Ortigão, José Duarte Ramalho (1836 - 1915)
Escritor português, natural do Porto. Iniciou a carreira de jornalista, como folhetinista e crítico literário do Jornal do Porto, já em 1862. Em 1867, efectuou uma viagem a Paris que o marcou grandemente. Dois anos antes, interviera na Questão Coimbrã, defendendo António Feliciano de Castilho de alguns dos ataques a ele feitos, o que o levou mesmo a entrar em duelo com Antero de Quental. Viria, depois, a integrar-se no grupo da Geração de 70, escrevendo, de parceria com Eça de Queirós, O Mistério da Estrada de Sintra (1870) e As Farpas (1871-1882 e 1887-1890), tendo a primeira obra sido publicada em fascículos e a segunda, sob a forma de folhetim, no Diário de Notícias. Foi ainda oficial da secretaria da Academia das Ciências e bibliotecário do Palácio da Ajuda. Ramalho Ortigão distinguiu-se, sobretudo, como grande observador da realidade portuguesa, que retratou em estilo de reportagem jornalística em várias das suas obras. As Farpas pretendiam ser, precisamente, uma folha mensal de comentário crítico dos acontecimentos da actualidade portuguesa, de intenção doutrinária envolta num tom humorístico. Já antes do seu contacto com os escritores da Geração de 70, Ramalho Ortigão possuía um estilo sarcástico, que evoluíu depois para uma ironia associada ao espírito positivo, liberal e moderno da Europa de então. Após a partida de Eça de Queirós para Cuba, em 1872, a publicação alterou o seu tom; o pendor tradicionalista, o gosto pelo folclore e pelo pitoresco, as intenções de pedagogia aliadas a um bom senso burguês, que pertenciam à formação de Ramalho, tornaram-se mais evidentes. A figura de Teófilo Braga foi, neste período, tutelar, e com ele organizou as comemorações do centenário de Camões. O ideário de Ramalho Ortigão tornou-se progressivamente mais conservador, notoriamente a partir de inícios do século XX, e o escritor veio a ser uma das principais figuras da geração nacionalista que se vinha formando, aproveitado posteriormente com fins políticos durante o Estado Novo. De grande poder descritivo, fortemente visualista, o seu estilo caracteriza-se pela vivacidade e fluência na evocação de costumes regionais, da arte popular e das tradições, num tom pitoresco de grande atenção ao mundo exterior, às paisagens e aos tipos humanos. Defensor do património cultural e natural (O Culto da Arte em Portugal, 1896), foi também um notável autor de impressões de viagens, que deixou nos volumes Em Paris (1868), A Holanda (1883) e John Bull e a Sua Ilha (1887). Foi ainda autor, entre outras obras, de Contos Cor-de-Rosa (1870).