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Discussion: PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

  1. #101
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    139
    "Ou foi castigo claro do pecado
    De tirar Lianor a seu marido,
    E casar-se com ela, de enlevado
    Num falso parecer mal entendido;
    Ou foi que o coração sujeito e dado
    Ao vício vil, de quem se viu rendido,
    Mole se fez e fraco; e bem parece,
    Que um baixo amor os fortes enfraquece.

    140
    "Do pecado tiveram sempre a pena
    Muitos, que Deus o quis, e permitiu:
    Os que foram roubar a bela Helena,
    E com Apio também Tarquilio o viu.
    Pois por quem David Santo se condena?
    Ou quem o Tribo ilustre destruiu
    De Benjamim? Bem claro no-lo ensina
    Por Sara Faraó, Siquém por Dina.

    141
    "E pois se os peitos fortes enfraquece
    Um inconcesso amor desatinado,
    Bem no filho de Alcmena se parece,
    Quando em Ônfale andava transformado.
    De Marco António a faina se escurece
    Com ser tanto a Cleopatra afeiçoado.
    Tu também, Peno próspero, o sentiste
    Depois que uma moça vil na Apúlia viste.

    142
    "Mas quem pode livrar-se por ventura
    Dos laços que Amor arma brandamente
    Entre as rosas e a neve humana pura,
    O ouro e o alabastro transparente?
    Quem de uma peregrina formosura,
    De um vulto de Medusa propriamente,
    Que o coração converte, que tem preso,
    Em pedra não, mas em desejo aceso?

    143
    "Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,
    Uma suave e angélica excelência,
    Que em si está sempre as almas transformando,
    Que tivesse contra ela resistência?
    Desculpado por certo está Fernando,
    Para quem tem de amor experiência;
    Mas antes, tendo livre a fantasia,
    Por muito mais culpado o julgaria.

    Canto Quarto

    1
    "Depois de procelosa tempestade,
    Noturna sombra e sibilante vento,
    Traz a manhã serena claridade,
    Esperança de porto e salvamento;
    Aparta o sol a negra escuridade,
    Removendo o temor do pensamento:
    Assim no Reino forte aconteceu,
    Depois que o Rei Fernando faleceu.

    2
    "Porque, se muito os nossos desejaram
    Quem os danos e ofensas vá vingando
    Naqueles que tão bem se aproveitaram
    Do descuido remisso de Fernando,
    Depois de pouco tempo o alcançaram,
    Joane, sempre ilustre, alevantando
    Por Rei, como de Pedro único herdeiro,
    (Ainda que bastardo) verdadeiro.

    3
    "Ser isto ordenação dos céus divina,
    Por sinais muito claros se mostrou,
    Quando em Évora a voz de uma menina,
    Ante tempo falando o nomeou;
    E como cousa enfim que o Céu destina,
    No berço o corpo e a voz alevantou:
    --"Portugal! Portugal!" alçando a mão
    Disse "pelo Rei novo, Dom João."--

    4
    "Alteradas então do Reino as gentes
    Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha,
    Absolutas cruezas e evidentes
    Faz do povo o furor por onde vinha;
    Matando vão amigos e parentes
    Do adúltero Conde e da Rainha,
    Com quem sua incontinência desonesta
    Mais (depois de viúva) manifesta.

    5
    "Mas ele enfim, com causa desonrado,
    Diante dela a ferro frio morre,
    De outros muitos na morte acompanhado,
    Que tudo o fogo erguido queima e corre:
    Quem, como Astianás, precipitado,
    (Sem lhe valerem ordens) de alta torre,
    A quem ordens, nem aras, nem respeito;
    Quem nu por ruas, e em pedaços feito.

    6
    "Podem-se pôr em longo esquecimento
    As cruezas mortais que Roma viu
    Feitas do feroz Mário e do cruento
    Sila, quando o contrário lhe fugiu.
    Por isso Lianor, que o sentimento
    Do morto Conde ao mundo descobriu,
    Faz contra Lusitânia vir Castela,
    Dizendo ser sua filha herdeira dela.

    7
    "Beatriz era a filha, que casada
    Co'o Castelhano está, que o Reino pede,
    Por filha de Fernando reputada,
    Se a corrompida fama lhe concede.
    Com esta voz Castela alevantada,
    Dizendo que esta filha ao pai sucede,
    Suas forças ajunta para as guerras
    De várias regiões e várias terras.

    8
    Vem de toda a província que de um Brigo
    (Se foi) já teve o nome derivado;
    Das terras que Fernando e que Rodrigo
    Ganharam do tirano e Mauro estado.
    Não estimam das armas o perigo
    Os que cortando vão co'o duro arado
    Os campos Lioneses, cuja gente
    C'os Mouros foi nas armas excelente.

    9
    "Os Vândalos, na antiga valentia
    Ainda confiados, se ajuntavam
    Da cabeça de toda Andaluzia,
    Que do Guadalquibir as águas lavam.
    A nobre Ilha também se apercebia,
    Que antigamente os Tírios habitavam,
    Trazendo por insígnias verdadeiras
    As Hercúleas colunas nas bandeiras.

    10
    "Também vem lá do Reino de Toledo,
    Cidade nobre e antiga, a quem cercando
    O Tejo em torno vai suave e ledo
    Que das serras de Conca vem manando.
    A vós outros também não tolhe o medo,
    Ó sórdidos Galegos, duro bando,
    Que para resistirdes vos armastes,
    Aqueles, cujos golpes já provasses.

    11
    "Também movem da guerra as negras fúrias
    A gente Biscainha, que carece
    De polidas razões, e que as injúrias
    Muito mal dos estranhos compadece.
    A terra de Guipúscua e das Astúrias,
    Que com minas de ferro se enobrece,
    Armou dele os soberbos moradores,
    Para ajudar na guerra a seus senhores.

    12
    "Joane, a quem do peito o esforço cresce,
    Como a Sansão Hebréio da guedelha,
    Posto que tudo pouco lhe parece,
    Co'os poucos de seu Reino se aparelha;
    E não porque conselho lhe falece,
    Co'os principais senhores se aconselha,
    Mas só por ver das gentes as sentenças:
    Que sempre houve entre muitos diferenças.

    13
    "Não falta com razões quem desconcerte
    Da opinião de todos, na vontade,
    Em quem o esforço antigo se converte
    Em desusada e má deslealdade;
    Podendo o temor mais, gelado, inerte,
    Que a própria e natural fidelidade:
    Negam o Rei e a pátria, e, se convém,
    Negarão (como Pedro) o Deus que têm.

    14
    "Mas nunca foi que este erro se sentisse
    No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,
    Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
    Reprovando as vontades inconstantes,
    Aquelas duvidosas gentes disse,
    Com palavras mais duras que elegantes,
    A mão na espada, irado, e não facundo,
    Ameaçando a terra, o mar e o mundo:

    15
    --"Como! Da gente ilustre Portuguesa
    Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?,
    Como! Desta província, que princesa
    Foi das gentes na guerra em toda a parte,
    Há-de sair quem negue ter defesa?
    Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
    De Português, e por nenhum respeito
    O próprio Reino queira ver sujeito?

    16
    --"Como! Não seis vós inda os descendentes
    Daqueles, que debaixo da bandeira
    Do grande Henriques, feros e valentes,
    Vencestes esta gente tão guerreira?
    Quando tantas bandeiras, tantas gentes
    Puseram em fugida, de maneira
    Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
    Presos, afora a presa que tiveram?

    17
    --"Com quem foram contino sopeados
    Estes, de quem o estais agora vós,
    Por Dinis e seu filho, sublimados,
    Senão co'os vossos fortes pais, e avôs?
    Pois se com seus descuidos, ou pecados,
    Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,
    Torne-vos vossas forças o Rei novo:
    Se é certo que co'o Rei se muda o povo.

    18
    --"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes
    Igual ao Rei que agora alevantastes,
    Desbaratareis tudo o que quiserdes,
    Quanto mais a quem já desbaratasses.
    E se com isto enfim vos não moverdes
    Do penetrante medo que tomastes,
    Atai as mãos a vosso vão receio,
    Que eu só resistirei ao jugo alheio.

    19
    --"Eu só com meus vassalos, e com esta
    (E dizendo isto arranca meia espada)
    Defenderei da força dura e infesta
    A terra nunca de outrem sojugada.
    Em virtude do Rei, da pátria mesta,
    Da lealdade já por vós negada,
    Vencerei (não só estes adversários)
    Mas quantos a meu Rei forem contrários."--

    20
    Bem como entre os mancebos recolhidos
    Em Canúsio, relíquias sós de Canas,
    Já para se entregar quase movidos
    A fortuna das forças Africanas,
    Cornélio moço os faz que, compelidos
    Da sua espada, jurem que as Romanas
    Armas não deixarão, enquanto a vida
    Os não deixar, ou nelas for perdida:

    21
    "Destarte a gente força e esforça Nuno,
    Que, com lhe ouvir as últimas razões,
    Removem o temor frio, importuno,
    Que gelados lhe tinha os corações.
    Nos animais cavalgam de Neptuno,
    Brandindo e volteando arremessões;
    Vão correndo e gritando a boca aberta:
    --"Viva o famoso Rei que nos liberta!"--

    22
    "Das gentes populares, uns aprovam
    A guerra com que a pátria se sustinha;
    Uns as armas alimpam e renovam,
    Que a ferrugem da paz gastadas tinha;
    Capacetes estofam, peitos provam,
    Arma-se cada um como convinha;
    Outros fazem vestidos de mil cores,
    Com letras e tenções de seus amores.

    23
    "Com toda esta lustrosa companhia
    Joane forte sai da fresca Abrantes,
    Abrantes, que também da fonte fria
    Do Tejo logra as águas abundantes.
    Os primeiros armígeros regia
    Quem para reger era os mui possantes
    Orientais exércitos, sem conto,
    Com que passava Xerxes o Helesponto.

    24
    "Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro
    Açoute de soberbos Castelhanos
    Como já o fero Huno o foi primeiro
    Para Franceses, para Italianos.
    Outro também famoso cavaleiro,
    Que a ala direita tem dos Lusitanos,
    Apto para mandá-los, e regê-los,
    Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.

    25
    "E da outra ala, que a esta corresponde,
    Antão Vasques de Almada é capitão,
    Que depois foi de Abranches nobre Conde,
    Das gentes vai regendo a sestra mão.
    Logo na retaguarda não se esconde
    Das quinas e castelos o pendão,
    Com Joane, Rei forte em toda parte,
    Que escurecendo o preço vai de Alarte.

    26
    "Estavam pelos muros, temerosas,
    E de um alegre medo quase frias,
    Rezando as mães, irmãs, damas e esposas,
    Prometendo jejuns e romarias.
    Já chegam as esquadras belicosas
    Defronte das amigas companhias,
    Que com grita grandíssima os recebem,
    E todas grande dúvida concebem.

    27
    "Respondem as trombetas mensageiras,
    Pífaros sibilantes e atambores;
    Alférezes volteam as bandeiras,
    Que variadas são de muitas cores.
    Era no seco tempo, que nas eiras
    Ceres o fruto deixa aos lavradores,
    Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto,
    Baco das uvas tira o doce mosto.

    28
    "Deu sinal a trombeta Castelhana,
    Horrendo, fero, ingente e temeroso;
    Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
    Atrás tornou as ondas de medroso;
    Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
    Correu ao mar o Tejo duvidoso;
    E as mães, que o som terríbil escutaram,
    Aos peitos os filhinhos apertaram.

    29
    "Quantos rostos ali se vêem sem cor,
    Que ao coração acode o sangue amigo!
    Que, nos perigos grandes, o temor
    É maior muitas vezes que o perigo;
    E se o não é, parece-o; que o furor
    De ofender ou vencer o duro amigo
    Faz não sentir que é perda grande e rara,
    Dos membros corporais, da vida cara.

    30
    "Começa-se a travar a incerta guerra;
    De ambas partes se move a primeira ala;
    Uns leva a defensão da própria terra,
    Outros as esperanças de ganhá-la;
    Logo o grande Pereira, em quem se encerra
    Todo o valor, primeiro se assinala:
    Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
    Dos que a tanto desejam, sendo alheia.

    31
    "Já pelo espesso ar os estridentes
    Farpões, setas e vários tiros voam;
    Debaixo dos pés duros dos ardentes
    Cavalos treme a terra, os vales soam;
    Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
    Quedas coas duras armas, tudo atroam;
    Recrescem os amigos sobre a pouca
    Gente do fero Nuno, que os apouca.

    32
    "Eis ali seus irmãos contra ele vão,
    (Caso feio e cruel!) mas não se espanta,
    Que menos é querer matar o irmão,
    Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:
    Destes arrenegados muitos são
    No primeiro esquadrão, que se adianta
    Contra irmãos e parentes (caso estranho!)
    Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.

    33
    "Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
    Catilina, e vós outros dos antigos,
    Que contra vossas pátrias, com profano
    Coração, vos fizestes inimigos,
    Se lá no reino escuro de Sumano
    Receberdes gravíssimos castigos,
    Dizei-lhe que também dos Portugueses
    Alguns tredores houve algumas vezes.

    34
    "Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,
    Tantos dos inimigos a eles vão!
    Está ali Nuno, qual pelos outeiros
    De Ceita está o fortíssimo leão,
    Que cercado se vê dos cavaleiros
    Que os campos vão correr de Tetuão:
    Perseguem-no com as lanças, e ele iroso,
    Torvado um pouco está, mas não medroso.

    35
    "Com torva vista os vê, mas a natura
    Ferina e a ira não lhe compadecem
    Que as costas dê, mas antes na espessura
    Das lanças se arremessa, que recrescem.
    Tal está o cavaleiro, que a verdura
    Tinge co'o sangue alheio; ali perecem
    Alguns dos seus, que o ânimo valente
    Perde a virtude contra tanta gente.

    36
    "Sentiu Joane a afronta que passava
    Nuno, que, como sábio capitão,
    Tudo corria e via, e a todos dava,
    Com presença e palavras, coração.
    Qual parida leoa, fera e brava,
    Que os filhos que no ninho sós estão,
    Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
    O pastor de Massília lhos furtara;

    37
    "Corre raivosa, e freme, e com bramidos
    Os montes Sete Irmãos atroa e abala:
    Tal Joane, com outros escolhidos
    Dos seus, correndo acode à primeira ala:
    -"Ó fortes companheiros, ó subidos
    Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,
    Defendei vossas terras, que a esperança
    Da liberdade está na vossa lança.

