AQUI FOI PORTUGAL!
Quando da 1.ª Viagem Presidencial, em 1938, o saudoso Marechal Carmona proclamava, ao pisar Terras do Ultramar, «AQUI É PORTUGAL!», fazia uma afirmação de Fé, para além de mostrar e relembrar a Determinação Lusíada de dar novos mundos ao Mundo, como ainda assegurava às Populações a continuação da Portugalidade.
Quando se dizia que Portugal não era um pais pequeno, provava-se que todo o Território Lusíada era bem maior que toda a Europa.
Entenda-se por Território Lusíada as Terras de Aquém-e-Além-Mar.
Quando os heróicos bravos da revolução reaccionária de 25 de Abril, data ímpar na História de Portugal, desmantelaram a Pátria, reduzindo-a ao que foi em 1263, no reinado de D. Afonso III, provaram que em 1974 era possível a existência de vários Migueis de Vasconcelos.
Ressalve-se que só dois séculos mais tarde se iniciaram as Descobertas.
Quando esses traidores à Pátria forem julgados no lugar próprio, em Tribunal, por traição à Pátria, terão de explicar e justificar os seus actos, porque nas consciências dos portugueses estão há muito condenados, sem hipótese de perdão.
O reconhecimento da República Popular de Angola é facto consumado e o «acordo» de Alvor foi coisa morta e nada significativa.
O imperialismo russo-cubano instalou-se em Angola, levando consigo a tal «democracia» e «liberdade» feita com a vontade bestial dos lacaios moscovitas.
Os mortos contam-se por dezenas de milhar e o solo angolano conhece agora o autêntico colonialismo, este de feição ditatorial e imposto pela força das armas.
— Afinal Angola não foi libertada!
— Afinal Angola é apenas vítima inocente da cobiça moscovita.
— Afinal Angola é agora realmente urna colónia.
Faz pena tudo isto. Faz pena porque nós, portugueses de todas as cores, estamos desde 1974 a ser vítimas de um amplo sistema de descolonização que de exemplar nada tem.
Faz ainda pena, porque vimos muitos dos infelizes retornados — refugiados de guerra — desesperados e com poucas esperanças, já que tudo lhes foi roubado em nome da democracia e da liberdade.
Faz ainda pena, porque somos forçados a reconhecer que afinal tudo está certo: é o resultado de uma fórmula, entre as muitas conhecidas, utilizada pelo comunismo para se apossar do alheio, já que pela razão os Portugueses tinham vencido, em todos os campos: em combate e no pacifismo!
Em combate, porque qualquer dos movimentos de «libertação» estava com-pletamente vencido, especialmente o MPLA, o mais frágil e mais comprometido de todos, ressuscitado milagrosamente das próprias cinzas pêlos revolucionários--progressistas-abrileiros, que generosamente o guindaram à categoria de seu vencedor, sabe Deus a soldo de quem...
Acusar os Portugueses de colonizadores constitui grave ofensa, que só um cérebro mentalmente desequilibrado poderá fazer.
Quantas Familias não se desfizeram de todos os haveres, aqui na Metrópole, para os investirem em Terras Ultramarinas?
E fizeram-no porque sentiam estar em Terras Portuguesas, portanto em território Pátrio.
Pois não é verdade que desde há séculos as Terras do Ultramar também eram Portugal?
Como justificar tudo isto, e ainda mais o que se passou e passa em Moçambique, Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e no muito martirizado Timor? Descolonizadores exemplares? Não interessa procurar razões justificativas, elas não existem, e os nossos seguidores não hesitarão em classificar a nossa geração de traidores, por abandono de território Pátrio.
A herança recebida, mantida ao longo de tantos séculos, com muitos Mártires e Heróis, está completamente delapidada, destruída e irremediavelmente perdida.
Bastaram os anos de 1974 e 1975, os anos da vergonha, para destruir oito séculos de História, por obra e graça de um grupo de imbecis armados e a corja de políticos de pacotilha que os acompanhou, todos arvorados em progressistas, iluminados e mentalizados por caquéticos marxistas a soldo de Moscovo, onde nem sequer faltou um autêntico louco!
Não interessa, de momento, procurar as razões da passividade de todos nós ante tão grave Desastre Nacional, porque inegavelmente a cobardia apossou-se de todos, face às loucuras que nesses dois terríveis anos assistimos e sentimos na própria pele. O grave é que os nossos seguidores nos vão acusar de actos que não praticámos e para os quais não fomos consultados.
