progressivamente afastando do poder os republicanos conservadores da ditadura militar, entrando na década de 30 já em posição de real hegemonia no governo.
Entre 1930 e 1934, Salazar, em sucessivas depurações políticas, neutralizou a direita mais radical, afastando ou congregando em torno de si monárquicos, católicos e os nacional-sindicalistas, de inspiração fascista. Começava a tomar forma o Estado Novo, com Salazar na Presidência do Conselho (1932) e a edificação legislativa e institucional do regime corporativo. A partir de 1936, o controlo pessoal que Salazar exercia sobre todos os aspectos do governo reforçou-se com a ocupação dos ministérios da Guerra, das Finanças e dos Negócios Estrangeiros. Viria a largar todas estas pastas nos anos 40, mantendo apenas a Presidência do Conselho, mas sem por isso abrandar a sua forma personalizada de exercer o poder. Tornando-se o chefe da União Nacional, partido único do regime, e rejeitando qualquer plataforma de entendimento com as oposições, instituiu um poder em que o chefe de governo era o supremo decisor. A proibição e a repressão das oposições, sobretudo a comunista, sindicalista e anarquista, não impediram no entanto a existência de focos de contestação, tendo Salazar sofrido, em Julho de 1937, um atentado de origem anarquista, de que saiu ileso.
Até ao fim da II Guerra Mundial, o Estado Novo conheceu os seus anos de afirmação ideológica e institucional. Tratou-se de um regime corporativo, com uma economia voltada para os sectores tradicionais e assente nos mercados coloniais, aqui e ali com surtos de industrialização e crescimento económico. Na ideologia, o regime foi nacionalista e a sua prática política foi autoritária e repressiva. O colonialismo, o anticomunismo, a aliança com a Igreja (traduzida em 1940 na assinatura da Concordata com a Santa Sé) eram outros traços do regime, que perdurariam, no essencial, até ao fim. Do ponto de vista diplomático, e face à Europa, a política de Salazar caracterizou-se por uma gestão cuidadosa e uma postura defensiva, oscilando entre as afinidades ideológicas com o franquismo e a Alemanha e a Itália autoritárias, por um lado, e a tradicional aliança luso-britânica, por outro.
O fim da guerra veio pôr Salazar em situação delicada: a vitória das democracias na Europa criou condições para uma maior pressão externa sobre o Estado Novo. Forçado a reconhecer uma oposição semi-legal, mas sem promover uma efectiva abertura política, Salazar continuou a remeter as oposições para a luta ilegal e, no interior da União Nacional, a afastar todos os que se perfilavam como seus possíveis sucessores. Com o começo da guerra fria, no entanto, a pressão diplomática abrandou, tornando-se Portugal membro fundador da NATO. Em 1958, a candidatura do general Humberto Delgado, com a congregação de toda a oposição, pôs pela primeira vez seriamente em risco o regime, ao mesmo tempo que se agravavam os sinais de descontentamento no próprio interior do aparelho político. A partir dos anos 60, com a guerra colonial e o surto da oposição, renasceram as tentativas para derrubar Salazar, mas o velho governante persistiria à frente dos destinos do país até 1968, quando a queda de uma cadeira e uma hemorragia cerebral o afastaram definitivamente do poder. Morreria dois anos depois, em 27 de Julho de 1970.