    38
    -"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,
    Que entre as lanças, e setas, e os arneses
    Dos inimigos corro e vou primeiro:
    Pelejai, verdadeiros Portugueses!"--
    Isto disse o magnânimo guerreiro,
    E, sopesando a lança quatro vezes,
    Com força tira; e, deste único tiro,
    Muitos lançaram o último suspiro.

    39
    "Porque eis os seus acesos novamente
    Duma nobre vergonha e honroso fogo,
    Sobre qual mais com ânimo valente
    Perigos vencerá do Márcio jogo,
    Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;
    Rompem malhas primeiro, e peitos logo:
    Assim recebem junto e dão feridas,
    Como a quem já não dói perder as vidas.

    40
    "A muitos mandam ver o Estígio lago,
    Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:
    O Mestre morre ali de Santiago,
    Que fortíssimamente pelejava;
    Morre também, fazendo grande estrago,
    Outro Mestre cruel de Calatrava;
    Os Pereiras também arrenegados
    Morrem, arrenegando o Céu e os fados.

    41
    "Muitos também do vulgo vil sem nome
    Vão, e também dos nobres, ao profundo,
    Onde o trifauce Cão perpétua fome
    Tem das almas que passam deste mundo.
    E porque mais aqui se amanse e dome
    A soberba do amigo furibundo,
    A sublime bandeira Castelhana
    Foi derribada aos pés da Lusitana.

  2. #102
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    42
    "Aqui a fera batalha se encruece
    Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
    A multidão da gente que perece
    Tem as flores da própria cor mudadas;
    Já as costas dão e as vidas; já falece
    O furor e sobejam as lançadas;
    Já de Castela o Rei desbaratado
    Se vê, e de seu propósito mudado.

    43
    "O campo vai deixando ao vencedor,
    Contente de lhe não deixar a vida.
    Seguem-no os que ficaram, e o temor
    Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.
    Encobrem no profundo peito a dor
    Da morte, da fazenda despendida,
    Da mágoa, da desonra, e triste nojo
    De ver outrem triunfar de seu despojo.

    44
    "Alguns vão maldizendo e blasfemando
    Do primeiro que guerra fez no mundo;
    Outros a sede dura vão culpando
    Do peito cobiçoso e sitibundo,
    Que, por tomar o alheio, o miserando
    Povo aventura às penas do profundo,
    Deixando tantas mães, tantas esposas
    Sem filhos, sem maridos, desditosas.

    45
    "O vencedor Joane esteve os dias
    Costumados no campo, em grande glória;
    Com ofertas depois, e romarias,
    As graças deu a quem lhe deu vitória.
    Mas Nuno, que não quer por outras vias
    Entre as gentes deixar de si memória
    Senão por armas sempre soberanas,
    Para as terras se passa Transtaganas.

    46
    "Ajuda-o seu destino de maneira
    Que fez igual o efeito ao pensamento,
    Porque a terra dos Vândalos fronteira
    Lhe concede o despojo e o vencimento.
    Já de Sevilha a Bética bandeira
    E de vários senhores num momento
    Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa
    Obrigados da força Portuguesa.

    47
    "Destas e outras vitórias longamente
    Eram os Castelhanos oprimidos,
    Quando a paz, desejada já da gente,
    Deram os vencedores aos vencidos,
    Depois que quis o Padre onipotente
    Dar os Reis inimigos por maridos
    As duas ilustríssimas Inglesas,
    Gentis, formosas, ínclitas princesas.

    48
    "Não sofre o peito forte, usado à guerra,
    Não ter amigo já a quem faça dano;
    E assim não tendo a quem vencer na terra,
    Vai cometer as ondas do Oceano.
    Este é o primeiro Rei que se desterra
    Da Pátria, por fazer que o Africano
    Conheça, pelas armas, quanto excede
    A lei de Cristo à lei de Mafamede.

    49
    "Eis mil nadantes aves pelo argento
    Da furiosa Tethys inquieta
    Abrindo as pandas asas vão ao vento,
    Para onde Alcides pôs a extrema meta.
    O monte Abila e o nobre fundamento
    De Ceita toma, e o torpe Mahometa
    Deita fora, e segura toda Espanha
    Da Juliana, má, e desleal manha.

    50
    "Não consentiu a morte tantos anos
    Que de Herói tão ditoso se lograsse
    Portugal, mas os coros soberanos
    Do Céu supremo quis que povoasse.
    Mas para defensão dos Lusitanos
    Deixou, quem o levou quem governasse,
    E aumentasse a terra mais que dantes,
    Inclita geração, altos Infantes.

    51
    "Não foi do Rei Duarte tão ditoso
    O tempo que ficou na suma alteza,
    Que assim vai alternando o tempo iroso
    O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.
    Quem viu sempre um estado deleitoso?
    Ou quem viu em fortuna haver firmeza?
    Pois inda neste Reino e neste Rei
    Não ousou ela tanto desta lei.

    52
    "Viu ser cativo o santo irmão Fernando,
    Que a tão altas empresas aspirava,
    Que, por salvar o povo miserando
    Cercado, ao Sarraceno se entregava.
    Só por amor da pátria está passando
    A vida de senhora feita escrava,
    Por não se dar por ele a forte Ceita:
    Mais o público bem que o seu respeita.

    53
    "Codro, porque o inimigo não vencesse,
    Deixou antes vencer da morte a vida;
    Régulo, porque a pátria não perdesse,
    Quis mais a liberdade ver perdida.
    Este, porque se Espanha não temesse,
    Ao cativeiro eterno se convida:
    Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
    Nem os Décios leais fizeram tanto.

    54
    "Mas Afonso, do Reino único herdeiro,
    Nome em armas ditoso em nossa Hespéria,
    Que a soberba do bárbaro fronteira
    Tornou em baixa e humílima miséria,
    Fora por certo invicto cavaleiro,
    Se não quisera ir ver a terra Ibéria.
    Mas África dirá ser impossíbil
    Poder ninguém vencer o Rei terríbil.

    55
    "Este pôde colher as maçãs de ouro,
    Que somente o Tiríntio colher pôde:
    Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro
    A cerviz inda agora não sacode.
    Na fronte a palma leva e o verde louro
    Das vitórias do Bárbaro, que acode
    A defender Alcácer, forte vila,
    Tângere populoso e a dura Arzila.

    56
    "Porém elas enfim por força entradas,
    Os muros abaixaram de diamante
    As Portuguesas forças, costumadas
    A derribarem quanto acham diante.
    Maravilhas em armas estremadas,
    E de escritura dinas elegante,
    Fizeram cavaleiros nesta empresa,
    Mais afinando a fama Portuguesa.

    57
    "Porém depois, tocado de ambição
    E glória de mandar, amara e bela,
    Vai cometer Fernando de Aragão,
    Sobre o potente Reino de Castela.
    Ajunta-se a inimiga multidão
    Das soberbas e várias gentes dela,
    Desde Cádis ao alto Pireneu,
    Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.

    58
    "Não quis ficar nos Reinos ocioso
    O mancebo Joane, e logo ordena
    De ir ajudar o pai ambicioso,
    Que então lhe foi ajuda não pequena.
    Saiu-se enfim do trance perigoso
    Com fronte não torvada, mas serena,
    Desbaratado o pai sanguinolento
    Mas ficou duvidoso o vencimento.

    59
    "Porque o filho sublime e soberano,
    Gentil, forte, animoso cavaleiro,
    Nos contrários fazendo imenso dano,
    Todo um dia ficou no campo inteiro.
    Desta arte foi vencido Octaviano,
    E António vencedor, sem companheiro,
    Quando daqueles que César mataram
    Nos Filípicos campos se vingaram.

    60
    "Porém depois que a escura noite eterna
    Afonso aposentou no Céu sereno,
    O Príncipe, que o Reino então governa,
    Foi Joane segundo e Rei trezeno.
    Este, por haver fama sempiterna,
    Mais do que tentar pode homem terreno
    Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
    Os términos, que eu vou buscando agora.

    61
    "Manda seus mensageiros, que passaram
    Espanha, França, Itália celebrada,
    E lá no ilustre porto se embarcaram
    Onde já foi Parténope enterra:
    Nápoles, onde os Xados se mostraram,
    Fazendo-a a várias gentes subjugada,
    Pola ilustrar no fim de tantos anos
    Co'o senhorio de ínclitos Hispanos.

    62
    "Pelo mar alto Sículo navegam;
    Vão-se às praias de Rodes arenosas;
    E dali às ribeiras altas chegam,
    Que com morte de Magno são famosas;
    Vão a Mênfis e às terras, que se regam
    Das enchentes Nilóticas undosas;
    Sobem à Etiópia, sobre Egito,
    Que de Cristo lá guarda o santo rito.

    63
    "Passam também as ondas Eritreias,
    Que o povo de Israel sem nau passou;
    Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
    Que o filho de Ismael co'o nome ornou.
    As costas odoríferas Sabeias,
    Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
    Cercam, com toda a Arábia descoberta
    Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.

    64
    "Entram no estreito Pérsico, onde dura
    Da confusa Babel inda a memória;
    Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,
    Que as fontes onde nascem tem por glória.
    Dali vão em demanda da água pura,
    Que causa inda será de larga história,
    Do Indo, pelas ondas do Oceano,
    Onde não se atreveu passar Trajano.

    65
    "Viram gentes incógnitas e estranhas
    Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,
    Vendo vários costumes, várias manhas,
    Que cada região produze e cria.
    Mas de vias tão ásperas, tamanhas,
    Tornar-se facilmente não podia:
    Lá morreram enfim, e lá ficaram,
    Que à desejada pátria não tornaram.

    66
    "Parece que guardava o claro Céu
    A Manuel, e seus merecimentos,
    Esta empresa tão árdua, que o moveu
    A subidos e ilustres movimentos:
    Manuel, que a Joane sucedeu
    No Reino e nos altivos pensamentos,
    Logo, corno tornou do Reino o cargo,
    Tomou mais a conquista do mar largo.

    67
    "O qual, como do nobre pensamento
    Daquela obrigação, que lhe ficara
    De seus antepassados, (cujo intento
    Foi sempre acrescentar a terra cara)
    Não deixasse de ser um só momento
    Conquistado: no tempo que a luz clara
    Foge, e as estrelas nítidas, que saem,
    A repouso convidam quando caem,

    68
    "Estando já deitado no áureo leito,
    Onde imaginações mais certas são?
    Revolvendo contino no conceito
    Seu ofício e sangue a obrigação,
    Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
    Sem lhe desocupar o coração;
    Porque, tanto que lasso se adormece,
    Morfeu em várias formas lhe aparece.

    69
    "Aqui se lhe apresenta que subia
    Tão alto, que tocava a prima Esfera,
    Donde diante vários mundos via,
    Nações de muita gente estranha e fera;
    E lá bem junto donde nasce o dia,
    Depois que os olhos longos estendera,
    Viu de antigos, longínquos e altos montes
    Nascerem duas claras e altas fontes.

    70
    "Aves agrestes, feras e alimárias,
    Pelo monte selvático habitavam;
    Mil árvores silvestres e ervas várias
    O passo e o tracto às gentes atalhavam.
    Estas duras montanhas, adversárias
    De mais conversação, por si mostravam
    Que, desque Adão pecou aos nossos anos,
    Não as romperam nunca pés humanos.

    71
    "Das águas se lhe antolha que saíam,
    Para ele os largos passos inclinando,
    Dois homens, que mui velhos pareciam,
    De aspecto, inda que agreste, venerando:
    Das pontas dos cabelos lhe caíam
    Gotas, que o corpo vão banhando;
    A cor da pele baça e denegrida,
    A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.

    72
    "Dambos de dois a fronte coroada
    Ramos não conhecidos e ervas tinha;
    Um deles a presença traz cansada,
    Como quem de mais longe ali caminha.
    E assim a água, com ímpeto alterada,
    Parecia que doutra parte vinha,
    Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa
    Vai buscar os abraços de Aretusa.

    73
    "Este, que era o mais grave na pessoa,
    Destarte para o Rei de longe brada:
    --"Ó tu, a cujos reinos e coroa
    Grande parte do mundo está guardada,
    Nós outros, cuja fama tanto voa,
    Cuja cerviz bem nunca foi domada,
    Te avisamos que é tempo que já mandes
    A receber de nós tributos grandes.

    74
    --"Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
    Celeste tenho o berço verdadeiro;
    Estoutro é o Indo Rei que, nesta serra
    Que vês, seu nascimento tem primeiro.
    Custar-te-emos contudo dura guerra;
    Mas insistindo tu, por derradeiro,
    Com não vistas vitórias, sem receio,
    A quantas gentes vês, porás o freio."--

    75
    "Não disse mais o rio ilustre e santo,
    Mas ambos desaparecem num momento.
    Acorda Emanuel c'um novo espanto
    E grande alteração de pensamento.
    Estendeu nisto Febo o claro manto
    Pelo escuro Hemisfério sonolento;
    Veio a manhã no céu pintando as cores
    De pudibunda rosa e roxas flores.

    76
    "Chama o Rei os senhores a conselho,
    E propõe-lhe as figuras da visão;
    As palavras lhe diz do santo velho,
    Que a todos foram grande admiração.
    Determinam o náutico aparelho,
    Para que com sublime coração
    Vá a gente que mandar cortando os mares
    A buscar novos climas, novos ares.

    77
    "Eu, que bem mal cuidava que em efeito
    Se pusesse o que o peito me pedia,
    Que sempre grandes cousas deste jeito
    Pressago o coração me prometia,
    Não sei por que razão, por que respeito,
    Ou por que bom sinal que em mi se via,
    Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave
    Deste cometimento grande e grave.

    78
    "E com rogo o palavras amorosas,
    Que é um mando nos Reis, que a mais obriga,
    Me disse:--"As cousas árduas e lustrosas
    Se alcançam com trabalho e com fadiga;
    Faz as pessoas altas e famosas
    A vida que se perde e que periga;
    Que, quando ao medo infame não se rende,
    Então, se menos dura, mais se estende.