Tudo o que aconteceu foi concertado em gabinetes revolucionários, em nome do Povo, mas sem a sua concordância; os factos apareceram consumados sem apelo nem agravo.
Foram os nossos ancestrais que deram novos mundos ao Mundo, que levaram a Cruz de Cristo por mares nunca dantes navegados, onde agora, nessas Terras sagradas, paira a morte e a desgraça, em nome da democracia e da liberdade, numa autêntica colonização da tirania comunista que teimosa e obstinadamente marca com sangue as sete partidas do Mundo.
Têm vindo, desde 1974, todos esses oportunistas, iluminados, super-politi-zados, e inúmeros imbecis a apresentar razões que não convencem ninguém. Mas agora bastai
Demitam-se!
Exilem-se l
Calem-se l
A saturação que motivaram entre nós com os seus utopismos, empinados a martelo em velhos livros marxistas, leninistas e quejandos, onde as teorias fantásticas se amontoam, confundiu os incautos e os pouco inteligentes. Teorias preparadas cientificamente para o atrofiamento de cabeças fracamente trabalhadas, para provocar nestas uma rápida assimilação.
E isto porquê? Porque concretamente é muito mais fácil exercer domínio absoluto sobre esse tipo de indivíduos, normalmente ocos e invejosos, frustrados e oportunistas, despolitizados e mandriões. A razão da reedição —pela oitava vez— de «SANGUE NO CAPIM» é não só para que os factos não sejam esquecidos, mas sobretudo para que os mais jovens tenham a perfeita consciência do que efectivamente foi a epopeia vivida em Angola pela sua população.
Os Portugueses de Angola, laboriosos e pacíficos, não mereciam, em caso algum, o tratamento de que foram vítimas, em nome de uma «libertação» que não pediram, contra a qual lutaram com todas as forças, de armas na mão, sem sequer aguardarem instruções governativas, porque de tal não careciam, dado usarem o direito indeclinável de defenderem a Pátria.
E Angola era Portugal !
REIS VENTURA conseguiu, e Bem-Haja porque o fez, traduzir para palavras despretensiosas, mas bem sentidas, alguns dos mais significativos momentos da hecatomba monstruosa que em 4 de Fevereiro de 1961 vieram e continuam a manchar de sangue a Paz Lusíada da vida angolana, para logo em seguida virem os bandos de terroristas e assassinos que, comandados do exterior, iniciaram os horrorosos massacres no Congo Português.
Iniciou então o terrorismo internacional, subsidiado pelos habituais fornecedores — os países do leste europeu, cuja capital ideológica é Moscovo — o mais violento e sanguinário massacre terrorista que os inimigos da Civilização Latino-Cristã desencadearam em África, depois da última guerra mundial.
Devemos essa honra aos inspiradores das horrorosas carnificinas de 15 e 16 de Março de 1961, dado partirem do princípio que era preciso algo de espantosamente horrendo e trágico para aterrorizar os honrados Portugueses.
E, rapidamente, aproveitando a naturalidade e a sinceridade da nossa convivência plurirracial, caíram de surpresa sobre pessoas sem culpa nem crime, decapitando, despedaçando e esquartejando.
Portugueses brancos, pretos e mestiços, homens e mulheres, adultos e crianças, todos ficaram aos pedaços pelas ruas de povoações isoladas e nos terreiros das roças de café, grandes e pequenas, duma vasta região da Província do Uíge.
Mas os crápulas que, de longe, com as palavras cínicas da ONU, com droga e feitiçaria vindas de Praga, Acera, Moscovo e Léopoldville, assolaram até um demoníaco paroxismo os instintos primitivos de algumas tribos nativas, mais uma vez se enganaram.
Nem o tremendo choque emocional dessas centenas de vidas inocentes despedaçadas à catanada, logrou o efeito visado pêlos inimigos de Portugal. Nem com a dose máxima de horror, longa e comodamente preparada pêlos agentes da subversão mundial, os Portugueses de Angola se intimidaram.
Bem pelo contrário: trocaram por armas o pouco dinheiro que tinham para o pão; colocaram a salvo mulheres e crianças para ficarem de mãos livres para o combate; agarraram-se obstinada e teimosamente a lugarejos insignificantes como Ucua ou Mucaba; entrincheiraram-se em vilas isoladas, como Damba ou Quitexe; deram o alerta para Luanda e Benguela; gritaram às armas em centros nevrálgicos de defesa, como Carmona e Negage.
E a gesta heróica começou, com os seus mortos, os seus heróis, os seus lances de autêntica epopeia. No ano de 1961, á vida em Angola adquiriu sentido heróico!
