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Poète dans l'âme ? Provérbios, citações, poesia, filosofia

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Conhecem,José Carlos Ary dos Santos?
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Par défaut Conhecem,José Carlos Ary dos Santos? - 09/10/2006, 00h19

Ary dos Santos,foi quanto a mim um dos maiores poetas de Lingua Portuguesa..(esta afirmaçao so me engaja a mim) dos ultimos anos.Quem nao se lembra da Desfolhada ? Cançao que representou Portugal na eurovisao; Jà là vao uns anos pela Simone,assim como a Menina do alto da serra da Tonicha.
aqui deixo uns versos para lhe rendermos a nossa homenagem...ele deixou-nos a bem pouco tempo.Descança em paz,poeta.

Meu amor, meu amor
meu corpo em movimento,
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura ,
meu punhal a escrever.
Nós parámos o tempo,
não sabemos morrer.
E nascemos, nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor, meu amor,
meu nó e sofrimento.
Minha mó de ternura,
minha nau de tormento.

Este mar não tem cura,
este céu não tem ar.
Nós parámos o vento
e não sabemos nadar.
Morremos, morremos,
devagar, devagar.


José Carlos Ary dos Santos


"como se faz que nunca conheceremos as mulheres?
..portanto saimos de dentro delas...e entramos dentro delas" (igol)
   
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Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos?
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Par défaut Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos? - 09/10/2006, 00h23

Um dos poemas que nunca me canso de ler ou ouvir.
Aqui ficará. Para a posteridade. Foi cantado pelo Fernando Tordo

Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

José Carlos Ary dos Santos


"como se faz que nunca conheceremos as mulheres?
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Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos?
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Par défaut Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos? - 26/12/2006, 23h21

Para recordar a poésia de J.C.Ary dos Santos....pela boca de Simone de Oliveira


http://www.youtube.com/watch?v=TZl8P...elated&search=


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Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos?
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Par défaut Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos? - 14/01/2007, 23h09

Eis o extracto de uma entrevista de Jose Luis Gordo...em que nos fala dos vàrios poetas que ele cruzou , ao longo de sua vida.
Entre eles Ary...!!!!


JLG - O fado é uma canção nacional. E já pertence ao mundo: é a única canção que nós temos que é conhecida lá fora. De modo que, desde muito novo, o fado "prendeu-me" de uma maneira tão grande que fiquei sempre ligado a ele. Gostei do fado, gostei dos intérpretes, gostei da poesia do fado - que naquela altura era mais linear, mais simples, mais descritiva. Ia para A Viela, à noite, conheci os grandes autores - só não conheci o Linhares Barbosa porque já não fui a tempo - e comecei a ligar-me ao fado. Gostava do envolvimento, das pessoas... Eu era um miúdo, tinha 15-16 anos, ia para A Viela quando saía da Veiga Beirão, e ficava ali às vezes até às quatro da manhã. Depois ia-me deitar, às oito entrava para a loja, depois ia estudar - quando ia, faltava muitas vezes - e voltava para A Viela. Como é que um alentejano consegue ligar-se assim ao fado? O alentejano tem um espírito mais aberto, julgo eu. É fruto daquela planície, da paz que aquilo nos dá, da nostalgia, aqueles cheiros todos que o Alentejo tem, os cantos do Alentejo, todas aquelas aves, os sonhos...

A - E assim chegou ao fado...
JLG - Foi assim que cheguei ao fado. Depois conheci o Ary dos Santos, o Vasco de Lima Couto, o Joaquim Pessoa, o Zé Jorge Letria, o Zé Manel Osório... Tudo isto na casa do Ary, com o Nuno Nazareth Fernandes, o Fernando Tordo, fazia-se ali uma tertúlia onde o Ary era a figura central. O Ary ensinou muitos poetas. Daquela casa, na Rua da Saudade, saíram bons poetas porque o Ary despertou também em nós o jeito e a vontade de escrever.