    79
    --"Eu vos tenho entre todos escolhido
    Para uma empresa, qual a vós se deve,
    Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
    O que eu sei que por mi vos será leve."--
    Não sofri mais, mas logo:--"Ó Rei subido,
    Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
    É tão pouco por vós, que mais me pena
    Ser esta vida cousa tão pequena.

    80
    --"Imaginai tamanhas aventuras,
    Quais Euristeu a Alcides inventava,
    O leão Cleoneu, Harpias duras,
    O porco de Erimanto, a Hidra brava,
    Descer enfim às sombras vãs e escuras
    Onde os campos de Dite a Estige lava;
    Porque a maior perigo, a mor afronta,
    Por vós, ó Rei, o espírito e a carne é pronta."

    81
    "Com mercês sumptuosas me agradece
    E com razões me louva esta vontade;
    Que a virtude louvada vive e cresce,
    E o louvor altos casos persuade.
    A acompanhar-me logo se oferece,
    Obrigado d'amor e d'amizade,
    Não menos cobiçoso de honra e fama,
    O caro meu irmão Paulo da Gama.

    82
    "Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
    De trabalhos mui grande sofredor;
    Ambos são de valia e de conselho,
    De experiência em armas e furor.
    Já de manceba gente me aparelho,
    Em que cresce o desejo do valor;
    Todos de grande esforço; e assim parece
    Quem a tamanhas cousas se oferece.

    83
    "Foram de Emanuel remunerados,
    Porque com mais amor se apercebessem,
    E com palavras altas animados
    Para quantos trabalhos sucedessem.
    Assim foram os Mínias ajuntados,
    Para que o Véu dourado combatessem,
    Na fatídica Nau, que ousou primeira
    Tentar o mar Euxínio, aventureira.

    84
    "E já no porto da ínclita Ulisseia
    C'um alvoroço nobre, e é um desejo,
    (Onde o licor mistura e branca areia
    Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
    As naus prestes estão; e não refreia
    Temor nenhum o juvenil despejo,
    Porque a gente marítima e a de Marte
    Estão para seguir-me a toda parte.

    85
    "Pelas praias vestidos os soldados
    De várias cores vêm e várias artes,
    E não menos de esforço aparelhados
    Para buscar do inundo novas partes.
    Nas fortes naus os ventos sossegados
    Ondeam os aéreos estandartes;
    Elas prometem, vendo os mares largos,
    De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.

    86
    "Depois de aparelhados desta sorte
    De quanto tal viagem pede e manda,
    Aparelhamos a alma para a morte,
    Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
    Para o sumo Poder que a etérea corte
    Sustenta só coa vista veneranda,
    Imploramos favor que nos guiasse,
    E que nossos começos aspirasse.

    87
    "Partimo-nos assim do santo templo
    Que nas praias do mar está assentado,
    Que o nome tem da terra, para exemplo,
    Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
    Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
    Como fui destas praias apartado,
    Cheio dentro de dúvida e receio,
    Que apenas nos meus olhos ponho o freio.

    88
    "A gente da cidade aquele dia,
    (Uns por amigos, outros por parentes,
    Outros por ver somente) concorria,
    Saudosos na vista e descontentes.
    E nós coa virtuosa companhia
    De mil Religiosos diligentes,
    Em procissão solene a Deus orando,
    Para os batéis viemos caminhando.

    89
    "Em tão longo caminho e duvidoso
    Por perdidos as gentes nos julgavam;
    As mulheres c'um choro piedoso,
    Os homens com suspiros que arrancavam;
    Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
    Amor mais desconfia, acrescentavam
    A desesperarão, e frio medo
    De já nos não tornar a ver tão cedo.

    90
    "Qual vai dizendo:--"Ó filho, a quem eu tinha
    Só para refrigério, e doce amparo
    Desta cansada já velhice minha,
    Que em choro acabará, penoso e amaro,
    Por que me deixas, mísera e mesquinha?
    Por que de mim te vás, ó filho caro,
    A fazer o funéreo enterramento,
    Onde sejas de peixes mantimento!"--

    91
    "Qual em cabelo:--"Ó doce e amado esposo,
    Sem quem não quis Amor que viver possa,
    Por que is aventurar ao mar iroso
    Essa vida que é minha, e não é vossa?
    Como por um caminho duvidoso
    Vos esquece a afeição tão doce nossa?
    Nosso amor, nosso vão contentamento
    Quereis que com as velas leve o vento?"--

    92
    "Nestas e outras palavras que diziam
    De amor e de piedosa humanidade,
    Os velhos e os meninos os seguiam,
    Em quem menos esforço põe a idade.
    Os montes de mais perto respondiam,
    Quase movidos de alta piedade;
    A branca areia as lágrimas banhavam,
    Que em multidão com elas se igualavam.

    93
    "Nós outros sem a vista alevantarmos
    Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
    Por nos não magoarmos, ou mudarmos
    Do propósito firme começado,
    Determinei de assim nos embarcarmos
    Sem o despedimento costumado,
    Que, posto que é de amor usança boa,
    A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

    94
    "Mas um velho d'aspeito venerando,
    Que ficava nas praias, entre a gente,
    Postos em nós os olhos, meneando
    Três vezes a cabeça, descontente,
    A voz pesada um pouco alevantando,
    Que nós no mar ouvimos claramente,
    C'um saber só de experiências feito,
    Tais palavras tirou do experto peito:

    95
    --"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
    Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
    Ó fraudulento gosto, que se atiça
    C'uma aura popular, que honra se chama!
    Que castigo tamanho e que justiça
    Fazes no peito vão que muito te ama!
    Que mortes, que perigos, que tormentas,
    Que crueldades neles experimentas!

    96
    --"Dura inquietação d'alma e da vida,
    Fonte de desamparos e adultérios,
    Sagaz consumidora conhecida
    De fazendas, de reinos e de impérios:
    Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
    Sendo dina de infames vitupérios;
    Chamam-te Fama e Glória soberana,
    Nomes com quem se o povo néscio engana!

    97
    --"A que novos desastres determinas
    De levar estes reinos e esta gente?
    Que perigos, que mortes lhe destinas
    Debaixo dalgum nome preminente?
    Que promessas de reinos, e de minas
    D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
    Que famas lhe prometerás? que histórias?
    Que triunfos, que palmas, que vitórias?

    98
    --"Mas ó tu, geração daquele insano,
    Cujo pecado e desobediência,
    Não somente do reino soberano
    Te pôs neste desterro e triste ausência,
    Mas inda doutro estado mais que humano
    Da quieta e da simples inocência,
    Idade d'ouro, tanto te privou,
    Que na de ferro e d'armas te deitou:

    99
    --"Já que nesta gostosa vaidade
    Tanto enlevas a leve fantasia,
    Já que à bruta crueza e feridade
    Puseste nome esforço e valentia,
    Já que prezas em tanta quantidades
    O desprezo da vida, que devia
    De ser sempre estimada, pois que já
    Temeu tanto perdê-la quem a dá:

    100
    --"Não tens junto contigo o Ismaelita,
    Com quem sempre terás guerras sobejas?
    Não segue ele do Arábio a lei maldita,
    Se tu pela de Cristo só pelejas?
    Não tem cidades mil, terra infinita,
    Se terras e riqueza mais desejas?
    Não é ele por armas esforçado,
    Se queres por vitórias ser louvado?

    101
    --"Deixas criar às portas o inimigo,
    Por ires buscar outro de tão longe,
    Por quem se despovoe o Reino antigo,
    Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
    Buscas o incerto e incógnito perigo
    Por que a fama te exalte e te lisonge,
    Chamando-te senhor, com larga cópia,
    Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?

    102
    --"Ó maldito o primeiro que no mundo
    Nas ondas velas pôs em seco lenho,
    Dino da eterna pena do profundo,
    Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
    Nunca juízo algum alto e profundo,
    Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
    Te dê por isso fama nem memória,
    Mas contigo se acabe o nome e glória.

    103
    --"Trouxe o filho de Jápeto do Céu
    O fogo que ajuntou ao peito humano,
    Fogo que o mundo em armas acendeu
    Em mortes, em desonras (grande engano).
    Quanto melhor nos fora, Prometeu,
    E quanto para o mundo menos dano,
    Que a tua estátua ilustre não tivera
    Fogo de altos desejos, que a movera!

    104
    --"Não cometera o moço miserando
    O carro alto do pai, nem o ar vazio
    O grande Arquiteto co'o filho, dando
    Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
    Nenhum cometimento alto e nefando,
    Por fogo, ferro, água, calma e frio,
    Deixa intentado a humana geração.
    Mísera sorte, estranha condição!"--

    Canto Quinto

  3. #103
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    octobre 2007
    Messages
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    1
    "Estas sentenças tais o velho honrado
    Vociferando estava, quando abrimos
    As asas ao sereno e sossegado
    Vento, e do porto amado nos partimos.
    E, como é já no mar costume usado,
    A vela desfraldando, o céu ferimos,
    Dizendo: "Boa viagem", logo o vento
    Nos troncos fez o usado movimento.

    2
    "Entrava neste tempo o eterno lume
    No animal Nemeio truculento,
    E o mundo, que com tempo se consume,
    Na sexta idade andava enfermo e lento:
    Nela vê, como tinha por costume,
    Cursos do sol quatorze vezes cento,
    Com mais noventa e sete, em que corria,
    Quando no mar a armada se estendia.

    3
    "Já a vista pouco e pouco se desterra
    Daqueles pátrios montes que ficavam;
    Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
    De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
    Ficava-nos também na amada terra
    O coração, que as mágoas lá deixavam;
    E já depois que toda se escondeu,
    Não vimos mais enfim que mar e céu.

    4
    "Assim fomos abrindo aqueles mares,
    Que geração alguma não abriu,
    As novas ilhas vendo e os novos ares,
    Que o generoso Henrique descobriu;
    De Mauritânia os montes e lugares,
    Terra que Anteu num tempo possuiu,
    Deixando à mão esquerda; que à direita
    Não há certeza doutra, mas suspeita.

    5
    "Passamos a grande Ilha da Madeira,
    Que do muito arvoredo assim se chama,
    Das que nós povoamos, a primeira,
    Mais célebre por nome que por fama:
    Mas nem por ser do mundo a derradeira
    Se lhe aventajam quantas Vénus ama,
    Antes, sendo esta sua, se esquecera
    De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

    6
    "Deixamos de Massília a estéril costa,
    Onde seu gado os Azenegues pastam,
    Gente que as frescas águas nunca gosta
    Nem as ervas do campo bem lhe abastam:
    A terra a nenhum fruto enfim disposta,
    Onde as aves no ventre o ferro gastam,
    Padecendo de tudo extrema inópia,
    Que aparta a Barbaria de Etiópia.

    7
    "Passamos o limite aonde chega
    O Sol, que para o Norte os carros guia,
    Onde jazem os povos a quem nega
    O filho de Climene a cor do dia.
    Aqui gentes estranhas lava e rega
    Do negro Sanagá a corrente fria,
    Onde o Cabo Arsinário o nome perde,
    Chamando-se dos nossos Cabo Verde.

    8
    "Passadas tendo já as Canárias ilhas,
    Que tiveram por nome Fortunadas,
    Entramos, navegando, pelas filhas
    Do velho Hespério, Hespérides chamadas;
    Terras por onde novas maravilhas
    Andaram vendo já nossas armadas.
    Ali tomamos porto com bom vento,
    Por tomarmos da terra mantimento.

    9
    "Aquela ilha apartamos, que tomou
    O nome do guerreiro Santiago,
    Santo que os Espanhóis tanto ajudou
    A fazerem nos Mouros bravo estrago.
    Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,
    Tornamos a cortar o imenso lago
    Do salgado Oceano, e assim deixamos
    A terra onde o refresco doce achamos.

    10
    "Por aqui rodeando a larga parte
    De África, que ficava ao Oriente,
    A província Jalofo, que reparte
    Por diversas nações a negra gente;
    A mui grande Mandinga, por cuja arte
    Logramos o metal rico e luzente,
    Que do curvo Gambeia as águas bebe,
    As quais o largo Atlântico recebe.

    11
    "As Dórcadas passamos, povoadas
    Das Irmãs, que outro tempo ali viviam,
    Que de vista total sendo privadas,
    Todas três dum só olho se serviam.
    Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
    Netuno lá nas águas acendiam,
    Tornada já de todas a mais feia,
    De bívoras encheste a ardente areia.

    12
    "Sempre enfim para o Austro a aguda proa
    No grandíssimo gólfão nos metemos,
    Deixando a serra aspérrima Leoa,
    Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
    O grande rio, onde batendo soa
    O mar nas praias notas que ali temos,
    Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
    O nome dum que o lado a Deus tocou.

    13
    "Ali o mui grande reino está de Congo,
    Por nós já convertido à fé de Cristo,
    Por onde o Zaire passa, claro e longo,
    Rio pelos antigos nunca visto.
    Por este largo mar enfim me alongo
    Do conhecido pólo de Calisto,
    Tendo o término ardente já passado,
    Onde o meio do mundo é limitado.

    14
    "Já descoberto tínhamos diante,
    Lá no novo Hemisfério, nova estrela,
    Não vista de outra gente, que ignorante
    Alguns tempos esteve incerta dela.
    Vimos a parte menos rutilante,
    E, por falta de estrelas, menos bela,
    Do Pólo fixo, onde ainda se não sabe
    Que outra terra comece, ou mar acabe.

    15
    "Assim passando aquelas regiões
    Por onde duas vezes passa Apolo,
    Dois invernos fazendo e dois verões,
    Enquanto corre dum ao outro Pólo,
    Por calmas, por tormentas e opressões,
    Que sempre f az no mar o irado Eolo,
    Vimos as Ursas, apesar de Juno,
    Banharem-se nas águas de Netuno.

    16
    "Contar-te longamente as perigosas
    Coisas do mar, que os homens não entendem:
    Súbitas trovoadas temerosas,
    Relâmpados que o ar em fogo acendem,
    Negros chuveiros, noites tenebrosas,
    Bramidos de trovões que o mundo fendem,
    Não menos é trabalho, que grande erro,
    Ainda que tivesse a voz de ferro.

