Oliveira, Manoel de (1908 - ?)

Realizador, natural do Porto. Oriundo de uma família da burguesia industrial da cidade invicta, fez os estudos elementares num colégio de La Guardia. Destacado desportista (atletismo e automobilismo), foi pelo cinema que se interessou desde muito cedo, inscrevendo-se na Escola de Actores de Cinema, fundada por Rino Lupo, no Porto. Estreou-se como figurante, no filme Fátima Milagrosa (1928). No ano seguinte começou a rodagem do seu primeiro filme - Douro, Faina Fluvial, que estreou em 1931, tendo sido alvo de violentas reacções dos críticos portugueses e reunido o aplauso da crítica estrangeira.

No ano seguinte realiza Estátuas de Lisboa, documentário incompleto e dado como perdido, o que viria a acontecer igualmente com Miramar, Praia das Rosas e Em Portugal já se Fazem Automóveis (1938). Em 1933, participou como actor em A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo. Famalicão é outro documentário, de 1940. Em 1941, realizou a sua primeira longa-metragem, Aniki-Bobó, produzida por António Lopes Ribeiro. Depois de um interregno de mais de uma década, devido a complicações financeiras, deslocou-se à Alemanha, em 1955, para estudar a cor no cinema, e, no ano seguinte, realizou O Pintor e a Cidade. De 1958 é o documentário incompleto O Coração e de 1959 O Pão, de que faria uma segunda versão em 1964. Em 1963, estreou A Caça e Acto da Primavera, filme que marcou o início da sua consagração no plano internacional.

Villa Verdinho Uma Aldeia Transmontana (ficção/documentário, 1964) e As Pinturas do Meu Irmão Júlio (filme de arte, 1965) são os seus filmes seguintes. Nos anos 70, realizou a sua trilogia dos amores frustrados: O Passado e o Presente (1971), Benilde ou a Virgem Mãe (1974) e Amor de Perdição (1978). Seguiram-se Francisca (1981), Lisboa Cultural (documentário, 1983), Nice… À Propos de Jean Vigo (documentário, 1983), Le Soulier de Satin (1985), Simpósio Internacional de Escultura em Pedra. Porto 1985 (documentário, 1985), Mon Cas (1986), A Propósito da Bandeira Nacional (documentário, 1987), Os Canibais (1987), Non ou a Vã Glória de Mandar (1990), A Divina Comédia (1991), O Dia do Desespero (1992), Vale Abraão (1993), A Caixa (1994), O Convento (1995), Party (1996), Viagem ao Princípio do Mundo (1997) e Inquietude (1998).

Estes dois últimos foram candidatos à nomeação para o óscar de melhor filme estrangeiro. Ao longo da sua carreira de cineasta, tem alcançado diversos prémios. Entre outros, recebeu no Festival de Veneza o Leão de Ouro Especial do Júri, com Le Soulier de Satin, e o Grande Prémio Especial do Júri, com a A Divina Comédia. No Festival de Cannes, recebeu o Prémio Especial da Crítica Internacional, com Non ou a Vã Glória de Mandar, e, mais recentemente, o Prémio da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), com Viagem ao Princípio do Mundo, protagonizado por Marcelo Mastroianni. O conjunto da sua obra foi também, diversas vezes, objecto de homenagem, tanto em Portugal (1979, Festival de Cinema da Figueira da Foz) como no estrangeiro, nomeadamente em Itália (1994, Prémio David Donatello) e Israel (1998, Prémio Obra de Uma Vida, do Festival de Cinema de Jerusalém).

Com mais de 90 anos de idade, é considerado o maior vulto do cinema português e o mais antigo realizador de cinema do mundo, em actividade. Em 1999, com o seu filme, A Carta, recebeu, em Cannes, o Prémio do Júri. Nele transpôs para a actualidade o romance do século XVII, A Princesa de Clèves, da autoria de Madame de La Fayette. Palavra e Utopia, um filme sobre a vida do padre António Vieira que estreou no ano 2000. Inédito, por vontade do autor, até à sua morte, está o documentário autobiográfico Visita - Memórias e Confissões (1983).