A - Há uma maneira específica de escrever para o fado?
JLG - O fado obriga a muita coisa: as tónicas certas, as quintilhas, as sílabas, os decassílabos, os alexandrinos, e por aí fora. Não é muito fácil escrever para o fado, porque no fado está quase tudo escrito. Para fazermos poemas novos para o fado é preciso ter uma imaginação muito fértil, é preciso ter uma noção das músicas - porque o fado utiliza ainda muito as músicas clássicas: fazem-se muitos fados novos, mas estão quase todos dentro da mesma toada, dependendo do intérprete.
A - O Ary dos Santos marcou-o muito?
JLG - Foi o meu mestre. Na maneira de estar, e também no fado: aquela força toda que ele tinha, aquele "vulcão"! As palavras, a forma de dizer... Era uma pessoa maravilhosa, um grande amigo. Conheci-o quando tinha 17 ou 18 anos, depois trabalhei com ele na publicidade - com ele e com o Alexandre O'Neill e o Jerónimo Bragança. O Ary foi o meu poeta de eleição. Ele e a Natália Correia.

A - Que era outro "vulcão"...
JLG - Era. Para mim, é das mulheres que melhor escreveu em Portugal, nesta última geração poética. Eu, na altura, não entendia muito bem a poesia dela, achava-a muito complicada, mas depois, à medida que fui aprendendo na universidade da vida, comecei a perceber. E comecei a gostar. Ela também ia muito à casa do Ary, que era uma pessoa que reunia as pessoas à volta dele. Isto antes do 25 de Abril. Depois começou a reunir outras pessoas, que se foram aproveitando dele, e cada um foi para seu lado, essas coisas das políticas... Telefonava-lhe de vez em quando, e tive uma grande pena quando ele morreu.

A - Pelo meio de tudo isso surge a Maria da Fé...
JLG - Pois. Casei-me com a Maria da Fé e mais ainda o fado entrou dentro de mim e eu dentro dele.

A - Se ela não tivesse existido na sua vida, acha que teria feito as mesmas coisas?
JLG - É uma pergunta pertinente. Por um lado acho que sim, porque gosto muito de fado. Mas a Maria foi a minha musa. Eu era um jovem de 19 anos, apaixonado por uma mulher que cantava lindamente, e portanto juntei o útil ao agradável. E, hoje em dia, ela ainda paira muito nos meus poemas. É a minha musa. E tem muita influência na minha maneira de escrever, penso muito nela quando escrevo.

A - E foi para ela que fez aquele que é talvez o seu fado mais conhecido: "Cantarei até que a voz me doa"...
JLG - É o meu "ex-libris". O Pedro Homem de Melo tem o "Povo que lavas no rio", eu tenho o "Até que a voz me doa". É um fado que tem tudo a ver com ela. Mas também tenho a "Senhora do Livramento", por exemplo, que até já entrou numa telenovela, tenho o "Portugal meu amor", isto falando de sucessos. Acho que sou dos autores de fados que têm mais coisas gravadas e mais conhecidas, ainda que as pessoas não saibam quem é o autor. Uma falha grave que há em Portugal é que as pessoas não conhecem os autores das músicas. As rádios preocupam-se em saber quem são os autores estrangeiros, mas dos "da casa" não sabem. Nós devíamos ser um pouco mais patrióticos, gostarmos mais de nós. Mas não gostamos, temos vergonha das nossas coisas, da nossa arte, da nossa cultura. Porquê? É um defeito que nós temos, não sei se é um complexo.


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Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos?
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Par défaut Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos? - 18/01/2007, 18h52

quem se lembra deste poema do Ary dos Santos...????

Menina


Menina de olhar sereno
raiando pela manhã
no seio duro e pequeno
num coletinho de lã.

Menina cheirando a feno
casado com hortelã.
Menina que no caminho
vais pisando formusura
levas nos olhos um ninho
todo em penas de ternura.
Menina de andar de linho
com um ribeiro à cintura.