    17
    "Os casos vi que os rudos marinheiros,
    Que têm por mestra a longa experiência,
    Contam por certos sempre e verdadeiros,
    Julgando as cousas só pela aparência,
    E que os que têm juízos mais inteiros,
    Que só por puro engenho e por ciência,
    Vêem do mundo os segredos escondidos,
    Julgam por falsos, ou mal entendidos.

    18
    "Vi, claramente visto, o lume vivo
    Que a marítima gente tem por santo
    Em tempo de tormenta e vento esquivo,
    De tempestade escura e triste pranto.
    Não menos foi a todos excessivo
    Milagre, e coisa certo de alto espanto,
    Ver as nuvens do mar com largo cano
    Sorver as altas águas do Oceano.

    19
    "Eu o vi certamente (e não presumo
    Que a vista me enganava) levantar-se
    No ar um vaporzinho e subtil fumo,
    E, do vento trazido, rodear-se:
    Daqui levado um cano ao pólo sumo
    Se via, tão delgado, que enxergar-se
    Dos olhos facilmente não podia:
    Da matéria das nuvens parecia.

    20
    "Ia-se pouco e pouco acrescentando
    E mais que um largo masto se engrossava;
    Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
    Os golpes grandes de água em si chupava;
    Estava-se coas ondas ondeando:
    Em cima dele uma nuvem se espessava,
    Fazendo-se maior, mais carregada
    Co'o cargo grande d'água em si tomada.

    21
    "Qual roxa sanguessuga se veria
    Nos beiços da alimária (que imprudente,
    Bebendo a recolheu na fonte fria)
    Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;
    Chupando mais e mais se engrossa e cria,
    Ali se enche e se alarga grandemente:
    Tal a grande coluna, enchendo, aumenta
    A si, e a nuvem negra que sustenta.

    22
    "Mas depois que de todo se fartou,
    O pó que tem no mar a si recolhe,
    E pelo céu chovendo enfim voou,
    Porque coa água a jacente água molhe:
    As ondas torna as ondas que tomou,
    Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
    Vejam agora os sábios na escritura,
    Que segredos são estes de Natura.

    23
    "Se os antigos filósofos, que andaram
    Tantas terras, por ver segredos delas,
    As maravilhas que eu passei, passaram,
    A tão diversos ventos dando as velas,
    Que grandes escrituras que deixaram!
    Que influição de signos e de estrelas!
    Que estranhezas, que grandes qualidades!
    E tudo sem mentir, puras verdades.

    24
    "Mas já o Planeta que no céu primeiro
    Habita, cinco vezes apressada,
    Agora meio rosto, agora inteiro
    Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,
    Quando da etérea gávea um marinheiro,
    Pronto coa vista, "Terra! Terra!" brada.
    Salta no bordo alvoroçada a gente
    Co'os olhos no horizonte do Oriente.

    25
    "A maneira de nuvens se começam
    A descobrir os montes que enxergamos;
    As âncoras pesadas se adereçam;
    As velas, já chegados, amainamos.
    E para que mais certas se conheçam
    As partes tão remotas onde estamos,
    Pelo novo instrumento do Astrolábio,
    Invenção de subtil juízo e sábio,

    26
    "Desembarcamos logo na espaçosa,
    Parte, por onde a gente se espalhou,
    De ver eousas estranhas desejosa
    Da terra que outro povo não pisou;
    Porém eu co'os pilotos na arenosa
    Praia, por vermos em que parte estou,
    Me detenho em tomar do Sol a altura
    E compassar a universal pintura.

    27
    "Achamos ter de todo já passado
    Do Semicapro peixe a grande meta,
    Estando entre ele e o círculo gelado
    Austral, parte do mundo mais secreta.
    Eis, de meus companheiros rodeado,
    Vejo um estranho vir de pele preta,
    Que tomaram por força, enquanto apanha
    De mel os doces favos na montanha.

    28
    "Torvado vem na vista, como aquele
    Que não se vira nunca em tal extremo;
    Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
    Selvagem mais que o bruto Polifemo.
    Começo-lhe a mostrar da rica pelo
    De Colcos o gentil metal supremo,
    A prata fina, a quente especiaria:
    A nada disto o bruto se movia.

    29
    "Mando mostrar-lhe peças mais somenos:
    Contas de cristalino transparente,
    Alguns soantes cascavéis pequenos,
    Um barrete vermelho, cor contente.
    Vi logo, por sinais e por acenos,
    Que com isto se alegra grandemente.
    Mando-o soltar com tudo, e assim caminha
    Para a povoação que perto tinha.

    30
    "Mas logo ao outro dia, seus parceiros,
    Todos nus, e da cor da escura treva,
    Descendo pelos ásperos outeiros,
    As peças vêm buscar que estoutro leva:
    Domésticos já tanto e companheiros
    Se nos mostram, que fazem que se atreva
    Fernão Veloso a ir ver da terra o trato
    E partir-se com eles pelo mato.

    31
    "É Veloso no braço confiado,
    E de arrogante crê que vai seguro;
    Mas, sendo um grande espaço já passado,
    Em que algum bom sinal saber procuro,
    Estando, a vista alçada, co'o cuidado
    No aventureiro, eis pelo monto duro
    Aparece, e, segundo ao mar caminha,
    Mais apressado do que fora, vinha.

    32
    "O batel de Coelho foi depressa
    Pelo tomar; mas, antes que chegasse,
    Um Etíope ousado se arremessa
    A ele, por que não se lhe escapasse;
    Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa
    Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;
    Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,
    Se mostra um bando negro descoberto.

    33
    "Da espessa nuvem setas e pedradas
    Chovem sobre nós outros sem medida;
    E não foram ao vento em vão deitadas,
    Que esta perna trouxe eu dali ferida;
    Mas nós, como pessoas magoadas,
    A resposta lhe demos tão tecida,
    Que, em mais que nos barretes, se suspeita
    Que a cor vermelha levam desta feita.

    34
    "E sendo já, Veloso em salvamento,
    Logo nos recolhemos para a armada,
    Vendo a malícia feia e rudo intento
    Da gente bestial, bruta e malvada,
    De quem nenhum melhor conhecimento
    Pudemos ter da índia desejada
    Que estarmos ainda muito longe dela;
    E assim tornei a dar ao vento a vela.

    35
    "Disse então a Veloso um companheiro
    (Começando-se todos a sorrir)
    -"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro
    É melhor de descer que de subir."
    --"Sim, é, (responde o ousado aventureiro)
    Mas quando eu para cá vi tantos vir
    Daqueles cães, depressa um pouco vim,
    Por me lembrar que estáveis cá sem

    36
    "Contou então que, tanto que passaram
    Aquele monte, os negros de quem falo,
    Avante mais passar o não deixaram,
    Querendo, se não torna, ali matá-lo;
    E tornando-se, logo se emboscaram,
    Por que, saindo nós para tomá-lo,
    Nos pudessem mandar ao reino escuro,
    Por nos roubarem mais a seu seguro.

    37
    "Porém já cinco Sóis eram passados
    Que dali nos partíramos, cortando
    Os mares nunca doutrem navegados,
    Prósperamente os ventos assoprando,
    Quando uma noite estando descuidados,
    Na cortadora proa vigiando,
    Uma nuvem que os ares escurece
    Sobre nossas cabeças aparece.

    38
    "Tão temerosa vinha e carregada,
    Que pôs nos corações um grande medo;
    Bramindo o negro mar, de longe brada
    Como se desse em vão nalgum rochedo.
    --"Ó Potestade, disse, sublimada!
    Que ameaço divino, ou que segredo
    Este clima e este mar nos apresenta,
    Que mor cousa parece que tormenta?"--

    39
    "Não acabava, quando uma figura
    Se nos mostra no ar, robusta e válida,
    De disforme e grandíssima estatura,
    O rosto carregado, a barba esquálida,
    Os olhos encovados, e a postura
    Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
    Cheios de terra e crespos os cabelos,
    A boca negra, os dentes amarelos.

    40
    "Tão grande era de membros, que bem posso
    Certificar-te, que este era o segundo
    De Rodes estranhíssimo Colosso,
    Que um dos sete milagres foi do mundo:
    Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
    Que pareceu sair do mar profundo:
    Arrepiam-se as carnes e o cabelo
    A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.

    41
    "E disse:--"Ó gente ousada, mais que quantas
    No mundo cometeram grandes cousas,
    Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
    E por trabalhos vãos nunca repousas,
    Pois os vedados términos quebrantas,
    E navegar meus longos mares ousas,
    Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
    Nunca arados d'estranho ou próprio lenho:

    42
    --"Pois vens ver os segredos escondidos
    Da natureza e do úmido elemento,
    A nenhum grande humano concedidos
    De nobre ou de imortal merecimento,
    Ouve os danos de mim, que apercebidos
    Estão a teu sobejo atrevimento,
    Por todo o largo mar e pela terra,
    Que ainda hás de sojugar com dura guerra.

    43
    --"Sabe que quantas naus esta viagem
    Que tu fazes, fizerem de atrevidas,
    Inimiga terão esta paragem
    Com ventos e tormentas desmedidas.
    E da primeira armada que passagem
    Fizer por estas ondas insofridas,
    Eu farei d'improviso tal castigo,
    Que seja mor o dano que o perigo.

    44
    --"Aqui espero tomar, se não me engano,
    De quem me descobriu, suma vingança.
    E não se acabará só nisto o dano
    Da vossa pertinace confiança;
    Antes em vossas naus vereis cada ano,
    Se é verdade o que meu juízo alcança,
    Naufrágios, perdições de toda sorte,
    Que o menor mal de todos seja a morte.

    45
    --"É do primeiro Ilustre, que a ventura
    Com fama alta fizer tocar os Céus,
    Serei eterna e nova sepultura,
    Por juízos incógnitos de Deus.
    Aqui porá da Turca armada dura
    Os soberbos e prósperos troféus;
    Comigo de seus danos o ameaça
    A destruída Quíloa com Mombaça.

    46
    --"Outro também virá de honrada fama,
    Liberal, cavaleiro, enamorado,
    E consigo trará a formosa dama
    Que Amor por grã mercê lhe terá dado.
    Triste ventura e negro fado os chama
    Neste terreno meu, que duro e irado
    Os deixará dum cru naufrágio vivos
    Para verem trabalhos excessivos.

    47
    --"Verão morrer com fome os filhos caros,
    Em tanto amor gerados e nascidos;
    Verão os Cafres ásperos e avaros
    Tirar à linda dama seus vestidos;
    Os cristalinos membros e perclaros
    A calma, ao frio, ao ar verão despidos,
    Depois de ter pisada longamente
    Co'os delicados pés a areia ardente.

    48
    --"E verão mais os olhos que escaparem
    De tanto mal, de tanta desventura,
    Os dois amantes míseros ficarem
    Na férvida e implacável espessura.
    Ali, depois que as pedras abrandarem
    Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
    Abraçados as almas soltarão
    Da formosa e misérrima prisão."--

    49
    "Mais ia por diante o monstro horrendo
    Dizendo nossos fados, quando alçado
    Lhe disse eu:--Quem és tu? que esse estupendo
    Corpo certo me tem maravilhado.--
    A boca e os olhos negros retorcendo,
    E dando um espantoso e grande brado,
    Me respondeu, com voz pesada e amara,
    Como quem da pergunta lhe pesara:

    50
    --"Eu sou aquele oculto e grande Cabo,
    A quem chamais vós outros Tormentório,
    Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
    Plínio, e quantos passaram, fui notório.
    Aqui toda a Africana costa acabo
    Neste meu nunca visto Promontório,
    Que para o Pólo Antarctico se estende,
    A quem vossa ousadia tanto ofende.

    51
    --"Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
    Qual Encélado, Egeu e o Centimano;
    Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
    Contra o que vibra os raios de Vulcano;
    Não que pusesse serra sobre serra,
    Mas conquistando as ondas do Oceano,
    Fui capitão do mar, por onde andava
    A armada de Netuno, que eu buscava.

    52
    --"Amores da alta esposa de Peleu
    Me fizeram tomar tamanha empresa.
    Todas as Deusas desprezei do céu,
    Só por amar das águas a princesa.
    Um dia a vi coas filhas de Nereu
    Sair nua na praia, e logo presa
    A vontade senti de tal maneira
    Que ainda não sinto coisa que mais queira.

    53
    --"Como fosse impossível alcançá-la
    Pela grandeza feia de meu gesto,
    Determinei por armas de tomá-la,
    E a Doris este caso manifesto.
    De medo a Deusa então por mim lhe fala;
    Mas ela, com um formoso riso honesto,
    Respondeu:--"Qual será o amor bastante
    De Ninfa que sustente o dum Gigante?

    54
    --"Contudo, por livrarmos o Oceano
    De tanta guerra, eu buscarei maneira,
    Com que, com minha honra, escuse o dano."
    Tal resposta me torna a mensageira.
    Eu, que cair não pude neste engano,
    (Que é grande dos amantes a cegueira)
    Encheram-me com grandes abondanças
    O peito de desejos e esperanças.

    55
    --"Já néscio, já da guerra desistindo,
    Uma noite de Dóris prometida,
    Me aparece de longe o gesto lindo
    Da branca Tétis única despida:
    Como doido corri de longe, abrindo
    Os braços, para aquela que era vida
    Deste corpo, e começo os olhos belos
    A lhe beijar, as faces e os cabelos.

    56
    --"Ó que não sei de nojo como o conte!
    Que, crendo ter nos braços quem amava,
    Abraçado me achei com um duro monte
    De áspero mato e de espessura brava.
    Estando com um penedo fronte a fronte,
    Que eu pelo rosto angélico apertava
    Não fiquei homem não, mas mudo e quedo,
    E junto dum penedo outro penedo.

    57
    --"Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
    Já que minha presença não te agrada,
    Que te custava ter-me neste engano,
    Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
    Daqui me parto irado, e quase insano
    Da mágoa e da desonra ali passada,
    A buscar outro inundo, onde não visse
    Quem de meu pranto e de meu mal se risse,

    58
    --"Eram já neste tempo meus irmãos
    Vencidos e em miséria extrema postos;
    E por mais segurar-se os Deuses vãos,
    Alguns a vários montes sotopostos:
    E como contra o Céu não valem mãos,
    Eu, que chorando andava meus desgostos,
    Comecei a sentir do fado inimigo
    Por meus atrevimentos o castigo.

