A arquitectura filipin
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Par défaut A arquitectura filipin - 25/11/2007, 16h33

Os reinados de Filipe I e Filipe II de Portugal pautaram-se pela realização de grandes campanhas de obras em diversos edifícios já existentes, com particular incidência em Lisboa, com o fito de criarem uma imagem emblemática, dinamizadora da nova casa real portuguesa. Contudo, a partir de 1620, as obras reais vão rareando no país, explicando-se este fenómeno com a crise económica que, avassaladora, tomava conta dos cofres públicos. As obras filipinas caracterizaram-se por intervenções avultadas nos edifícios dos paços reais existentes nas proximidades de Lisboa - Almeirim, Sintra e Salvaterra -, nos quais se refizeram jardins, se abriram galerias voltadas para os campos e outras remodelações de influência italianizante ou flamenga, como Filipe I impusera nas suas casas de repouso em Espanha. Programa mais desenvolvido foi reservado ao Paço da Ribeira, em Lisboa, onde as obras duraram entre 1580 e 1619, intervindo nelas os arquitectos Filipe Terzi, Juan de Herrera, Baltazar Álvares e Francisco de Moro, no final. A ordenação da zona ribeirinha na capital, com a conclusão do Cais de Alfândega (Terzi, 1605) e diversos projectos, aliás não concretizados, de abastecimento de água à cidade, encerram a intervenção filipina na arquitectura civil de Lisboa. Entretanto, diversas ordens religiosas construíam as suas casas ao longo da linha do Tejo para ocidente, funcionando como verdadeiros pólos de expansão e fixação urbanas, que muito contribuiram para o alargamento da Lisboa seiscentista. Na zona ocidental, Filipe I concluíra as obras do mosteiro dos Jerónimos, levadas a cabo por Terzi, Nicolau de Frias e Diogo Marques Neves. Mas foi a S. Vicente de Fora, no lado oposto da cidade, que o rei dedicou grande atenção, para transformar a grande mole arquitectónica do século XII e que D. Sebastião apenas desejara remodelar. Aqui estabeleceu o panteão real e, por isso, entregou as obras aos seus arquitectos preferidos: Juan de Herrera, Terzi e Baltazar Álvares, tendo sido Teodósio de Frias a concluí-las, em 1629, com a feitura dos retábulos. De grande impacto visual na cidade, S. Vicente iniciou um tipo de planta longitudinal e uma fachada de rigorosa concepção clássica que muito influenciaram obras posteriores. As intervenções régias estenderam-se ainda à regularização da barra do Sado (Baltazar Álvares e Leonardo Turriano, 1604) e à conclusão de obras no convento de Cristo, em Tomar, com o elegante aqueduto de Pegões Altos (1619), enquanto nos Açores se terminava a Sé de Angra (Luís Gonçalves Cota) e se reerguia, segundo uma malha reticulada, a vila de Praia da Vitória, destruída pelo sismo de 1614. Paralelamente a esta actividade, também as ordens religiosas desenvolveram notáveis investimentos em novas construções, sobretudo nos grandes centros urbanos. Tal sucedeu nomeadamente com os jesuítas (em Lisboa, Porto, Coimbra e Angra) e os beneditinos (S. Bento, em Lisboa e no Porto). Curiosamente, as duas ordens escolheram Baltasar Álvares, que se vinha afirmando hábil na manipulação do léxico arquitectónico e das artes decorativas, não desdenhando planificar os ornamentos, estofos, obras de pedraria, de retábulos, etc. Outros mecenas escolheram este mesmo arquitecto nas obras de S. Domingos de Benfica e Nossa Senhora da Luz. As grandes obras reais obrigaram à modernização do trabalho nos estaleiros: do trabalho a jornal passou-se ao trabalho de empreitada e o próprio profissional de arquitectura deixou de ser o encarregado de obras, passando a ser o projectista. Dinastias de famílias de arquitectos - os Álvares, os Frias e os Tinocos - foram-se modernizando com os conhecimentos veiculados pela tratadística italiana, em particular, e pela Aula do Paço, não estagnando na aprendizagem com os familiares mais velhos. Deste modo, a arquitectura portuguesa do ciclo filipino é notável pelo equilíbrio conseguido entre as tradições autóctones e a assimilação de valores importados.


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