Da 1.a edição, pelo «Diário de Notícias» em 1963, recortei várias passagens que considero de extrema importância para o entendimento do tema.
Em qualquer dos casos, creio que o título AQUI FOI PORTUGAL!, para a colecção que este livro inicia, está perfeitamente justificado.
Os colonizadores russo-cubanos iniciaram a descoberto, em11 de Novembro de 1975, a libertação dos que conseguiram suster na sua fuga para a Mãe-Pátria.
Os que lerem este livro que meditem nos factos narrados, que atentem nos nomes dos muitos heróis aqui citados, não esquecendo a Juventude que do Minho ao Algarve acorreu a Angola, rapidamente e em força!, nem os Portugueses de todas as cores que em terras de Angola se bateram, e ainda se batem, pela Bandeira das Quinas, que ainda tremula como símbolo sagrado da Pátria, algures em Angola.
O epílogo —PARA QUÊ?— que REIS VENTURA escreveu agora não contém nada de novo.
Faz perguntas e formula acusações. O leitor não terá respostas para lhe dar.
O documento que este livro representa fica!
FERNANDO PEREIRA
sanguecapim
«EU OS DESAFIO DAQUI A VIREM VER A OBRA GRANDIOSA DOS PORTUGUESES, BRANCOS E PRETOS»
Artur Sapassa
A SENTINELA
O bando concentrado no campo de futebol, nas vizinhanças do Muceque Lixeira, partiu-se em dois grupos, cabendo ao mais pequeno ir atacar o quartel da Brigada Móvel da Polícia.
A todos fora distribuído o feitiço contra as balas. Todos tinham tomado o milongo da coragem. Todos acreditavam que o Deus dos brancos morrera e, por isso, eles já não tinham mais força. Bastava matar alguns e logo os outros fugiriam, como tinha acontecido no Congo Belga, donde viera o senhor Pierre mais o senhor Fernando.
O grupo destinado à Brigada Móvel levava um plano bem urdido. Os atacantes deviam meter ao Mercado da Pameli, atravessar pela Emissora Oficial (matando o guarda para que não desse o alarme) e avançar até à estrada do Catete, pêlos eucaliptos. Aí, o grosso do bando escondia-se no capim, logo a seguir ao Bairro de Madame Berman, enquanto quatro homens iam liquidar a senti*nela, daquela maneira que o «senhor Fernando» ensinara. E tudo o mais seria fácil.
Quando o grupo partiu, um dos que ficavam perguntou ao chefe:
— E nós?
— Nós vai todos junto na Estação do Bungo — declarou um preto alto, de vestuário mais cuidado e pronúncia afrancesada. — Mas, primeiro tem de arranjar uma coisa ...
Escolheu quatro homens, segredou-lhes rapidamente umas ins*truções e disse para os outros cabecilhas que aguardavam ordens:
— Toda a gente vai esconder nas barrocas, por baixo da casa do branco que trabalha nos mármore, e fica lá até a gente aparecer. Fica quieto e não faz barulho, mesmo se ouve tiros e confusão ... Andar! ...
Quando os outros acabaram de se sumir no carreiro que desce a falésia, os cinco negros, a um sinal do chefe, começaram a cami*nhar pelo asfalto, em direcção à cidade.
Era uma noite de Fevereiro, quente, abafadiça, a prenunciar a primeira grande chuvada do ano. Devia passar das 2 horas da manhã. Pesadas nuvens de trovoada ocultavam o carão redondo e bolachudo da Lua cheia.
Terminadas desde há muito as sessões de cinema e abandona*dos, pêlos últimos retardatários, os bares e esplanadas, a cidade adormecera, sob o céu, com a tranquila serenidade duma criança saudável. No silêncio impressionante, os cinco negros avançavam atentos, com as catanas curtas entaladas no cinto contra as costas, por dentro da camisa e com o cabo aflorando junto ao pescoço.
— Se calhar, a patrulha hoje não vem ... — opinou um ambuíla alto e espadaúdo.
— Vem sempre! — garantiu o cabecilha. — Há mais dum mês que eu a vejo passar, a esta mesma hora, vinda dos lados de S. Paulo. É uma «Station» verde ... Olha, ela aí vem!
Ouvia-se, efectivamente, ainda distante, o roncar dum motor de automóvel. E não tardou muito que, das bandas do posto da Boavista, surgisse o clarão dos faróis.
O cabecilha, seguido dos comparsas, correu para a frente da viatura, agitando os braços. O carro da patrulha estacou de repente, com um aflitivo chiar dos pneus contra o asfalto.
