Rancho Folclórico e Etnográfico "As Mondadeiras do Algueirão

A dois passos de Lisboa, situada à beira-mar, encontra-se a Vila de Sintra e a sua serra, caracterizada por grande diversidade de espécies animais e vegetais. É no sopé da serra que se encontra Algueirão-Mem Martins, vila desde 7 de Fevereiro de 1987, e que tem como santos padroeiros S. José e Nossa Srª da Natividade.
Neste local existe a tradicional e já secular Feira das Mercês, tipicamente saloia, que se realiza no 3º e 4º Domingos do mês de Outubro, onde antigamente se vendia gado, legumes, a tradicional Pêra Cozida e um doce regional, também ele secular, as famosas Queijadas de Sintra.
Era também nesta feira que, no final do século XIX / princípio do século XX, as moças casadoiras, depois da missa, passeavam junto ao Muro do Derrete, à espera de serem escolhidas ou pedidas em casamento pelos jovens e vaidosos saloios que pela feira deambulavam.
Foi com intenção de perpetuar e transmitir estas tradições, usos e costumes, que no dia 7 de Abril de 1978 se formou o Rancho Folclórico e Etnográfico "As Mondadeiras do Algueirão", tendo para isso encetado junto das pessoas antigas da região recolhas de danças e cantares, assim como de trajes utilizados na época.
Os acordeons, as violas, os ferrinhos, a gaita-de-beiços, o bombo, as tabuínhas, o réco-réco, as castanholas e a voz dos cantadores e das cantadeiras são os instrumentos que formam a tocata deste rancho.
Sendo o segundo rancho mais antigo do concelho de Sintra, realiza anualmente o seu Festival de Folclore, onde pretende dar a conhecer a diversidade e a riqueza do folclore português. Participa também em festivais nacionais e internacionais, de norte a sul do país, assim como em festas e romarias.
os trajos
Traje de Mondadeira

Normalmente contratada para arrancar as ervas daninhas dos trigais, fazia-se acompanhar sempre do saco da merenda e do seu típico "sache". Se era casada, trazia consigo grandes braçadas de erva no regresso, para alimentar os seus coelhos; se era solteira, caminhava despreocupada em rancho barulhento, onde a piada brejeira tinha lugar obrigatório. O traje da mondadeira, tal como a generalidade dos trajes de trabalho de senhora, era constituído pelas seguintes peças: lenço de caxemira; saia rodada, de riscado; blusa de chita; avental de riscado; roupa interior (saiote, corpete e colotes) de algodão de cor; meias de algodão e botas de atacador ou sapatos.
Traje de Lavadeira

Sem os detergentes e lixívias de hoje, a lavadeira do Algueirão (que lavava apenas para os ricos da localidade) utilizava a cinza, o sabão, o luar e o sol para branquear a roupa, aproveitando ao máximo as fontes e riachos da terra. Este traje é constituído, essencialmente, pelas mesmas peças e tecidos dos restantes trajes de trabalho femininos
Traje de Vendedeira

Os trajes das vendedeiras diferiam pouco na sua constituição; assim, os trajes de vendedeira de queijadas, de leite, de queijos e de hortaliças eram constituídos por: lenço de caxemira; saia de fazenda; blusa de chita; as vendedeiras de leite e queijo possuíam avental de peitilho e alças, apresentando as restantes avental à cintura; roupa interior (saiote, corpete e colotes) de algodão e botas.
A fotografia apresentada retrata uma vendedeira de queijadas.
Traje de Fogaceira

Do fervor religioso dos habitantes do Algueirão, muitos vestígios antigos nos ficaram. Este traje mostra-nos a fabricante de fogaças, destinadas a serem usadas na ornamentação dos "cargos" das pessoas que cumpriam promessas a Nossa Senhora das Mercês e da Natividade, nas festas e feiras que existem há mais de duzentos anos, e cuja tradição ainda hoje se mantém
Trajes de Noivos

O casamento foi, e ainda é, um passo importante na vida do saloio.
A noiva, tal como as dos nossos dias, demonstrava enorme empenho na escolha da vestimenta; porém, contrariamente ao que hoje acontece, as noivas saloias dos finais do séc. XIX/princípios do séc. XX não apresentavam o branco como cor dominante, vestindo-se das mais variadas cores e modelos, dos quais se podem destacar as seguintes componentes: lenço de fazendinha (bordado à mão); fato de duas peças (saia e casaca de fazendinha), todo cosido à mão, tendo a particularidade de possuir pregas; meias brancas, de algodão; roupa interior (saiote, corpete e colotes) de algodão branco; sapatos pretos e bolsa a condizer com o fato.
O traje do noivo era composto pelas seguintes peças: chapéu; calça, colete e casaca de fazenda preta; camisa de linho; gravata de cetim (usualmente cinzenta), roupa interior de algodão e botas pretas de botão.
Trajes de Lavradores Abastados

Os lavradores da região, principalmente os mais ricos, deslocavam-se à Feira das Mercês, tendo em vista a contratação de homens e mulheres para os trabalhos de campo. Daí que a ostentação da sua riqueza, através do seu traje, fosse imprescindível para um bom contrato.
Assim, o traje da lavradora abastada era constituído pelas seguintes peças: lenço; xaile; casaquinha e saia de brocado preto; roupa interior (saiote, corpete e colotes) de algodão branco e sapatos.
Por sua vez, o lavrador abastado envergava um chapéu de aba larga; calça de fazenda; colete e jaqueta de estracã; camisa de linho; roupa interior de algodão; cinta de algodão; botas pretas abotinadas, de botão e bengala
Traje de Capataz

Homem de confiança do lavrador, dirigia o trabalho do campo e tomava conta do pessoal contratado para os trabalhos das lavouras, onde permanecia várias horas encostado ao pau ou à sachola. Tal como a generalidade dos trajes de trabalho masculinos, este traje era composto por: barrete; calça e colete de cotim; camisa de riscado; roupa interior de algodão; cinta preta; botas de cabedal, com atacador; alguns possuíam jaqueta de cotim ou jaleca de riscado.
Traje de Boieiro

Especializado na condução de juntas de bois, quer no trabalho, quer nas feiras. Utilizava, para cada uma das funções, peças diferentes: a agulhada (para o trabalho no campo) e o agulhão (para levar o gado às feiras). Estas diferenças também se verificavam no trajar, uma vez que o boieiro utilizava chapéu largo e jaqueta nas feiras (como se encontra retratado na fotografia), enquanto que no trabalho de campo envergava o típico barrete saloio (tal como o carroceiro).
Traje de Cavador

Desempenhando trabalho braçal pesado, o cavador era a alternativa à lavoura com gado. A enxada assumia-se como peça fundamental da sua actividade, pelo que era uma companhia constante. Para proteger as pernas da humidade da terra, enrolava sacas de serapilheira, que também serviam para impedir a entrada de terra para dentro das botas, o que constituía um artefacto extremamente funcional e barato.
Traje de Semeador

Acompanhando o amanho da terra, o semeador (de saco à "bandoleira"), benzia-se ao iniciar o trabalho. Lançava a semente sobre a terra a passo cadenciado, com um gesto largo do seu braço, ritmado muitas vezes por um "Pai Nosso" ou "Avé Maria". O traje deste personagem era constituído essencialmente pelas mesmas peças e tecidos dos restantes trajes de trabalho.