    59
    --"Converte-se-me a carne em terra dura,
    Em penedos os ossos sefizeram,
    Estes membros que vês e esta figura
    Por estas longas águas se estenderam;
    Enfim, minha grandíssima estatura
    Neste remoto cabo converteram
    Os Deuses, e por mais dobradas mágoas,
    Me anda Tétis cercando destas águas."--

    60
    "Assim contava, e com um medonho choro
    Súbito diante os olhos se apartou;
    Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro
    Bramido muito longe o mar soou.
    Eu, levantando as mãos ao santo coro
    Dos anjos, que tão longe nos guiou,
    A Deus pedi que removesse os duros
    Casos, que Adamastor contou futuros.

    61
    "Já Flegon e Piróis vinham tirando
    Com os outros dois o carro radiante,
    Quando a terra alta se nos foi mostrando,
    Em que foi convertido o grão Gigante.
    Ao longo desta costa, começando
    Já de cortar as ondas do Levante,
    Por ela abaixo um pouco navegamos,
    Onde segunda vez terra tomamos.

    62
    "A gente que esta terra possuía,
    Posto que todos Etíopes eram,
    Mais humana no trato parecia
    Que os outros, que tão mal nos receberam.
    Com bailos e com festas de alegria
    Pela praia arenosa a nós vieram,
    As mulheres consigo e o manso gado
    Que apascentavam, gordo e bem criado.

    63
    "As mulheres queimadas vêm em cima
    Dos vagarosos bois, ali sentadas,
    Animais que eles têm em mais estima
    Que todo o outro gado das manadas.
    Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
    Na sua língua cantam concertadas
    Com o doce som das rústicas avenas,
    Imitando de Títiro as Camenas.

    64
    "Estes, como na vista prazenteiros
    Fossem, humanamente nos trataram,
    Trazendo-nos galinhas e carneiros,
    A troco doutras peças, que levaram.
    Mas como nunca enfim meus companheiros
    Palavra sua alguma lhe alcançaram
    Que desse algum sinal do que buscamos,
    As velas dando, as âncoras levamos.

    65
    "Já aqui tínhamos dado um grã rodeio
    A costa negra de África, e tornava
    A proa a demandar o ardente meio
    Do Céu, e o pólo Antarctico ficava:
    Aquele ilhéu deixamos, onde veio
    Outra armada primeira, que buscava
    O Tormentório cabo, e descoberto,
    Naquele ilhéu fez seu limite certo.

    66
    Daqui fomos cortando muitos dias
    Entre tormentas tristes e bonanças,
    No largo mar fazendo novas vias,
    Só conduzidos de árduas esperanças.
    Colo mar um tempo andamos em porfias,
    Que, como tudo nele são mudanças.
    Corrente nele achamos tão possante
    Que passar não deixava por diante.

    67
    "Era maior a força em demasia,
    Segundo para trás nos obrigava,
    Do mar, que contra nós ali corria,
    Que por nós a do vento que assoprava.
    Injuriado Noto da porfia
    Em que colo mar (parece) tanto estava,
    Os assopros esforça iradamente,
    Com que nos fez vencer a grão corrente.

    68
    "Trazia o Sol o dia celebrado,
    Em que três Reis das partes do Oriento
    Foram buscar um Rei de pouco nado,
    No qual Rei outros três há juntamente.
    Neste dia outro porto foi tomado
    Por nós, da mesma já contada gente,
    Num largo rio, ao qual o no e demos
    Do dia, em que por ele nos metemos.

    69
    "Desta gente refresco algum tomamos,
    E do rio fresca água; mas contudo
    Nenhum sinal aqui da Índia achamos
    No Povo, com nós outros quase mudo.
    Ora vê, Rei, que tamanha terra andamos,
    Sem sair nunca deste povo rudo,
    Sem vermos nunca nova nem sinal
    Da desejada parte Oriental.

    70
    "Ora imagina agora coitados
    Andaríamos todos, perdidos,
    De fomes, de tormentas quebrantados,
    Por climas e por mares não sabidos,
    E do esperar comprido tão cansados,
    Quanto a desesperar já compelidos,
    Por céus não naturais, de qualidade
    Inimiga de nossa humanidade.

    71
    "Corrupto já e danado o mantimento,
    Danoso e mau ao fraco corpo humano,
    E além disso nenhum contentamento,
    Que sequer da esperança fosse engano.
    Crês tu que, se este nosso ajuntamento
    De soldados não fora Lusitano,
    Que durara ele tanto obediente
    Por ventura a seu Rei e a seu regente?

    72
    "Crês tu que já não foram levantados
    Contra seu Capitão, se os resistira,
    Fazendo-se piratas, obrigados
    De desesperação, de fome, de ira?
    Grandemente, por certo, estão provados,
    Pois que nenhum trabalho grande os tira
    Daquela Portuguesa alta excelência
    De lealdade firme, e obediência.

    73
    "Deixando o porto enfim do doce rio
    E tornando a cortar a água salgada,
    Fizemos desta costa algum desvio,
    Deitando para o pego toda a armada;
    Porque, ventando Noto manso e frio,
    Não nos apanhasse a água da enseada,
    Que a costa faz ali daquela banda
    Donde a rica Sofala o ouro manda.

    74
    "Esta passada, logo o leve leme
    Encomendado ao sacro Nicolau,
    Para onde o mar na costa brada e geme,
    A proa inclina duma e doutra nau;
    Quando indo o coração que espera e teme
    E que tanto fiou dum fraco pau
    Do que esperava já desesperado,
    Foi duma novidade alvoroçado

    75
    "E foi que, estando já da costa perto,
    Onde as praias e vales bem se viam,
    Num rio, que ali sai ao mar aberto,
    Batéis à vela entravam e saíam.
    Alegria muito grande foi por certo
    Acharmos já pessoas que sabiam
    Navegar, porque entre elas esperamos
    De achar novas algumas, como achamos.

    76
    "Etíopes são todos, mas parece
    Que com gente melhor comunicavam;
    Palavra alguma Arábia se conhece
    Entre a linguagem sua que falavam;
    E com pano delgado, que se tece
    De algodão, as cabeças apertavam;
    Com outro, que de tinta azul se tinge,
    Cada um as vergonhosas partes cinge.

    77
    "Pela Arábica língua, que mal falam,
    E que Fernão Martins muito bem entende,
    Dizem que por naus, que em grandeza igualam
    As nossas, o seu mar se corta e fende;
    Mas que lá donde sai o Sol, se abalam
    Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,
    E do Sul para o Sol, terra onde havia
    Gente, assim como nós, da cor do dia.

    78
    "Muito grandemente aqui nos alegramos
    Com a gente, e com as novas muito mais:
    Pelos sinais que neste rio achamos
    O nome lhe ficou dos Bons Sinais.
    Um padrão nesta terra alevantamos,
    Que, para assinalar lugares tais,
    Trazia alguns; o nome tem do belo
    Guiador de Tobias a Gabelo.

    79
    "Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,
    Nojosa criação das águas fundas,
    Alimpamos as naus, que dos caminhos
    Longos do mar, vêm sórdidas e imundas.
    Dos hóspedes que tínhamos vizinhos,
    Com mostras aprazíveis e jocundas,
    louvemos sempre o usado mantimento,
    Limpos de todo o falso pensamento.

    80
    "Mas não foi, da esperança grande e imensa
    Que nesta terra houvemos, limpa e pura
    A alegria; mas logo a recompensa
    A Ramnúsia com nova desventura.
    Assim no céu sereno se dispensa:
    Com esta condição pesada e dura
    Nascemos: o pesar terá firmeza,
    Mas o bem logo muda a natureza.

    81
    "E foi que de doença crua e feia,
    A mais que eu nunca vi, desampararam
    Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
    Os ossos para sempre sepultaram.
    Quem haverá que, sem o ver, o creia?
    Que tão disformemente ali lhe incharam
    As gengivas na boca, que crescia
    A carne, e juntamente apodrecia.

    82
    "--Apodrecia com um fétido e bruto
    Cheiro, que o ar vizinho inficionava;
    Não tínhamos ali médico astuto,
    Cirurgião subtil menos se achava;
    Mas qualquer, neste ofício pouco instructo,
    Pela carne já podre assim cortava
    Como se fora morta, e bem convinha,
    Pois que morto ficava quem a tinha.

    83
    "Enfim que nesta incógnita espessura
    Deixamos para sempre os companheiros,
    Que em tal caminho e em tanta desventura
    Foram sempre conosco aventureiros.
    Quão fácil é ao corpo a sepultura!
    Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
    Estranhos, assim mesmo como aos nossos,
    Receberão de todo o Ilustre os ossos.

    84
    "Assim que, deste porto nos partirmos
    Com maior esperança e maior tristeza,
    E pela costa abaixo o mar abrirmos
    Buscando algum sinal de mais firmeza.
    Na dura Moçambique enfim surgimos,
    De cuja falsidade e má vileza
    Já serás sabedor, e dos enganos
    Dos povos de Mombaça pouco humanos.

    85
    "Até que aqui no teu seguro porto,
    Cuja brandura e doce tratamento
    Dará saúde a um vivo, e vida a um morto,
    Nos trouxe a piedade do alto assento.
    Aqui repouso, aqui doce conforto,
    Nova quietação do pensamento
    Nos deste: e vês aqui, se atento ouviste,
    Te contei tudo quanto me pediste.

    86
    "Julgas agora, Rei, se houve no mundo
    Gentes que tais caminhos cometessem?
    Crês tu que tanto Eneias e o facundo
    Ulisses pelo inundo se estendessem?
    Ousou algum a ver do mar profundo,
    Por mais versos que dele se escrevessem,
    Do que eu vi, a poder de esforço e de arte,
    E do que ainda hei de ver, a oitava parte?

    87
    "Esse que bebeu tanto da água Aónia,
    Sobre quem tem contenda peregrina,
    Entre si, Rodes, Smirna e Colofónia,
    Atenas, Ios, Argo e Salamina:
    Esse outro que esclarece toda Ausónía,
    A cuja voz altíssona e divina
    Ouvindo, o pátrio Míncio se adormece,
    Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;

    88
    Cantem, louvem e escrevam sempre extremos
    Desses seus Semideuses, e encareçam,
    Fingindo Magis Circes, Polifemos,
    Sirenas que com o canto os adormeçam;
    Dêem-lhe mais navegar à vela e remos
    Os Cicones, e a torra onde se esqueçam
    Os companheiros, em gostando o Loto;
    Dêem-lhe perder nas águas o piloto;

    89
    "Ventos soltos lhe finjam, e imaginem
    Dos odres e Calipsos namoradas;
    Harpias que o manjar lhe contaminem;
    Descer às sombras nuas já passadas:
    Que por muito e por muito que se afinem
    Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,
    A verdade que eu conto nua e pura
    Vence toda grandíloqua escritura."

    90
    Da boca do facundo Capitão
    Pendendo estavam todos embebidos,
    Quando deu fim à longa narração
    Dos altos feitos grandes e subidos.
    Louva o Rei o sublime coração
    Dos Reis em tantas guerras conhecidos;
    Da gente louva a antiga fortaleza,
    A lealdade de ânimo e nobreza.

    91
    Vai recontando o povo, que se admira,
    O caso cada qual que mais notou;
    Nenhum deles da gente os olhos tira,
    Que tão longos caminhos rodeou.
    Mas já o mancebo Délio as rédeas vira
    Que o irmão de Lampécia mal guiou,
    Por vir a descansar nos Tétios braços;
    E el-Rei se vai do mar aos nobres paços.

    92
    Quão doce é o louvor e a justa glória
    Dos próprios feitos, quando são soados!
    Qualquer nobre trabalha que em memória
    Vença ou iguale os grandes já passados.
    As invejas da ilustre e alheia história
    Fazem mil vezes feitos sublimados.
    Quem valerosas obras exercita,
    Louvor alheio muito o esperta e incita.

    93
    Não tinha em tanto os feitos gloriosos
    De Aquiles, Alexandro na peleja,
    Quanto de quem o canta, os numerosos
    Versos; isso só louva, isso deseja.
    Os troféus de Melcíades famosos
    Temístoeles despertam só de inveja,
    E diz que nada tanto o deleitava
    Como a voz que seus feitos celebrava.

  4. #104
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    94
    Trabalha por mostrar Vasco da Gama
    Que essas navegações que o mundo canta
    Não merecem tamanha glória e fama
    Como a sua, que o céu e a terra espanta.
    Si; mas aquele Herói, que estima e ama
    Com dons, mercês, favores e honra tanta
    A lira Mantuana, faz que soe
    Eneias, e a Romana glória voe.

    95
    Dá a terra lusitana Cipiões,
    Césares, Alexandros, e dá Augustos;
    Mas não lhe dá contudo aqueles dois
    Cuja falta os faz duros e robustos.
    Octávio, entre as maiores opressões,
    Compunha versos doutos e venustos.
    Não dirá Fúlvia certo que é mentira,
    Quando a deixava António por Glafira,

    96
    Vai César, sojugando toda França,
    E as armas não lhe impedem a ciência;
    Mas, numa mão a pena e noutra a lança,
    Igualava de Cícero a eloquência.
    O que de Cipião se sabe e alcança,
    É nas comédias grande experiência.
    Lia Alexandro a Homero de maneira
    Que sempre se lhe sabe à cabeceira.

    97
    Enfim, não houve forte capitão,
    Que não fosse também douto e ciente,
    Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,
    Senão da Portuguesa tão somente.
    Sem vergonha o não digo, que a razão
    De algum não ser por versos excelente,
    É não se ver prezado o verso e rima,
    Porque, quem não sabe arte, não na estima.

    98
    Por isso, e não por falta de natura,
    Não há também Virgílios nem Homeros;
    Nem haverá, se este costume dura,
    Pios Eneias, nem Aquiles feros.
    Mas o pior de tudo é que a ventura
    Tão ásperos os fez, e tão austeros,
    Tão rudos, e de engenho tão remisso,
    Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.

    99
    As Musas agradeça o nosso Gama
    o Muito amor da Pátria, que as obriga
    A dar aos seus na lira nome e fama
    De toda a ilustro e bélica fadiga:
    Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
    Calíope não tem por tão amiga,
    Nem as filhas do Tejo, que deixassem
    As telas douro fino, e que o cantassem.