— Que há? — perguntou paternalmente um guarda de rosto calmo e bonacheirão, que ia ao lado do motorista.
— Barulho, meu chefe! — disseram os cinco pretos ao mesmo tempo. — Barulho ali nas barrocas!
— Nós é estivador — acrescentou o cabecilha, adiantando-se.
— Vem agora do porto, onde teve serviço de noite. E foi atacado por uns bandido que estão nas barrocas, com facas. Parece é cabo-verdiano. Nós fugiu; mas outros ficou lá a lutar.
— Onde foi isso? — quis saber o guarda.
— Ali no frente. Por baixo daquele branco que tem loja de coisas de mármore, canteiro parece que chama. Nós pode ensinar...
— Salta para o estribo! — convidou singelamente o polícia.
O negro obedeceu, com um sorriso enigmático a arreganhar-lhe os beiços. E, agarrando-se com uma das mãos à ombreira da porta, com a outra, por cima do tejadilho, fez sinal aos parceiros para que seguissem atrás do carro.
— É já ali adiante! — informou depois, para dentro da viatura, com os olhos ávidos nas pistolas-metralhadoras dos guardas.
— Vamos lá, devagar... — disse o chefe da patrulha ao motorista. E acrescentou para o preto:
— Os bandidos eram muitos?
— Nós não reparou bem, meu chefe. Fugiu logo ...
— O carro pode chegar até lá?
— Até perto, meu chefe.
Sob a indicação do informador, o carro da patrulha rodou até muito perto da Oficina de Mármores e Cantarias, torcendo então para a esquerda, por um carreiro que levava a um quintalejo cheio de carros para reparação.
Deixando o carro, os três guardas, despreocupadamente, embora levando as suas armas, seguiram o informador. Atrás deles caminha*vam os outros pretos.
— Parece eles esconderam mesmo ali...—segredou o cabe*cilha, indicando, alguns metros adiante, uma zona escura, circun*dada de tambores vazios.
Os guardas avançaram. Numa atitude de medo bem fingido, os cinco facínoras deixaram-se ficar para trás. E no momento em que os agentes da ordem, confiantes e desprevenidos, se curvavam a perscrutar a escuridão, atacaram-nos pelas costas, com as afiadíssimas catanas.
Atingidos com fundos e certeiros golpes na nuca, os três homens tombaram de borco, sem um gemido, jorrando sangue em borbotões.
O cabecilha tirou-lhes rapidamente as armas e os sacos das mu*nições.
— Vamos! — disse para os outros. — Depressa! Descendo em correria o barrocal, logo encontraram o bando, acaçapado entre os arbustos, perto dos muros da Mobil Oil.
— Já está? — perguntou aquele dos cabecilhas que dava pelo nome de «senhor Fernando».
— Já está! — respondeu sucintamente o recém-vindo. — Apa*nhámos duas metralhadoras. — E passou-lhe as armas.
— Uma é para ti — concedeu o outro generosamente. — Avante!
Seguiram até à passagem de nível, ao começo da estrada da Boavista, em frente dos armazéns da Junta do Café. Aí, o «senhor Fernando» destacou do grupo uns dez homens, que confiou a um negro atarracado, recomendando-lhe que fosse à estação do Caminho de Ferro, «para aquilo que ele sabia» ...
Depois voltou-se para o resto do bando e, exibindo vaidosamente a pistola-metralhadora, informou:
— Nós vamos soltar os nossos irmãos que estão presos.
À porta de armas da Casa da Reclusão, estava uma sentinela negra ...
Com ela, vigiava também um cabo branco. Ambos
naturais de Angola.
Tinham entrado de serviço à meia-noite, à hora da saída dos cinemas, quando a cidade oferece a sua última onda de vida e movi*mento, antes de adormecer.
Durante meia hora, ouviram o roncar distante dos motores de automóveis na «Baixa» e viram as luzes dos faróis, desfilando pela Avenida Almirante Azevedo Coutinho, sobre a ferida gretada da falésia.
Ali perto, na Estação do Bungo, silvou repetidas vezes o apito duma locomotiva, na tarefa de agrupar a composição, que seguiria para Malange, ao romper da manhã.
