Garrett, João Baptista da Silva Leitão de Almeida (1799 - 1854)

Escritor e político português. As invasões francesas, na primeira década do século XIX, obrigaram a família, pertencente à burguesia próspera e letrada, a refugiar-se na sua propriedade da ilha Terceira (Açores). Aí recebeu Almeida Garrett a influência de um eclesiástico, seu tio e educador. Ingressou depois na Faculdade de Direito de Coimbra, aderindo aos ideias do liberalismo que então ganharam terreno e apoiando, em 1820, a revolução liberal. Datam já desse período as suas primeiras publicações. Terminado o curso, ocupou alguns cargos públicos, mas, em 1823, a Vila-Francada levou-o a, juntamente com a mulher, procurar refúgio em Inglaterra, e depois em França. O contacto com a cultura e a literatura inglesas determinaram a sua actividade literária posterior: os seus poemas Camões (1825) e D. Branca (1826), datam deste período. Regressou a Portugal em 1826, destacando-se então pela sua actividade jornalística. A restauração do absolutismo, em 1828, fê-lo regressar a Inglaterra, de onde voltaria em 1832 para tomar parte no desembarque do Mindelo. Restaurado o constitucionalismo, foi cônsul-geral em Bruxelas. Passos Manuel, na chefia do governo de então, convidou-o a elaborar um plano de criação de um teatro nacional, que Garrett concretizou com a criação do Teatro Nacional (D. Maria II), do Conservatório de Arte Dramática e com o desenvolvimento de um repertório dramático, de que o próprio escritor se encarregou. A sua carreira na política e na vida pública nacional foi interrompida pela subida ao poder de Costa Cabral, que o demitiu do cargo de Inspector-Geral dos Teatros e proibiu a representação do seu Frei Luís de Sousa durante alguns anos. Em 1851, fundou o jornal A Regeneração, ano em que se tornou par do reino. Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1852, dois anos mais tarde D. Pedro V atribuiu-lhe o título de visconde. Almeida Garrett desdobrou-se por múltiplas actividades: orador parlamentar (ficaram célebres alguns dos seus discursos), ensaísta literário, folclorista, político, jornalista, jurista, a sua personalidade exuberante ficou marcada na história política e cultural do país. Como escritor, a sua formação é basicamente arcádica, evoluindo em moldes românticos a partir da estadia em Inglaterra. O ideal de intervenção cívica reflecte-se na sua criação literária, função cumprida particularmente através dos dramas históricos (O Alfageme de Santarém, 1824, entre outros) e dos poemas da fase arcádica. Está também patente nas Viagens na Minha Terra (1846), obra fundamental da prosa novelística portuguesa, em que se confrontam, no contexto histórico português seu contemporâneo, o liberalismo e o conservadorismo políticos. Simultaneamente, e defendendo que o contacto com as fontes nacionais populares é essencial à vitalidade da literatura, Almeida Garrett levou a cabo uma regeneração da língua, conferindo-lhe uma naturalidade de que esta carecia e aproximando-a da oralidade. Com a mesma intenção, procedeu à recolha de temas e textos do folclore português, de que é exemplo o seu Romanceiro (1843-1851). Fundamental na sua obra é a tragédia histórica Frei Luís de Sousa, considerada a obra-prima do teatro romântico português e do autor. A sua produção lírica de cariz romântico (nomeadamente Folhas Caídas, 1853) caracteriza-se pelo tom confessional e pela sensualidade. No entanto, mais do que como escritor, foi como homem público que Almeida Garrett se tornou um dos nomes fundamentais da história da cultura portuguesa.