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Como o Brasil se tornou independente (2) -
08/12/2006, 23h05
Apos 52 dias de travessia, a esquadra real chega à Bahia. Esta cidade, fundada em 1549, fora a capital da colonia até 1763, data marcando a transferência da capital para o Rio de Janeiro. A familia real foi recebida com muitas demonstrações de alegria e reverência : era a primeira vez que um monarca europeu visitava e escolhia, em teoria de maneira provisoria, uma colonia sua como residência e sede do governo. Conta-se que a rainha, que, como jà foi dito, sofria de doença mental, ao ver escravos pretos a aclamar e a correr em volta do cortejo real, pus-se a gritar, pensando que tinha chegado ao inferno e que os demonios a cercavam ...
A esquadra seguiu depois para o seu destino final, o Rio de Janeiro.
Entre as primeiras medidas tomadas pelo principe-regente, autorizou a abertura dos portos brasileiros aos navios de comércio das nações amigas, isto é sobretudo a Inglaterra ... Acabava assim o exclusivo colonial que ligava o Brasil a Portugal, e de certo modo, o Brasil passava a ser menos colonia ... Essa medida, obtida pelas pressões dos enviados do governo de Londres, devia servir os interesses da economia inglesa, perto da asfixia devido ao bloqueio continental decretado por Napoleão. Os produtos ingleses invadiram o Brasil, muitos desses produtos sendo inuteis aos habitantes, por exemplo sobretudos ou patins de gelo ...
D. João autorizou a criação de tipografias, de escolas superiores (mas não ainda uma universidade), fundou o primeiro banco do Brasil, o Jardim botânico do Rio, o nucleo da biblioteca nacional do Brasil a partir dos 60 000 volumes que trouxera de Portugal, etc
De maneira que D. João dotara o Brasil de entidades e organismos proprios a um Estado.
Em 1815, um decreto eleva o Brasil à categoria de reino, formando com a metrôpole o Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves. O Brasil jà não era mais colonia, e era tratado em igualdade com Portugal. Isso constitui um passo decisivo para uma maturidade politica propicia a uma forma de autonomia.
Essa evolução muito ràpida do Brasil, visivel sobretudo no Rio e nas grandes cidades, refletia a consideração e mesmo a afeição do principe-regente pelo seus dominios americanos : D. João apreciava muito a sua estadia no Brasil, ao contràrio da sua esposa, D. Carlota Joaquina, e de muitos dos portugueses que o acompanhara, assustados pelo clima tropical (os calores de novembro a abril ou os fortes chuvas) ou menosprezantes para com os brasileiros e seus costumes pouco sofisticados em relação à da corte real ou de uma cidade europeia ...
O Rio de Janeiro tornou-se assim a nova capital do mundo português.
Apos 1815, a vitoria de Waterloo e o exilio de Napoleão na ilha de Sta Helena, D. João permaneceu no Brasil, enquanto Portugal, apos ter sido libertado pelo exército inglês de Wellington, era governado por um general inglês, Beresford ...
O principe-regente, agora rei (D. João VI), não tinha pressa nehuma em voltar para Portugal e encontrava no Brasil um reino com dimensões continentais, não aquele canto de Europa que era Portugal, sempre ameaçado por potências vizinhas ... O rei lançou o seu exército à conquista do actual Uruguai, aproveitando-se dos disturbios que abalavam as colonias espanholas que lutavam agora pela sua independência. Essas lutas independentistas não pouparam o Brasil, e houve vàrias insurrecções de inspiração republicana, nomeadamente no Recife em 1817. A repressão foi brutal : D. João VI continuava a ser um monarca absoluto e não aceitava qualquer oposição.
No entanto, foi uma revolução liberal no Porto em 1820 que obrigara o rei a voltar a Portugal : uma Assembleia de deputados eleitos (as Cortes) reuniu-se em Lisboa e exigiu o regresso do rei. A situação encontrava-se extremamente dificultosa para o hesitante D. João VI : ou ele não reconhecia as Cortes e decidia ficar no Brasil, provocando uma separação entre Portugal e o Brasil, ou regressava a Portugal e essa segunda hipotese teria a mesma consequência que a primeira ...
Foi essa ultima que escolheu D. João, pressionado também pelo governo inglês. Antes das despedidas, D. João nomeia o seu filho mais velho, o infante D. Pedro, regente do Brasil - que governaria em nome do seu pai e rei - e, antevendo a iminente independência do Brasil, exorta o seu filho a levar a cabo essa evolução ràpida e inevitàvel e a tornar-se o chefe do novo pais que não ia tardar a nascer. D. João VI receava o encontro com os liberais portugueses, que jà tinham diminuido os poderes reais, e não queria que o mesmo acontecesse no Brasil.
Deputados brasileiros participaram aos debates das Cortes portuguesas em Lisboa, mas viram que, ràpidamente, os interesses que defendiam eram cada vez mais alheios aos dos deputados portugueses. Esses, oriundos na maior parte da burguesia mercante, que comerciava muito com o Brasil, mas que entrara em crise justamente desde da abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional, exigiam que o Brasil voltasse à categoria de colonia e ao exclusivo colonial.
Convencidos que o regente do Brasil D. Pedro estava do lado dos brasileiros que encaram agora com seriedade a perspectiva da independência (ele tinha sido criado no Brasil durante a sua adolescência), os deputados exigem que D. Pedro volte para Portugal para "aperfeiçoar a sua educação", um pretexto para o afastar do Brasil e o controlar.
Face ao ultimato de Lisboa, D. Pedro decide resistir : primeira etapa, o "Fico" , proclamação na qual ele garante aos brasileiros que não regressaria a Portugal, e, perante as ameaças repetidas vindas de Lisboa, é o "Grito de Ipiranga" : D. Pedro, acompanhado por um esquadrão de dragões, perto de São Paulo, junto ao rio Ipiranga, recebe o correio de Lisboa. Ao ler as exigências das Cortes, proclama com voz alta, "Independência ou morte!". Era no dia 7 de Setembro de 1822, agora festa nacional no Brasil. Pouco tempo depois, D. Pedro é sagrado Imperador do Brasil na catedral do Rio de Janeiro, inspirando-se na cerimonia de coroação de Napoleão em 1804. O Brasil torna-se um Império até 1889, exemplo unico em toda a América.
Portugal tentou, com os seus escassos meios militares de reconquistar a sua colonia, mas em vão. Em 1825, o governo português e o rei D. João VI reconhecem a independência do Brasil.
A independência do Brasil foi de certo modo a consequência das guerras de Napoleão na Europa, obrigando a monarquia portuguesa a exilar-se nos tropicos. A presença do poder real no Brasil proporcionou um desenvolvimento repentino, inesperado e ràpido da colonia, agora centro do Império português. As tentativas de revoluções foram duramente reprimidas, mas as contradicções do desequilibrio entre um Brasil favorecido e um Portugal posto de lado apareceram com agudez em 1820 com a revolução liberal em Portugal. D. João VI regressa a Portugal para garantir a permanência da monarquia mas, ao deixar o seu filho no Brasil como regente, o seu plano é também manter um governo monàrquico no Brasil, e impedir que uma Republica, ou pior, umas Republicas fossem instauradas na antiga colonia.
A independência foi levada a cabo pelo proprio filho do rei e a monarquia imperial que estabelecera manteve até hoje a unidade do Brasil.
D. Pedro I reinou até 1830, data da sua abdicação, e seu filho D. Pedro II sucedeu-lhe até 1889, data da proclamação da Republica no Brasil, um ano depois da abolição definitiva da escravidão no Brasil ...
Aipu 
A bem da ração
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