Depois, não houve mais apitos. Lá em cima, por trás do grande «écran» do «Miramar», apagaram-se as últimas luzes da esplanada. Pouco a pouco, foram cessando os mil ruídos da cidade. No cais, os guindastes, alinhados duma e doutra banda, erguiam-se, imóveis e hieráticos como grandes girafas dormindo em pé. De vez em quando, o feixe luminoso do farol das Lagostas varria a noite abafada no suadouro das nuvens baixas. E o farolim da ponta da ilha, dava-Ihe, a espaços regulares, uma resposta acriançada, com o piscar da sua luzita de vaga-lume.
Durante segundos, a Lua cheia mostrou-se por entre um rasgão das nuvens, acendendo pálidos reflexos nos tanques prateados da refinaria do Alto da Mulemba.
Mas logo se escondeu outra vez, deixando atrás de si uma escuri*dão mais espessa.
Foi neste momento que os dois militares sentiram inexplicavel*mente, nas suas almas iguais, sob o céu morno, a mesma sensação de opressivo silêncio.
— Eh! pá! — disse o cabo, que era de temperamento alegre e comunicativo. — Está uma noite de fazer sono ao diabo! Gaita! Até um homem sua a alma! ...
— É mesmo, meu cabo! — fez sucintamente a sentinela negra.
— Chateiam-me estas nuvens mesmo em riba da cabeça! — continuou o cabo, limpando, com um lenço, o suor do pescoço.
— Parecem cobertores de papa em cima da gente. Uf... Tu donde és?
— Eu é da Damba, meu cabo. Mas sentou praça aqui. Já vive há muito tempo em Luanda.
— Pois eu nasci no Bailundo. Terra bem acabada, pá! Pequena, mas sem este calor estuporado do litoral. No Bailundo, durante o cacimbo, faz frio a valer. Dizem que é quase como em Lisboa. Tu já foste no Puto?
— Eu não. E o meu cabo?
— Também não. Mas os meus pais são de lá ...
— Atão um dia há-de lá ir — deduziu o soldado. — Eu tem um amigo que já foi no Lisboa. «Terra grande e bonita, mesmo» — diz ele. — O meu cabo quando vai lá?
— Falta o dinheiro l — disse o branco melancolicamente. — E, além disso, já não tenho lá ninguém. Toda a minha família está no Bailundo há muitos anos. Daqui a dois meses, já volto para lá. Tenho a minha rapariga à espera, para casarmos. É tão bonita, pá! ...
Um ar sonhador perpassou no rosto moreno do militar. Por entre a doce névoa da sua incurável saudade, emergiu a carita engraçada da noiva, naquele seu jeito humilde e nostálgico de que ele, im*pulsivo e folgazão, tanto gostava, dentro da sábia lei das compen*sações com que a natureza determina a simpatia dos contrastes.
Ela era de Nova Lisboa; mas residia, desde criança, em Vila Teixeira da Silva, onde seu pai servia o Estado, como funcionário administrativo. Contrastavam no físico e no temperamento: ele alto e bravio, ela pequenina e submissa. Mas tinham uma coisa de comum: ambos adoravam crianças. «Havemos de arranjar, para nós, aí um rancho de dez!» — tinha ele dito maliciosamente pouco antes de vir para Luanda, numa tarde de namoro. E ela havia sorrido, concordando muito corada ...
— Tu não tens rapariga? — perguntou à sentinela negra, menos por curiosidade do que ao impulso dos próprios pensamentos.
— Eu é casado, meu cabo — informou o soldado. — Tem mu*lher e dois filho pequinino.
— Casado mesmo, ou é só companheira? — quis saber o branco.
— Casado mesmo, com propriamente pela igreja, meu cabo. E os filhos está todos baptizado. Nosso tenente é o padrinho ...
— Viva! — fez o cabo, admirado. — Não sabia que eras compa*dre do nosso comandante.
— Na igreja é compadre, mas aqui é só sordado — esclareceu a sentinela, numa subtil mistura de amizade e respeito. E, mostrando os dentes alvíssimos num largo riso vaidoso, acrescentou: — Todos os dias de Natal, nosso tenente dá prenda nos meus meninos ...
— Eh! eh! — continuou em tom diferente, retesando os mús*culos e segurando melhor a arma. — Olha os preto que vem acolá, meu cabo! ...
O branco seguiu a direcção indicada pelos olhos da sentinela.
Um numeroso grupo de indígenas surgia silenciosamente dos lados do parque de minérios, entre uma composição ferroviária estacionada no desvio da linha e os armazéns da Junta do Café.
— São estivadores que voltam do porto — interpretou o cabo, depois de breve observação.
— Uhm! — desconfiou a sentinela, alongando os beiços em funil.— Estivador fala muito e estes gajo vem calado! Repara já, meu cabo! Não é negros de Luanda, não ... Parece é mesmo matumbo. Eu vai ver que é que os gajo quer, meu.cabo.
