Sonho de uma alma destroçada
Quando olho para a lua, e vejo aquela luz naturalmente bela, tento compreender o porque de a vida não ser simples de contemplar e adorar.
Porque será que a vida é assim.
Porque será que me deixa como estou?
Porque será que faz com que eu mate a cabeça para encontrar uma solução para um problema sem solução?
É pena pensar assim.
É pena sonhar e não conseguir seguir esse sonho.
Foi difícil correr atrás de um sonho que despedaçou a minha alma e que foge eternamente de mim.
Agora fiquei parada a pensar. Será que tudo isto valeu a pena?
Será que valeu a pena perder aquilo que tinha de mais precioso por um sonho?
A minha alegria? A alegria que sempre me acompanhou e que me mantinha sempre em alta, mesmo quando tudo parecia mau?
Agora penso e percebo que não sei a resposta a esta questão.
Percorri um longo caminho atrás deste sonho. Agora o que resta, não é nada comparado com aquilo que já fui.
A minha alma quebrou-se em mil pedaços. Pedaços estes que perdi, e que agora faço tudo para voltar a encontrar. Mas quanto mais procuro, mais tenho a noção que perdi estes pedaços para sempre e que tenho de tentar seguir em frente com aqueles que restam.
Mas é difícil continuar, agora que perdi parte de mim neste jogo de perseguir o inalcançável.
É um jogo que estava perdido desde que começou, mas que mesmo assim decidi jogar. Um jogo que agora me arrependo de ter jogado, já que não posso voltar atrás para apanhar os pedaços de alma que fui deixando pelo caminho.
Este jogo foi um caminho sem volta, um caminho que me tirou mais do que aquilo que eu estaria disposta a dar. Um caminho cheio de altos e baixos que terminou num abismo no qual estou inclinada a cair.
Tento agarrar-me ao que poder na ânsia de não cair. Mas tudo o que agarro quebrasse e esta cada vez mais difícil manter-me a beira do abismo sem cair.
Tudo em que toco desfaz-se em pó e voa a minha volta, como se quisesse turvar o que resta da minha visão.
É cada vez mais difícil conseguir agarrar-me a alguma coisa, e é cada vez mais difícil ver alguma coisa a que me possa agarrar.
Tenho medo que este último ramo, que me mantém a beira do abismo, se desfaça e eu não tenha mais nada a que me agarrar.
Quando olho para o fundo do abismo, fico assustada. Tudo o que vejo é a escuridão. Parece que este abismo não tem fim.
E por mais assustada que fique, parece que ouço a escuridão a chamar por mim, deixando-me ainda pior. Parece que a escuridão está a subir o abismo, com o único intuito de me apanhar e de me levar.
É cada vez mais difícil ver a luz a minha volta.
Parece que esta é sugada para o centro do abismo.
Aliás, parece que tudo o que me rodeia é atraído para este abismo.
A escuridão lá no fundo parece um buraco negro que pretende sugar tudo o que me rodeia, incluindo eu própria.
O que fazer para conseguir fugir a este tormento?
Parece que ando as voltas, pois cada vez que fujo, acabo sempre no mesmo sítio, na mesma posição. Parada diante um abismo obscuro, cuja escuridão tem vindo a aumentar a cada tentativa de fuga minha.
O que hei-de eu fazer?
Pelo que percebi, não consigo fugir a este abismo. O espaço que tenho para fugir e para me esconder esta a diminuir a medida que a escuridão cresce.
Os ramos aos quais me agarro na ânsia de me conseguir manter longe da escuridão, estão quebradiços e ao mínimo de toque, podem-se quebrar.
As minhas opções de fuga estão a acabar.
O meu desejo de ver o sol nascer, para iluminar o meu caminho esta a acabar.
Pois parece que nem o sol consegue iluminar o abismo.
A escuridão nele presente é muito forte.
Tenho medo do que me possa vir a acontecer se esta escuridão me alcançar finalmente, após tantas fugas e regressos a este abismo.
Sinto-me a desvanecer, assim como a ténue luz da lua se desvanece, perante a força crescente, da escuridão que imana deste terrível abismo.
Será que existe um último ramo ao qual me possa agarrar, nesta minha tentativa de fuga, a este tormento que me persegue?
Será que a verdade é que já não existe nenhuma salvação, e que a única coisa que posso fazer, é largar o ramo da vida, e cair de cabeça para a imensidão deste abismo obscuro?
Será que não existe nada que me possa salvar da perdição?
Que tudo o que fiz até ao momento foi adiar o inevitável destino que me estava reservado?
Será que a esperança, a ultima coisa a morrer, morreu?
Essa é uma questão a qual não sei responder. Apenas sei que este ultimo ramo que me sustenta esta a perder a força e esta a começar a quebrar-se.
É apenas uma questão de tempo até se partir. E quando isso acontecer, a ultima coisa que me separava do abismo desintegrasse, deixando-me a mercê da desconhecida escuridão que cresce no abismo.
O fim de tudo o que conheço aproxima-se. Sinto o fim a chegar. Como outrora senti o vento na cara, a água nos pés e o amor no coração