    100
    Porque o amor fraterno e puro gosto
    De dar a todo o Lusitano feito
    Seu louvor, é somente o pressuposto
    Das Tágides gentis, e seu respeito.
    Porém não deixe enfim de ter disposto
    Ninguém a grandes obras sempre o peito,
    Que por esta, ou por outra qualquer via,
    Não perderá seu preço, e sua valia.

    Canto Sexto

    1
    Não sabia em que modo festejasse
    O Rei Pagão os fortes navegantes,
    Para que as amizades alcançasse
    Do Rei Cristão, das gentes tão possantes;
    Pesa-lhe que tão longe o aposentasse
    Das Européias terras abundantes
    A ventura, que não no fez vizinho
    Donde Hércules ao mar abriu caminho.

    2
    Com jogos, danças e outras alegrias,
    A segundo a polícia Melindana,
    Com usadas e ledas pescarias,
    Com que a Lageia António alegra e engana
    Este famoso Rei, todos os dias,
    Festeja a companhia Lusitana,
    Com banquetes, manjares desusados,
    Com frutas, aves, carnes e pescados.

    3
    Mas vendo o Capitão que se detinha
    Já mais do que devia, e o fresco vento
    O convida que parta e tome asinha
    Os pilotos da terra e mantimento,
    Não se quer mais deter, que ainda tinha
    Muito para cortar do salso argento;
    Já do Pagão benigno se despede,
    Que a todos amizade longa pede.

    4
    Pede-lhe mais que aquele porto seja
    Sempre com suas frotas visitado,
    Que nenhum outro bem maior deseja,
    Que dar a tais barões seu reino e estado;
    E que enquanto seu corpo o espírito reja,
    Estará de contino aparelhado
    A pôr a vida e reino totalmente
    Por tão bom Rei, por tão sublime gente.

    5
    Outras palavras tais lhe respondia
    O Capitão, o logo as velas dando,
    Para as terras da Aurora se partia,
    Que tanto tempo há já que vai buscando.
    No piloto que leva não havia
    Falsidade, mas antes vai mostrando
    A navegação certa, e assim caminha
    Já mais seguro do que dantes vinha.

    6
    As ondas navegavam do Oriente
    Já nos mares da Índia, e enxergavam
    Os tálamos do Sol, que nasce ardente;
    Já quase seus desejos se acabavam.
    Mas o mau de Tioneu, que na alma sente
    As venturas, que então se aparelhavam
    A gente Lusitana, delas dina,
    Arde, morre, blasfema e desatina.

    7
    Via estar todo o Céu determinado
    De fazer de Lisboa nova Roma;
    Não no pode estorvar, que destinado
    Está doutro poder que tudo doma.
    Do Olimpo desce enfim desesperado;
    Novo remédio em terra busca e toma:
    Entra no úmido reino, e vai-se à corte
    Daquele a quem o mar caiu em sorte.

    8
    No mais interno fundo das profundas
    Cavernas altas, onde o mar se esconde,
    Lá donde as ondas saem furibundas,
    Quando às iras do vento o mar responde,
    Netuno mora, e moram as jocundas
    Nereidas, e outros Deuses do mar, onde
    As águas campo deixam às cidades,
    Que habitam estas úmidas deidades.

    9
    Descobre o fundo nunca descoberto
    Das areias ali de prata fina;
    Torres altas se vêem no campo aberto
    Da transparente massa cristalina:
    Quanto se chegam mais os olhos perto,
    Tanto menos a vista determina
    Se é cristal o que vê, se diamante,
    Que assim se mostra claro e radiante.

    10
    As portas douro fino, e marchetadas
    Do rico aljôfar que nas conchas nasce,
    De escultura formosa estão lavradas,
    Na qual o irado Baco a vista pasce;
    E vê primeiro em cores variadas
    Do velho Caos a tão confusa face;
    Vêem-se os quatro elementos trasladados
    Em diversos ofícios ocupados.

    11
    Ali sublime o Fogo estava em cima,
    Que em nenhuma matéria se sustinha;
    Daqui as coisas vivas sempre anima,
    Depois que Prometeu furtado o tinha.
    Logo após ele leve se sublima
    O invisível Ar, que mais asinha
    Tomou lugar, e nem por quente ou f rio,
    Algum deixa no mundo estar vazio.

    12
    Estava a terra em montes revestida
    De verdes ervas, e árvores floridas,
    Dando pasto diverso e dando vida
    As alimárias nela produzidas.
    A clara forma ali estava esculpida
    Das águas entre a terra desparzidas,
    De pescados criando vários modos,
    Com seu humor mantendo os corpos todos.

    13
    Noutra parte esculpida estava a guerra,
    Que tiveram os Deuses com os Gigantes;
    Está Tifeu debaixo da alta serra
    De Etna, que as flamas lança crepitantes;
    Esculpido se vê ferindo a terra
    Netuno, quando as gentes ignorantes
    Dele o cavalo houveram, e a primeira
    De Minerva pacífica oliveira.

    14
    Pouca tardança faz Lieu irado
    Na vista destas coisas, mas entrando
    Nos paços de Netuno, que avisado
    Da vinda sua, o estava já aguardando,
    As portas o recebe, acompanhado
    Das Ninfas, que se estão maravilhando
    De ver que, cometendo tal caminho,
    Entre no reino d'água o Rei do vinho.

    15
    "Ó Netuno, lhe disse, não te espantes
    De Baco nos teus reinos receberes,
    Porque também com os grandes e possantes
    Mostra a Fortuna injusta seus poderes.
    Manda chamar os Deuses do mar, antes
    Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;
    Verão da desventura grandes modos:
    Ouçam todos o mal, que toca a todos."

    16
    Julgando já Netuno que seria
    Estranho caso aquele, logo manda
    Tritão, que chame os Deuses da água fria,
    Que o mar habitam duma e doutra banda.
    Tritão, que de ser filho se gloria
    Do Rei e de Salácia veneranda,
    Era mancebo grande, negro e feio,
    Trombeta de seu pai, e seu correio.

    17
    Os cabelos da barba, e os que descem
    Da cabeça nos ombros, todos eram
    Uns limos prenhes d'água, e bem parecem
    Que nunca brando pentem conheceram;
    Nas pontas pendurados não falecem
    Os negros misilhões, que ali se geram,
    Na cabeça por gorra tinha posta
    Uma muito grande casca de lagosta.

    18
    O corpo nu, e os membros genitais,
    Por não ter ao nadar impedimento,
    Mas porém de pequenos animais
    Do mar todos cobertos cento e cento:
    Camarões e cangrejos, e outros mais
    Que recebem de Febe crescimento,
    Ostras, e camarões do musgo sujos,
    As costas com a casca os caramujos.

    19
    Na mão a grande concha retorcida
    Que trazia, com força, já tocava;
    A voz grande canora foi ouvida
    Por todo o mar, que longe retumbava.
    Já toda a companhia apercebida
    Dos Deuses para os paços caminhava
    Do Deus, que fez os muros de Dardânia,
    Destruídos depois da Grega insânia.

    20
    Vinha o padre Oceano acompanhado
    Dos filhos e das filhas que gerara;
    Vem Nereu, que com Dóris foi casado,
    Que todo o mar de Ninfas povoara;
    O profeta Proteu, deixando o gado
    Marítimo pascer pela água amara,
    Ali veio também, mas já sabia
    O que o padre Lieu no mar queria.

    21
    Vinha por outra parte a linda esposa
    De Netuno, de Celo e Vesta filha,
    Grave e Ieda no gesto, e tão formosa
    Que se amansava o mar de maravilha.
    Vestida uma camisa preciosa
    Trazia de delgada beatilha,
    Que o corpo cristalino deixa ver-se,
    Que tanto bem não é para esconder-se.

    22
    Anfitrite, formosa como as flores,
    Neste caso não quis que falecesse;
    O Delfim traz consigo, que aos amores
    Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.
    Com os olhos, que de tudo são senhores,
    Qualquer parecerá que o Sol vencesse:
    Ambas vêm pela mão, igual partido,
    Pois ambas são esposas dum marido.

    23
    Aquela que das fúrias de Atamante
    Fugindo, veio a ter divino estado,
    Consigo traz o filho, belo Infante,
    No número dos Deuses relatado.
    Pela praia brincando vem diante
    Com as lindas conchinhas, que o salgado
    Mar sempre cria, e às vezes pela areia
    No colo o to a a bela Panopeia.

    24
    E o Deus que foi num tempo corpo humano,
    E por virtude da erva poderosa
    Foi convertido em peixe, e deste dano
    Lhe resultou deidade gloriosa,
    Inda vinha chorando o feio engano
    Que Circe tinha usado com a formosa
    Cila, que ele ama, desta sendo amado,
    Que a mais obriga amor mal empregado.

    25
    Já finalmente todos assentados
    Na grande sala, nobre e divinal;
    As Deusas em riquíssimos estrados,
    Os Deuses em cadeiras de cristal,
    Foram todos do Padre agasalhados,
    Que com o Tebano tinha assento igual.
    De fumos enche a casa a rica massa
    Que no mar nasce, e Arábia em cheiro passa.

    26
    Estando sossegado já o tumulto
    Dos Deuses, e de seus recebimentos,
    Começa a descobrir do peito oculto
    A causa o Tioneu de seus tormentos:
    Um pouco carregando-se no vulto,
    Dando mostra de grandes sentimentos,
    Só por dar aos de Luso triste morte
    Com o ferro alheio, fala desta sorte:

    27
    "Príncipe, que de juro senhoreias
    Dum Pólo ao outro Pólo o mar irado,
    Tu, que as gentes da terra toda enfreias,
    Que não passem o termo limitado;
    E tu, padre Oceano, que rodeias
    O inundo universal, e o tens cercado,
    E com justo decreto assim permites
    Que dentro vivam só de seus limites;

    28
    "E vós, Deuses do mar, que não sofreis
    Injúria alguma em vosso reino grande,
    Que com castigo igual vos não vingueis
    De quem quer que por ele corra e ande:
    Que descuido foi este em que viveis?
    Quem pode ser que tanto vos abrande
    Os peitos, com razão endurecidos
    Contra os humanos fracos e atrevidos?

    29
    "Vistes que com grandíssima ousadia
    Foram já cometer o Céu supremo;
    Vistes aquela insana fantasia
    De tentarem o mar com vela e reino;
    Vistes, e ainda vemos cada dia,
    Soberbas e insolências tais, que temo
    Que do mar e do Céu em poucos anos
    Venham Deuses a ser, e nós humanos.

    30
    "Vedes agora a fraca geração
    Que dum vassalo meu o nome toma,
    Com soberbo e altivo coração,
    A vós, e a mi, e o mundo todo doma;
    Vedes, o vosso mar cortando vão,
    Mais do que fez a gente alta de Roma;
    Vedes, o vosso reino devassando,
    Os vossos estatutos vão quebrando.

    31
    "Eu vi que contra os Mínias, que primeiro
    No vosso reino este caminho abriram,
    Bóreas injuriado, e o companheiro
    Aquilo, e os outros todos resistiram.
    Pois se do ajuntamento aventureiro
    Os ventos esta injúria assim sentiram,
    Vós, a quem mais compete esta vingança,
    Que esperais? Porque a pondes em tardança?

    32
    "E não consinto, Deuses, que cuideis
    Que por amor de vós do céu desci,
    Nem da mágoa da injúria que sofreis,
    Mas da que se me faz também a mi;
    Que aquelas grandes honras, que sabeis
    Que no mundo ganhei, quando venci
    As terras Indianas do Oriente,
    Todas vejo abatidas desta gente.

    33
    "Que o grã Senhor e Fados que destinam,
    Como lhe bem parece, o baixo mundo,
    Famas mores que nunca determinam
    De dar a estes barões no mar profundo.
    Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam
    O mal também a Deuses: que, a segundo
    Se vê, ninguém já tem menos valia,
    Que quem com mais razão valer devia.

    34
    "E por isso do Olimpo já fugi,
    Buscando algum remédio a meus pesares,
    Por ver o preço que no Céu perdi,
    Se por dita acharei nos vossos mares."
    Mais quis dizer, e não passou daqui,
    Porque as lágrimas já correndo a pares
    Lhe saltaram dos olhos, com que logo
    Se acendem as Deidades d'água em fogo.

    35
    A ira com que súbito alterado
    O coração dos Deuses foi num ponto,
    Não sofreu mais conselho bem cuidado,
    Nem dilação, nem outro algum desconto.
    Ao grande Eolo mandam já recado
    Da parte de Netuno, que sem conto
    Solte as fúrias dos ventos repugnantes,
    Que não haja no mar mais navegantes.

    36
    Bem quisera primeiro ali Proteu
    Dizer neste negócio o que sentia,
    E segundo o que a todos pareceu,
    Era alguma profunda profecia.
    Porém tanto o tumulto se moveu
    Súbito na divina companhia,
    Que Tethys indignada lhe bradou:
    "Netuno sabe bem o que mandou".

    37
    Já lá o soberbo Hipótades soltava
    Do cárcere fechado os furiosos
    Ventos, que com palavras animava
    Contra os varões audazes e animosos.
    Súbito o céu sereno se obumbrava,
    Que os ventos, mais que nunca impetuosos,
    Começam novas forças a ir tomando,
    Torres, montes e casas derribando.

    38
    Enquanto este conselho se fazia
    No fundo aquoso, a leda lassa frota
    Com vento sossegado prosseguia,
    Pelo tranquilo mar, a longa rota.
    Era no tempo quando a luz do dia
    Do Eôo Hemisfério está remota;
    Os do quarto da prima se deitavam,
    Para o segundo os outros despertavam.

    39
    Vencidos vêm do sono, e mal despertos;
    Bocejando a miúdo se encostavam
    Pelas antenas, todos mal cobertos
    Contra os agudos ares, que assopravam;
    Os olhos contra seu querer abertos,
    Alas estregando, os membros estiravam;
    Remédios contra o sono buscar querem,
    Histórias contam, casos mil referem.

    40
    "Com que melhor podemos, um dizia,
    Este tempo passar, que é tão pesado,
    Senão com algum conto de alegria,
    Com que nos deixe o sono carregado?"
    Responde Leonardo, que trazia
    Pensamentos de firme namorado:
    "Que contos poderemos ter melhores,
    Para passar o tempo, que de amores?"