— Deixa-te estar no teu posto, pá! — ordenou o branco. — Eu é que vou saber donde vem esta malta.
E avançou para o bando ...
— Vocês deixa o branco chegar perto e ataca como eu ensi*nei — segredou o «senhor Fernando», empurrando para a sua frente dois dos companheiros, enquanto ele próprio recuava para detrás dum «jota» da composição ferroviária.
— Donde é a vinda, a estas lindas horas? — perguntou o cabo, em tom amigável, aproximando-se confiadamente, de mãos nos bolsos.
Mas, reparando, de repente, no cabecilha e na sua pistola-metra-Ihadora, acrescentou, siderado de espanto:
— Ele que raio de história é esta?!
E não teve tempo de dizer mais nada. Um dos bandidos arran*cara a catana detrás das costas e atingira-o com uma cutilada na cabeça. E logo outra catanada, vibrada num braço, fez-lhe cair inerte a mão que buscava, no coldre, a coronha da pistola.
Tentou recuar, meio cego pelo sangue que lhe escorria da cabeça e rilhando os dentes a dominar a dor:
— Corre a avisar o Quartel General ! — gritou para a sentinela que vinha em seu auxílio — Ai ! ...
O gemido estertorou-se-lhe na garganta que uma catanada certeira cortara profundamente.
— Às armas! — bradou a sentinela. E já carregava sobre os facínoras, de baioneta em riste, quando sentiu que o seu camarada branco, tombado no chão, erguia para ele uma mão convulsa, num esforço derradeiro, a lembrar-lhe a ordem dada. E reparou tam*bém que o negro da pistola-metralhadora avançava para ele, convidando:
— Entrega a tua arma e vem combater do nosso lado. Não deves ficar do lado do branco. Tu é preto ...
— E tu é burro! — ripostou-lhe com desprezo.
— Eu não entrego nada. Eu é sordado português!
Fez novamente menção de carregar à baioneta. Mas repentina*mente recuou, em dois saltos bruscos, e largou numa rapidíssima corrida para o «jeep» do comandante, bradando outra vez, a toda a força dos pulmões:
— As armas!
Passada a momentânea desorientação causada pela imprevista atitude do soldado, os facínoras correram sobre ele. Mas já o «jeep» arrancava e rompia a grande velocidade, por entre a malandragem que abria caminho, espavorida. Com uma das mãos no volante e a outra a segurar a velha «Mauser», a sentinela negra ainda viu, no turbilhão daqueles terríveis segundos, o rodopio das catanas de am*bos os lados do carro; e sentiu uma dor aguda num ombro; e aguentou o embate de algumas pedradas nas costas; e percebeu vagamente que, por cima da porta de armas, na frontaria da fortaleza, se abria uma janela ... t
— «É o nosso comandante que já acordou ...» — pensou, con*tente de verificar que estava dado o alarme. E carregou mais no acelerador, distanciando-se rapidamente dos seus perseguidores.
Atravessava o parque dos minérios, quando ouviu, lá para trás, o estalar seco dos primeiros tiros. Era a pequena guarnição da fortaleza que se batia, resistindo galhardamente ao ataque.
Recordou, por momentos, o «nosso cabo», aquele jovial camarada branco, retalhado e sangrento, escabujando no chão, sob as catanas dos assassinos. E acelerou ao máximo, com as mãos crispadas no volante e os dentes cerrados numa raivosa ânsia de chegar depressa.
Ante os seus olhos, desfilaram vertiginosamente as luzes da Ave*nida Marginal, desdobradas num rosário de missangas sobre o espe*lho sereno da baía. Numa curva apertada, em que os pneus grita*ram aflitivamente, voltou para a esquerda, à esquina do Banco de Angola, e, logo depois, torceu para a direita junto da mercearia de Pinho & Arvela, meteu à Rua do Esquadrão e travou bruscamente à entrada do Quartel da Polícia, gritando para os guardas de piquete:
— Acudam à Casa da Reclusão! Está a ser atacada pêlos bandidos!
— Como é isso? — perguntou um dos guardas.
Mas já o «jeep» arrancava novamente, em direcção à Avenida Álvaro Ferreira, rasgando o silêncio da noite com o roncar furioso do motor.
— Que há? — acudiu a perguntar um soldado cuanhama, quando o carro estacou junto do Quartel General.
— Há um ataque de negros à Casa da Reclusão. Avisa o nosso oficial de serviço. Depressa!
