Divertimentos e festas
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Par défaut Divertimentos e festas - 25/11/2007, 18h04

Nos meios rurais, ao longo do século XIX, eram os dias festivos (festas, feiras, romarias, casamentos, baptizados) que davam direito a rancho melhorado e a fato domingueiro. A feira ou a festa da aldeia estavam, normalmente, ligadas à celebração do dia do santo padroeiro. Da festa faziam parte divertimentos como o canto, o toque de instrumentos musicais, a dança, a gastronomia e o jogo, para além das cerimónias de carácter religioso. Nos bailes, realizados nos terreiros, nos celeiros ou nas lojas, dançavam-se as danças de roda e, no fim do século, entraram no seu repertório musical as castanholas. Eram também os camponeses os melhores guardiões das tradições sacroprofanas ligadas às festividades religiosas. As actividades de mulheres e homens reunidos ao serão (fiar, tecer, consertar alfaias) declinaram, a partir dos anos 80, em favor das funções lúdicas (músicas, danças, jogos) praticadas pelos mais novos. Além dos divertimentos, os jovens asseguravam, em boa medida, a vitalidade social da comunidade e geriam a solidariedade ou rivalidade das famílias e aldeias. A emigração dos jovens e a difusão de divertimentos de origem urbana pelas aldeias contribuíram significativamente para o desaparecimento dos costumes camponeses.
Nos centros urbanos do século XIX, sobretudo em Lisboa, foi-se constituindo uma multiplicidade de espaços de sociabilidade cultural. O teatro, o concerto, o café, o clube, a associação (política, cultural, recreativa, profissional, popular), o salão, o sarau, o recinto de baile, a tertúlia, a tourada, o circo, o comício, o cortejo, a comemoração, a exposição, o recinto desportivo, o passeio público, entre outros, eram lugares onde as pessoas conviviam, se divertiam, trocavam opiniões e recebiam informação.
Esses locais não eram frequentados indistintamente, nem a população urbana se apropriava deles de igual modo, estando a sua frequência condicionada por factores de vária ordem, tais como os interesses culturais, a mentalidade, o poder económico, a condição social, o prestígio pessoal dos potenciais utentes. Daí que a frequência diferenciada desses espaços se traduza em distintas formas de sociabilidade cultural das diversas classes sociais.
Ao longo do século XIX, as classes superiores (aristocracia, alta burguesia e, de certo modo, média burguesia) cultivavam, acima de tudo a música, a dança e o teatro. O piano invadira, após 1850, as casas de família, para nele se exercitarem os filhos na arte musical. Por sua vez, as sociedades filarmónicas eram os locais de prática e audição da música, frequentados pelas elites. A música estava presente em todos os actos sociais. Os bailes constituíam momentos especiais de divertimento e convívio e realizavam-se a vários pretextos. Tanto a família real, como a aristocracia, e até a alta burguesia (após os anos 70) faziam reuniões sociais (saraus) onde, para além do baile, se servia comida e, por vezes, se ouvia música e se fazia teatro.
A média burguesia divertia-se, entretanto, nos bailes organizados pelas associações recreativas de elite. A arte de representar também atraiu as classes superiores, que não só frequentavam as casas de teatro profissional existentes, sobretudo nas grandes cidades, como participavam no teatro amador, chegando a possuir teatrinhos onde realizavam os seus espectáculos. A aristocracia e a burguesia assistiam à ópera em S. Carlos e ao teatro dramático no D. Maria II, conviviam no passeio público (mais tarde substituído pela Avenida da Liberdade), frequentavam as estâncias balneares e termais de prestígio, praticavam os desportos da moda e vibravam com a tourada (sobretudo a nobreza tradicional).
A vida social e cultural da maior parte dos grupos populares urbanos, no século XIX, está intimamente ligada às associações, verdadeiros centros de convívio, recreio e cultura. Era, de facto, nestas que operários, artífices, caixeiros e outros ocupavam os seus tempos livres, cultivando a música, o teatro e a dança.
Entre 1850 e 1890, criaram-se inúmeras sociedades musicais (filarmónicas), na capital e na província, constituídas por elementos do povo. Outro dos divertimentos das classes populares eram os bailes que, sobretudo a partir dos anos 70, se realizavam no Verão, ao ar livre (bailes campestres). Constituíram-se, então, sociedades recreativas, muitas delas com agrupamento musical próprio, que dispunham de um espaço adequado, geralmente um quintal, para o efeito. Por todo o país, mas com mais incidência nas principais cidades, formaram-se grupos de teatro amador, de que faziam parte artífices, operários e outros populares. Os espectáculos de teatro (profissional), de circo e de tourada eram muito apreciados pelas classes baixas. Em Lisboa, o teatro de revista (anos 70), o teatro ao ar livre (fins da década de 70) e o teatro de feira contavam--se entre os mais populares, devido ao preço acessível dos bilhetes. A exibição de grupos de circo ambulante, nomeadamente de espectáculos de títeres, tinha também grande popularidade.


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