Menina da saia aos folhos
quem te vê fica lavado
água da sede dos olhos
pão que não foi amassado.

Menina do riso aos molhos
minha seiva de pinheiro
menina da saia aos folhos
alfazema sem canteiro.

Menina de corpo inteiro
com tranças de madrugada
que se levanta primeiro
do que a terra alvoraçada.

Menina de fato novo
ave-maria da terra
rosa brava rosa povo
brisa do alto da serra.

(Ary dos Santos)

http://www.youtube.com/watch?v=atA0c4Ozr04

encontrei...pela voz de Tonicha,a cançao que representou Portugal na Eurovisao de 1971..


"como se faz que nunca conheceremos as mulheres?
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Dernière modification par igol ; 18/01/2007 à 18h56
   
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Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos?
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Par défaut Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos? - 10/02/2007, 10h44

mais um poema do Ary...para quem gosta

O amarelo da Carris

Ary dos Santos)
O amarelo da Carris
vai da Alfama à Mouraria,
quem diria.
Vai da Baixa ao Bairro Alto,
trepa à Graça em sobressalto,
sem saber geografia.

O amarelo da Carris
já teve um avô outrora,
que era o xora???.
Teve um pai americano,
foi inglês por muito ano,
só é português agora.

Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes.
Entre a verdade, os peliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.

Quero um de quinze p'ra a Pampuia.
Já é mais caro este transporte.
E qualquer dia,
mudo a agulha porque a vida
está pela hora da morte.

O amarelo da Carris
tem misérias à socapa
que ele tapa.
Tinha bancos de palhinha,
hoje tem cabelos brancos,
e os bancos são de napa.
No amarelo da Carris
já não há "pode seguir"
para se ouvir.
Hoje o pó que o faz andar
é o pó (???)
com que ele se foi cobrir.

Quando um rapaz empurra um velho,
ou se machuca uma criança,
então a gente vê ao espelho o atropelo
e a ganância que nos cansa.
E quando a malta fica à espera,
é que percebe como é:
passa à pendura
um pendura que não paga
e não quer andar a pé.

Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes.
Entre a verdade,
os peliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.
Quero um de quinze p'ra a Pampuia.
Já é mais caro este transporte.
E qualquer dia,
mudo a agulha porque a vida
está pela hora da morte.




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Par défaut Re : Conhecem,José Carlos Ary dos Santos? - 21/02/2007, 23h11

Ary dos Santos ....fez-nos isto,que deve ser lido muito calmamente(os versos precisam de ser divididos)..mas quanto a mim, muito bonito..
a+


Num banco de jardim uma velhinha
está tão só com a sombrinha
que é o seu pano de fundo.
Num banco de jardim uma velhinha
está sozinha, não há coisa
mais triste neste mundo.
E apenas faz ternura, não faz pena,
não faz dó,
pois tem no rosto um resto de frescura.
Já coseu alpergatas e
bandeiras verdadeiras.
Amargou a pobreza até ao fundo.
Dos ossos fez as mesas e as cadeiras,
as maneiras
que a fazem estar sentada sobre o mundo.
Neste jardim ela
à trepadeira das canseiras
das rugas onde o tempo
é mais profundo.
Num banco de jardim uma velhinha
nunca mais estará sozinha,
o futuro está com ela,
e abrindo ao sol o negro da
sombrinha poidinha,
o sol vem namorá-la da janela.
Se essa velhinha fosse
a mãe que eu quero,
a mãe que eu tinha,
não havia no mundo outra mais bela.
Num banco de jardim uma velhinha
faz desenhos nas pedrinhas
que, afinal, são como eu.
Sabe que as dores que tem também são minhas,
são moinhas do filho a desbravar que Deus lhe deu.
E, em volta do seu banco, os
malmequeres e as andorinhas
provam que a minha mãe nunca morreu.


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