E rodou de novo, agora na intenção de voltar ao seu posto e gastar as cinco balas que, prudentemente, tinha guardado para quando fossem mais precisas.
Mas pensou que talvez valesse a pena avisar também o regimento de Infantaria. Os bandidos traziam metralhadoras ... E, se calhar, eram muitos. Sim, porque só sendo muitos e bem armados é que se atreveriam a atacar os brancos. Lembrou-se, então, do seu coman*dante, tão amigo dos seus filhos, e que a essa hora estaria a lutar...
Sem mais hesitações, rumou para o alto da Maianga, abrandou ao passar pela sentinela da Companhia Indígena, a quem repetiu o aviso de alarme («Acorda o nosso Comandante, pá! Há confusão na Casa da Reclusão!») e seguiu a toda a velocidade até aos aquartelamentos do Regimento de Infantaria de Luanda.
Aí, já havia notícia do assalto à Polícia Móvel e um pelotão pre*parava-se para seguir.
— Mais algum azar? — perguntou um capitão, aproximando-se do «jeep».
— Sim, senhor, meu capitão — declarou o soldado, descendo do carro e batendo a continência. — Os bandido está a atacar a Casa da Reclusão. Nosso cabo foi morto. Bandidos tem metralhadora ...
Com uma ruga de preocupação no rosto seco, o oficial deu rápidas ordens a um subalterno. Não tardou que mais dois carros, carregados de tropa, viessem juntar-se aos que iam partir em socorro da Polícia Móvel.
— Um motorista para este «jeep» — pediu o oficial, saltando para o «jeep» trazido pela sentinela.
— Vai eu mesmo! — acudiu a sentinela, sentando-se ao volante.
— Mas tu estás ferido! —objectou o oficial, apontando-lhe para a farda, toda ensanguentada num ombro.
— Não é nada, meu capitão! Eu nem sentiu ... Pode muito bem lutar com os bandidos.
O oficial teve um sorriso de agrado e o «jeep» arrancou mais uma vez ...
Quando chegaram à Casa da Reclusão, já lá estavam reforços idos da 1.a Esquadra. E os assaltantes, falhada a sua tentativa de ata*que à residência do sargento que tinha as chaves das celas dos presos e corajosamente repelidos pela pequena guarnição da fortaleza, batiam em debandada.
Depois, foi durante o resto da noite e no dia seguinte, a caça aos facínoras foragidos por toda a área do Bungo, nas pregas dos barrocais e no formigueiro dos Muceques Rangel e Lixeira.
— Bravo, rapaz!—disse o comandante da Casa da Reclusão à sentinela negra quando, passado o perigo, ele se apresentou, ainda excitado da perseguição aos bandidos. — Foste um valente!
— Desculpa já, meu comandante... — respondeu o soldado. — Mas valente foi o nosso cabo que morreu. Eu só cumpriu as ordens do nosso cabo ...
Ainda não tinham soado as 4 horas da tarde e já a estrada de Catete, desde o seu início, nas vizinhanças do aeródromo velho, até aos escritórios da Petrangol, começava a encher-se de carros e de povo. Trinta minutos mais tarde, não cabia mais ninguém no largo fronteiro ao Cemitério Novo e nos terrenos adjacentes.
Milhares de automóveis estacionavam por toda a parte onde coubessem as quatro rodas dum veículo. E uma enorme multidão se comprimia nas bermas da estrada e contra o arruamento central do Largo do Cemitério, por onde deveriam passar os carros que trans*portavam, desde a Igreja do Carmo, os restos mortais das vítimas dos acontecimentos da véspera.
Era a 5 de Fevereiro de 1961, numa tórrida tarde de domingo, que muito poucos, nesse dia, quiseram aproveitar para o habitual pas*seio pelos arredores da cidade. Quase todos tinham preferido vir ali prestar uma derradeira e comovida homenagem aos que haviam tom*bado em defesa da ordem, retalhados à catana, num vil e selvático ataque de surpresa.
Tinham morrido sete homens; cinco da Polícia Móvel, um da P. S. P. e o cabo do exército abatido junto da Casa da Reclusão. Luanda estava ali, em peso, para lhes render o seu último preito, numa enternecida manifestação da fraternidade lusíada e de solida*riedade humana. Gente de várias raças, de todas as idades e de todas as condições sociais. Muitas centenas de mulheres e crianças.
Ricos e pobres, patrões e empregados, artífices e doutores. Todos dolorosamente surpreendidos com o sangue derramado na sua pacata cidade; mas ainda confiados, sem receios e sem armas.