    41
    "Não é, disse Veloso, coisa justa
    Tratar branduras em tanta aspereza;
    Que o trabalho do mar, que tanto custa,
    Não sofre amores, nem delicadeza;
    Antes de guerra férvida e robusta
    A nossa história seja, pois dureza
    Nossa vida há de ser, segundo entendo,
    Que o trabalho por vir me está dizendo."

    42
    Consentem nisto todos, e encomendam
    A Veloso que conte isto que aprova.
    "Contarei, disse, sem que me repreendam
    De contar cousa fabulosa ou nova;
    E porque os que me ouvirem daqui aprendam
    A fazer feitos grandes de alta prova,
    Dos nascidos direi na nossa terra,
    E estes sejam os doze de Inglaterra.

    43
    "No tempo que do Reino a rédea leve
    João, filho de Pedro, moderava,
    Depois que sossegado e livre o teve
    Do vizinho poder, que o molestava,
    Lá na grande Inglaterra, que da neve
    Boreal sempre abunda, semeava
    A fera Erínis dura e má cizânia,
    Que lustre fosse a nossa Lusitânia.

    44
    "Entre as damas gentis da corte Inglesa
    E nobres cortesãos, acaso um dia
    Se levantou discórdia em ira acesa,
    Ou foi opinião, ou foi porfia.
    Os cortesãos, a quem tão pouco pesa
    Soltar palavras graves de ousadia,
    Dizem que provarão, que honras e famas
    Em tais damas não há para ser damas;

    45
    "E que se houver alguém, com lança e espada,
    Que queira sustentar a parte sua,
    Que eles, em campo raso ou estacada,
    Lhe darão feia infâmia, ou morte crua.
    A feminil fraqueza Pouco usada,
    Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua
    De forças naturais convenientes,
    Socorro pede a amigos e parentes.

    46
    "Mas como fossem grandes e possantes
    No reino os inimigos, não se atrevem
    Nem parentes, nem férvidos amantes,
    A sustentar as damas, como devem.
    Com lágrimas formosas e bastantes
    A fazer que em socorro os Deuses levem
    De todo o Céu, por rostos de alabastro,
    Se vão todas ao duque de Alencastro.

    47
    "Era este Inglês potente, e militara
    Com os Portugueses já contra Castela,
    Onde as forças magnânimas provara
    Dos companheiros, e benigna estrela:
    Não menos nesta terra experimentara
    Namorados afeitos, quando nela
    A filha viu, que tinto o peito doma
    Do forte Rei, que por mulher a toma.

  5. #105
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    48
    "Este, que socorrer-lhe não queria,
    Por não causar discórdias intestinas,
    Lhe diz:--"Quando o direito pretendia
    Do reino lá das terras Iberinas,
    Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
    Tanto primor, e partes tão divinas,
    Que eles sós poderiam, se não erro,
    Sustentar vossa parte a fogo e ferro.

    49
    "E se, agravadas damas, sois servidas,
    Por vós lhe mandarei embaixadores,
    Que, por cartas discretas e polidas,
    De vosso agravo os façam sabedores.
    Também por vossa parto encarecidas
    Com palavras de afagos e de amores
    Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio
    Que ali tereis socorro e forte esteio."--

    50
    "Destarte as aconselha o Duque experto,
    E logo lhe nomeia doze fortes;
    E por que cada dama um tenha certo,
    Lhe manda que sobre eles lancem sortes,
    Que elas só doze são; e descoberto
    Qual a qual tem caído das consertes,
    Cada uma escreve ao seu por vários modos,
    E todas a seu Rei, e o Duque a todos.

    51
    "Já chega a Portugal o mensageiro;
    Toda a corte alvoroça a novidade;
    Quisera o Rei sublime ser primeiro,
    Mas não lhe sofre a Régia Majestade.
    Qualquer dos cortesãos aventureiro
    Deseja ser, com férvida vontade,
    F, só fica por bem-aventurado
    Quem já vem pelo Duque nomeado.

    52
    "Lá na leal Cidade, donde teve
    Origem (como é fama) o nome eterno
    De Portugal, armar madeiro leve
    Manda o que tem o leme do governo.
    Apercebem-se os doze, em tempo breve,
    De armas, e roupas de uso mais moderno,
    De elmos, cimeiras, letras, e primores,
    Cavalos, e concertos de mil cores.

    53
    "Já do seu Rei tomado têm licença
    Para partir do Douro celebrado
    Aqueles, que escolhidos por sentença
    Foram do Duque Inglês experimentado.
    Não há na companhia diferença
    De cavaleiro destro ou esforçado;
    Mas um só, que Magriço se dizia,
    Destarte fala à forte companhia:

    54
    --"Fortíssimos consócios, eu desejo
    Há muito já de andar terras estranhas,
    Por ver mais águas que as do Douro o Tejo,
    Várias gentes, e leis, e várias manhas.
    Agora, que aparelho certo vejo,
    (Pois que do mundo as coisas são tamanhas)
    Quero, se me deixais, ir só por terra,
    Porque eu serei convosco em Inglaterra.

    55
    --"E quando caso for que eu impedido
    Por quem das cousas é última linha,
    Não for convosco ao prazo instituído,
    Pouca falta vos faz a falta minha:
    Todos por mim fareis o que é devido;
    Mas, se a verdade o espírito me adivinha,
    Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,
    Não farão que eu convosco lá não seja."

    56
    "Assim diz, e abraçados os amigos,
    E tomada licença, enfim se parte:
    Passa Lião, Castela, vendo antigos
    Lugares, que ganhara o pátrio Marte;
    Navarra, com os altíssimos perigos
    Do Perineu, que Espanha e Gália parte;
    Vistas enfim de França as coisas grandes,
    No grande empório foi parar de Frandes.

    57
    "Ali chegado, ou fosse caso ou manha,
    Sem passar se deteve muitos dias:
    Mas dos onze a ilustríssima companha
    Cortam do mar do Norte as ondas frias.
    Chegados de Inglaterra à costa estranha,
    Para Londres já fazem todos vias.
    Do Duque são com festa agasalhados,
    E das damas servidos e amimados.

    58
    "Chega-se o prazo e dia assinalado
    De entrar em campo já com os doze Ingleses,
    Que pelo Rei já tinham segurado:
    Armam-se de elmos, grevas e de arneses:
    Já as damas têm por si, fulgente e armado,
    O Mavorte feroz dos Portugueses;
    Vestem-se elas de cores e de sedas,
    De ouro e de jóias mil, ricas e ledas.

    59
    "Mas aquela, a quem fora em sorte dado
    Magriço, que não vinha, com tristeza
    Se veste, por não ter quem nomeado
    Seja seu cavaleiro nesta empresa;
    Bem que os onze apregoam, que acabado
    Será o negócio assim na corte Inglesa,
    Que as damas vencedoras se conheçam,
    Posto que dois e três dos seus faleçam.

    60
    "Já num sublime e público teatro
    Se assenta o Rei Inglês com toda a corte:
    Estavam três e três, e quatro e quatro,
    Bem como a cada qual coubera em sorte.
    Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,
    De força, esforço e de ânimo mais forte
    Outros doze sair, como os Ingleses,
    No campo, contra os onze Portugueses.

    61
    "Mastigam os cavalos, escumando,
    Os áureos freios com feroz semblante;
    Estava o Sol nas armas rutilando
    Como em cristal ou rígido diamante;
    Mas enxerga-se num e noutro bando
    Partido desigual e dissonante
    Dos onze contra os doze: quando a gente
    Começa a alvoroçar-se geralmente.

    62
    "Viram todos o rosto aonde havia
    A causa principal do reboliço:
    Eis entra um cavaleiro, que trazia
    Armas, cavalo, ao bélico serviço.
    Ao Rei e às damas fala, e logo se ia
    Para os onze, que este era o grã Magriço;
    Abraça os companheiros como amigos,
    A quem não falta certo nos perigos.

    63
    "A dama, como ouviu que este era aquele
    Que vinha a defender seu nome e fama,
    Se alegra, e veste ali do animal de Hele,
    Que a gente bruta mais que virtude ama.
    Já dão sinal, e o som da tuba impele
    Os belicosos ânimos, que inflama:
    Picam de esporas, largam rédeas logo,
    Abaixam lanças, fere a terra fogo.

    64
    "Dos cavalos o estrépito parece
    Que faz que o chão debaixo todo treme;
    O coração no peito, que estremece
    De quem os olha, se alvoroça e teme:
    Qual do cavalo voa, que não desce;
    Qual, com o cavalo em terra dando, geme;
    Qual vermelhas as armas faz de brancas;
    Qual com os penachos do elmo açouta as ancas.

    65
    "Algum dali tomou perpétuo sono
    E fez da vida ao fim breve intervalo;
    Correndo algum cavalo vai sem dono
    E noutra parte o dono sem cavalo.
    Cai a soberba Inglesa de seu trono,
    Que dois ou três já fora vão do vale;
    Os que de espada vêm fazer batalha,
    Mais acham já que arnês, escudo e malha.

    66
    "Gastar palavras em contar extremos
    De golpes feros, cruas estocadas,
    É desses gastadores, que sabemos,
    Maus do tempo, com fábulas sonhadas.
    Basta, por fim do caso, que entendemos
    Que com finezas altas e afamadas,
    Com os nossos fica a palma da vitória,
    E as damas vencedoras, e com glória.

    67
    "Recolhe o Duque os doze vencedores
    Nos seus paços, com festas e alegria;
    Cozinheiros ocupa e caçadores
    Das damas a formosa companhia,
    Que querem dar aos seus libertadores
    Banquetes mil cada hora e cada dia,
    Enquanto se detêm em Inglaterra,
    Até tornar à doce e cara terra.

    68
    "Mas dizem que, contudo, o grã Magriço,
    Desejoso de ver as coisas grandes,
    Lá se deixou ficar, onde um serviço
    Notável à condessa fez de Frandes;
    E como quem não era já noviço
    Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,
    Um Francês mata em campo, que o destino
    Lá teve de Torcato e de Corvino.

    69
    "Outro também dos doze em Alemanha
    Se lança, e teve um fero desafio
    Com um Germano enganoso, que com manha
    Não devida o quis pôr no extremo fio."
    Contando assim Veloso, já a companha
    Lhe pede que não f aça tal desvio
    Do caso de Magriço, e vencimento,
    Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.

    70
    Mas, neste passo, assim prontos estando
    Eis o mestre, que olhando os ares anda,
    O apito toca; acordam despertando
    Os marinheiros duma e doutra banda;
    E porque o vento vinha refrescando,
    Os traquetes das gáveas tomar manda:
    "Alerta, disse, estai, que o vento cresce
    Daquela nuvem negra que aparece."

    71
    Não eram os traquetes bem tomados,
    Quando dá a grande e súbita procela:
    "Amaina, disse o mestre a grandes brados,
    Amaina, disse, amaina a grande vela!"
    Não esperam os ventos indinados
    Que amainassem; mas juntos dando nela,
    Em pedaços a fazem, com um ruído
    Que o mundo pareceu ser destruído.

    72
    O céu fere com gritos nisto a gente,
    Com súbito temor e desacordo,
    Que, no romper da vela, a nau pendente
    Toma grã suma d'água pelo bordo:
    "Alija, disse o mestre rijamente,
    Alija tudo ao mar; não falte acordo.
    Vão outros dar à bomba, não cessando;
    A bomba, que nos imos alagando!"

    73
    Correm logo os soldados animosos
    A dar à bomba; e, tanto que chegaram,
    Os balanços que os mares temerosos
    Deram à nau, num bordo os derribaram.
    Três marinheiros, duros e forçosos,
    A menear o leme não bastaram;
    Talhas lhe punham duma e doutra parte,
    Sem aproveitar dos homens força e arte.

    74
    Os ventos eram tais, que não puderam
    Mostrar mais força do ímpeto cruel,
    Se para derribar então vieram
    A fortíssima torre de Babel.
    Nos altíssimos mares, que cresceram,
    A pequena grandura dum batel
    Mostra a possante nau, que move espanto,
    Vendo que se sustém nas ondas tanto.

    75
    A nau grande, em que vai Paulo da Gama,
    Quebrado leva o masto pelo meio.
    Quase toda alagada: a gente chama
    Aquele que a salvar o mundo veio.
    Não menos gritos vãos ao ar derrama
    Toda a nau de Coelho, com receio,
    Conquanto teve o mestre tanto tento,
    Que primeiro amainou, que desse o vento.

    76
    Agora sobre as nuvens os subiam
    As ondas de Netuno furibundo;
    Agora a ver parece que desciam
    As íntimas entranhas do Profundo.
    Noto, Austro, Bóreas, Aquilo queriam
    Arruinar a máquina do mundo:
    A noite negra e feia se alumia
    Com os raios, em que o Pólo todo ardia.

    77
    As Alcióneas aves triste canto
    Junto da costa brava levantaram,
    Lembrando-se do seu passado pranto,
    Que as furiosas águas lhe causaram.
    Os delfins namorados entretanto
    Lá nas covas marítimas entraram,
    Fugindo à tempestade e ventos duros,
    Que nem no fundo os deixa estar segui-os.

    78
    Nunca tão vivos raios fabricou
    Contra a fera soberba dos Gigantes
    O grã ferreiro sórdido, que obrou
    Do enteado as armas radiantes;
    Nem tanto o grã Tonante arremessou
    Relâmpagos ao mundo fulminantes,
    No grã dilúvio, donde sós viveram
    Os dois que em gente as pedras converteram.

    79
    Quantos montes, então, que derribaram
    As ondas que batiam denodadas!
    Quantas árvores velhas arrancaram
    Do vento bravo as fúrias indinadas!
    As forçosas raízes não cuidaram
    Que nunca para o céu fossem viradas,
    Nem as fundas areias que pudessem
    Tanto os mares que em cima as revolvessem.