Enquanto se aguardava a chegada do cortejo fúnebre, comenta*vam-se os acontecimentos, que eram, desde o amanhecer de sábado, o tema obrigatório de todas as conversas. Lamentavam-se os mor*tos e os feridos com espanto e horror («tão desfigurados tinham ficado, coitadinhos»), mas sem o mais ligeiro sintoma de pânico. A grande massa da população estava muito longe de adivinhar que era aquele o prelúdio sangrento dum hediondo terrorismo em Angola. Ninguém encarou a hipótese de que tal selvajaria tivesse continuação. Sabia-se vagamente que o plano dos assassinos, gizado e comandado por agitadores vindos do exterior, era roubar as armas existentes no quartel da Polícia Móvel e soltar os presos da Casa da Reclusão Militar e das cadeias civis, para depois irem ao saque e à carnagem. Mas, não obstante beneficiar das circunstâncias favoráveis duma confiada convivência euro-africana e dos efeitos duma completa surpresa, o plano falhara em todos os seus objectivos, saldando-se por sete vidas perdidas. E, para os luandenses, era tudo. Ninguém pensava que a cidade corresse o mais pequeno perigo.
Por isso mesmo, naquele mar de gente, em maré cheia de penosas e vivíssimas emoções, ninguém sentira qualquer necessidade de defesa. No calor abafadiço e húmido do entardecer, os civis tinham posto uma gravata preta no colarinho das camisas de meia manga. Os militares vinham de farda branca, desarmados. A polícia, para o acompanhamento dos camaradas, deixara em casa pistolas e cacetetes. As únicas armas eram as carabinas da guarda de honra, com munição de pólvora seca.
Amargamente, mas sem medo, comentavam-se os traiçoeiros assassínios do dia anterior.
— Sabem vocês como abateram a sentinela da Polícia Móvel? — dizia um morador do Bairro Madame Berman.
— Por meio dum ardil nojentamente cobarde. Mandaram adiante dois parceiros, amparando um terceiro meliante de cabeça atada num trapo molhado em sangue de galinha a fingir de ferido. Quando o guarda lhe perguntou o que queriam, responderam que traziam ali um homem gravemente ferido, numa desordem. Que estava quase a morrer. — «Tragam o homem aqui para dentro, que já telefono a pedir a maca» — dissera a sentinela, na sua boa fé, encaminhando-se para dentro do quartel. Mas, logo que ele se voltou — zás! — um dos patifes vibrou-lhe uma catanada certeira no pescoço.
— Safardanas! — comentou um funcionário administrativo.
Outros grupos relacionavam os motins com o caso recente do assalto ao Santa Maria ou citavam pormenores horrorosos. Ao cabo da Casa da Reclusão, tinham-no cortado todo, com uma fúria selva*gem e porca de hienas famintas. Um dos feridos internados no hospital tinha dois lanhos enormes na testa, com os miolos a desco*berto. E um dos guardas que vinham agora a enterrar fora quase completamente degolado.
Os homens sublinhavam com exclamações de raiva estes porme*nores macabros. Entre as senhoras havia crispações de náusea.
Mas já o cortejo fúnebre chegava ao largo, rompendo a custo por entre a massa compacta do povo. As urnas dos guardas da polícia vinham alinhadas num grande camião todo coberto de crepes. Logo a seguir, o caixão do cabo era transportado num carro do Exército. Atrás, caminhavam a pé as mais altas entidades, religiosas, civis e militares da Província.
De repente, no silêncio impressionante rebentaram, aqui e além, irreprimíveis soluços de senhoras, que levavam os seus lenços bor*dados aos olhos marejados de lágrimas. É que, entre os guardas perfilados, em cima do camião, ao lado das urnas dos camaradas, um rapagão alto e bem talhado na sua farda cinzenta, levava a cabeça descoberta e pendente, com as mãos trémulas a cobrir o rosto seco, chorando alto como uma criança. Todos reparavam naquela cena. E ninguém podia olhar para aquilo sem se comover.
Poucos, todavia, se aperceberam de que também ao volante do carro do Exército, um soldado preto voltava repetidamente os olhos para trás, a contemplar o caixão do «nosso cabo». E esses olhos, enter*necidos e leais, estavam rasos de água ...
Era o soldado que vira morrer aquele camarada branco. Era a sen*tinela negra da Casa da Reclusão.
«EU OS DESAFIO DAQUI A VIREM VER A OBRA GRANDIOSA DOS PORTUGUESES, BRANCOS E PRETOS»
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