    80
    Vendo Vasco da Gama que tão perto
    Do fim de seu desejo se perdia;
    Vendo ora o mar até o inferno aberto,
    Ora com nova fúria ao céu subia,
    Confuso de temor, da vida incerto,
    Onde nenhum remédio lhe valia,
    Chama aquele remédio santo é forte,
    Que o impossível pode, desta sorte:

    81
    "Divina Guarda, angélica, celeste,
    Que os céus, o mar e terra senhoreias;
    Tu, que a todo Israel refúgio deste
    Por metade das águas Eritreias;
    Tu, que livraste Paulo e o defendeste
    Das Sirtes arenosas e ondas feias,
    E guardaste com os filhos o segundo
    Povoador do alagado e vácuo mundo;

    82
    "Se tenho novos modos perigosos
    Doutra Cila e Caríbdis já passados,
    Outras Sirtes e baixos arenosos,
    Outros Acroceráunios infamados,
    No fim de tantos casos trabalhosos,
    Por que somos de ti desamparados,
    Se este nosso trabalho não te ofende,
    Mas antes teu serviço só pretende?

    83
    "Ó ditosos aqueles que puderam
    Entre as agudas lanças Africanas
    Morrer, enquanto fortes sostiveram
    A santa Fé nas terras Mauritanas!
    De quem feitos ilustres se souberam,
    De quem ficam memórias soberanas,
    De quem se ganha a vida com perdê-la,
    Doce fazendo a morte as honras dela!"

    84
    Assim dizendo, os ventos que lutavam
    Como touros indómitos bramando,
    Mais e mais a tormenta acrescentavam
    Pela miúda enxárcia assoviando.
    Relâmpados medonhos não cessavam,
    Feros trovões, que vêm representando
    Cair o céu dos eixos sobre a terra,
    Consigo os elementos terem guerra.

    85
    Mas já a amorosa estrela cintilava
    Diante do Sol claro, no Horizonte,
    Mensageira do dia, e visitava
    A terra e o largo mar, com leda fronte.
    A densa que nos céus a governava,
    De quem foge o ensífero Orionte,
    Tanto que o mar e a cara armada vira,
    Tocada junto foi de medo e de ira.

    86
    "Estas obras de Baco são, por certo,
    Disse; mas não será que avante leve
    Tão danada tenção, que descoberto
    Me será sempre o mil a que se atreve."
    Isto dizendo, desce ao mar aberto,
    No caminho gastando espaço breve,
    Enquanto manda as Ninfas amorosas
    Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.

    87
    Grinaldas manda pôr de várias cores
    Sobre cabelo; louros à porfia.
    Quem não dirá que nascem roxas flores
    Sobre ouro natural, que Amor enfia?
    Abrandar determina, por amores,
    Dos ventos a nojosa companhia,
    Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
    Que mais formosas vinham que as estrelas.

    88
    Assim foi; porque, tanto que chegaram
    A vista delas, logo lhe falecem
    As forças com que dantes pelejaram,
    E já como rendidos lhe obedecem.
    Os pés e mãos parece que lhe ataram
    Os cabelos que os raios escurecem.
    A Bóreas, que do peito mais queria,
    Assim disse a belíssima Oritia:

    89
    "Não creias, fero Bóreas, que te creio
    Que me tiveste nunca amor constante,
    Que brandura é de amor mais certo arreio,
    E não convém furor a firme amante.
    Se já não pões a tanta insânia freio,
    Não esperes de mi, daqui em diante,
    Que possa mais amar-te, mas temer-te;
    Que amor contigo em medo se converte."

    90
    Assim mesmo a formosa Galateia
    Dizia ao fero Noto, que bem sabe
    Que dias há que em vê-la se recreia,
    E bem crê que com ele tudo acabe.
    Não sabe o bravo tanto bem se o creia,
    Que o coração no peito lhe não cabe,
    De contente de ver que a dama o manda,
    Pouco cuida que faz, se logo abranda.

    91
    Desta maneira as outras amansavam
    Subitamente os outros amadores;
    E logo à linda Vénus se entregavam,
    Amansadas as iras e os furores.
    Ela lhe prometeu, vendo que amavam,
    Sempiterno favor em seus amores,
    Nas belas mãos tomando-lhe homenagem
    De lhe serem leais esta viagem.

    92
    Já a manhã clara dava nos outeiros
    Por onde o Ganges murmurando soa,
    Quando da celsa gávea os marinheiros
    Enxergaram terra alta pela proa.
    Já fora de tormenta, e dos primeiros
    Mares, o temor vão do peito voa.
    Disse alegre o piloto Melindano:
    "Terra é de Calecu, se não me engano.

    93
    "Esta é por certo a terra que buscais
    Da verdadeira Índia, que aparece;
    E se do mundo mais não desejais,
    Vosso trabalho longo aqui fenece."
    Sofrer aqui não pode o Gama mais,
    De ledo em ver que a terra se conhece:
    Os geolhos no chão, as mãos ao céu,
    A mercê grande a Deus agradeceu.

    94
    As graças a Deus dava, e razão tinha,
    Que não somente a terra lhe mostrava,
    Que com tanto temor buscando vinha,
    Por quem tanto trabalho experimentava;
    Mas via-se livrado tão asinha
    Da morte, que no mar lhe aparelhava
    O vento duro, fervido e medonho,
    Como quem despertou de horrendo sonho.

    95
    Por meio destes hórridos perigos,
    Destes trabalhos graves e temores,
    Alcançam os que são de fama amigos
    As honras imortais e graus maiores:
    Não encostados sempre nos antigos
    Troncos nobres de seus antecessores;
    Não nos leitos dourados, entre os finos
    Animais de Moscóvia zebelinos;

    96
    Não com os manjares novos e esquisitos,
    Não com os passeios moles e ociosos,
    Não com os vários deleites e infinitos,
    Que afeminam os peitos generosos,
    Não com os nunca vencidos apetitos
    Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,
    Que não sofre a nenhum que o passo mude
    Para alguma obra heróica de virtude;

    97
    Mas com buscar com o seu forçoso braço
    As honras, que ele chame próprias suas;
    Vigiando, e vestindo o forjado aço,
    Sofrendo tempestades e ondas cruas;
    Vencendo os torpes frios no regaço
    Do Sul e regiões de abrigo nuas;
    Engolindo o corrupto mantimento,
    Temperado com um árduo sofrimento;

    98
    E com forçar o rosto, que se enfia,
    A parecer seguro, ledo, inteiro,
    Para o pelouro ardente, que assovia
    E leva a perna ou braço ao companheiro.
    Destarte, o peito um calo honroso cria,
    Desprezador das honras e dinheiro,
    Das honras e dinheiro, que a ventura
    Forjou, e não virtude justa e dura.

    99
    Destarte se esclarece o entendimento,
    Que experiências fazem repousado,
    E fica vendo, corno de alto assento,
    O baixo trato humano embaraçado.
    Este, onde tiver força o regimento
    Direito, e não de afeitos ocupado,
    Subirá (como deve) a ilustre mando,
    Contra vontade sua, e não rogando.

    Canto Sétimo

  6. #106
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    octobre 2007
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    1
    Já se viam chegados junto à terra,
    Que desejada já de tantos fora,
    Que entre as correntes Indicas se encerra,
    E o Ganges, que no céu terreno mora.
    Ora, sus, gente forte, que na guerra
    Quereis levar a palma vencedora,
    Já sois chegados, já tendes diante
    A terra de riquezas abundante.

    2
    A vós, ó geração de Luso, digo,
    Que tão pequena parte sois no inundo;
    Não digo ainda no mundo, mas no amigo
    Curral de quem governa o céu rotundo;
    Vós, a quem não somente algum perigo
    Estorva conquistar o povo imundo,
    Mas nem cobiça, ou pouca obediência
    Da Madre, que nos céus está em essência;

    3
    Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
    Que o fraco poder vosso não pesais;
    Vós, que à custa de vossas várias mortes
    A lei da vida eterna dilatais:
    Assim do céu deitadas são as sortes,
    Que vós, por muito poucos que sejais,
    Muito façais na santa Cristandade:
    Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

    4
    Vede-los Alemães, soberbo gado,
    Que por tão largos campos se apascenta,
    Do sucessor de Pedro, rebelado,
    Novo pastor, e nova seita inventa:
    Vede-lo em feias guerras ocupado,
    Que ainda com o cego error se não contenta,
    Não contra o soberbíssimo Otomano,
    Mas por sair do jugo soberano.

    5
    Vede-lo duro Inglês, que se nomeia
    Rei da velha e santíssima cidade,
    Que o torpe Ismaelita senhoreia,
    (Quem viu honra tão longe da verdade?)
    Entre as Boreais neves se recreia,
    Nova maneira faz de Cristandade:
    Para os de Cristo tem a espada nua,
    Não por tomar a terra que era sua.

    6
    Guarda-lhe por entanto um falso Rei
    A cidade Hierosólima terrestre,
    Enquanto ele não guarda a santa lei
    Da cidade Hierosólima celeste.
    Pois de ti, Galo indigno, que direi?
    Que o nome Cristianíssimo quiseste,
    Não para defendê-lo, nem guardá-lo,
    Mas para ser contra ele, e derrubá-lo!

    7
    Achas que tens direito em senhorios
    De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,
    E não contra o Cinífio e Nilo, rios
    Inimigos do antigo nome santo?
    Ali se hão de provar da espada os fios
    Em quem quer reprovar da Igreja o canto.
    De Carlos, de Luís, o nome e a terra
    Herdaste, e as causas não da justa guerra?

    8
    Pois que direi daqueles que em delícias,
    Que o vil ócio no mundo traz consigo,
    Gastam as vidas, logram as divícias,
    Esquecidos de seu valor antigo?
    Nascem da tirania inimicícias,
    Que o povo forte tem de si inimigo:
    Contigo, Itália, falo, já submersa
    Em Vícios mil, e de ti mesma adversa.

    9
    Ó míseros Cristãos, pela ventura,
    Sois os dentes de Cadmo desparzidos,
    Que uns aos outros se dão a morte dura,
    Sendo todos de um ventre produzidos?
    Não vedes a divina sepultura
    Possuída de cães, que sempre unidos
    Vos vêm tomar a vossa antiga terra,
    Fazendo-se famosos pela guerra?

    10
    Vedes que têm por uso e por decreto,
    Do qual são tão inteiros observantes,
    Ajuntarem o exército inquieto
    Contra os povos que são de Cristo amantes;
    Entre vós nunca deixa a fera Aleto
    De semear cizânias repugnantes:
    Olhai se estais seguros de perigos,
    Que eles e vós sois vossos inimigos.

    11
    Se cobiça de grandes senhorios
    Vos faz ir conquistar terras alheias,
    Não vedes que Pactolo e Hermo, rios,
    Ambos volvem auríferas areias?
    Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;
    África esconde em si luzentes veias;
    Mova-vos já sequer riqueza tanta,
    Pois mover-vos não pode a Casa Santa.

    12
    Aquelas invenções feras e novas
    De instrumentos mortais da artilharia,
    Já devem de fazer as duras provas
    Nos muros de Bizâncio e de Turquia.
    Fazei que torne lá às silvestres covas
    Dos Cáspios montes, e da Cítia fria
    A Turca geração, que multiplica
    Na polícia da vossa Europa rica.

    13
    Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,
    Bradando-vos estão que o povo bruto
    Lhe obriga os caros filhos aos profanos
    Preceptos do Alcorão (duro tributo!)
    Em castigar os feitos inumanos
    Vos gloriai de peito forte e astuto,
    E não queirais louvores arrogantes
    De serdes contra os vossos muito possantes.

    14
    Mas entanto que cegos o sedentos
    Andais de vosso sangue, ó gente insana!
    Não faltarão Cristãos atrevimentos
    Nesta pequena casa Lusitana:
    De África tem marítimos assentos,
    É na Ásia mais que todas soberana,
    Na quarta parte nova os campos ara,
    E se mais mundo houvera, lá chegara.

    15
    E vejamos entanto que acontece
    Aqueles tão famosos navegantes,
    Depois que a branda Vénus enfraquece
    O furor vão dos ventos repugnantes:
    Depois que a larga terra lhe aparece,
    Fim de suas porfias tão constantes,
    E dar novo costume e novo Rei.

    16
    Tanto que à nova terra se chegaram,
    Leves embarcações de pescadores
    Acharam, que o caminho lhe mostraram
    De Calecu, onde eram moradores.
    Para lá logo as proas se inclinaram,
    Porque esta era a cidade das melhores
    Do Malabar melhor, onde vivia
    O Rei que a terra toda possuía.

    17
    Além do Indo jaz, e aquém do Gange,
    Um terreno muito grande e assaz famoso,
    Que pela parte Austral o mar abrange,
    E para o Norte o Emódio cavernoso.
    Jugo de Reis diversos o constrange
    A várias leis: alguns o vicioso
    Mahoma, alguns os ídolos adoram,
    Alguns os animais, que entre eles morri.

    18
    Lá bem no grande monte, que cortando
    Tão larga terra, toda Ásia discorre,
    Que nomes tão diversos vai tomando,
    Segundo as regiões por onde corre,
    As fontes saem, donde vêm manando
    Os rios, cuja grã corrente morre
    No mar Índico, e cercam todo o peso
    Do terreno, fazendo-o Quersoneso.

    19
    Entro um e outro rio, em grande espaço,
    Sai da larga terra uma loira ponta
    Quase piramidal, que no regaço
    Do mar com Ceilão ínsula confronta;
    E junto donde nasce o largo braço
    Gangético, o rumor antigo conta
    Que os vizinhos, da terra moradores,
    Do cheiro se mantêm das finas flores.

    20
    Mas agora de nomes e de usança
    Novos e vários são os habitantes:
    Os Delis, os Patanes, que em possança
    De terra e gente, são mais abundantes;
    Decanis, Oriás, que a esperança
    Têm de sua salvação nas ressonantes
    Águas do Gange, e a terra de Bengala
    Fértil de sorte que outra não lhe iguala.

    21
    O Reino de Cambaia belicoso
    (Dizem que foi de Poro, Rei potente)
    O Reino de Narsinga, poderoso
    Mais de ouro e pedras que de forte gente.
    Aqui se enxerga lá do mar undoso
    Um monte alto, que corre longamente,
    Servindo ao Malabar de forte muro,
    Com que do Canará vive seguro.

    22
    Da terra os naturais lhe chamam Gate,
    Do pé do qual pequena quantidade
    Se estende uma fralda estreita, que combate
    Do mar a natural ferocidade.
    Aqui de outras cidades, sem debate,
    Calecu tem a ilustre dignidade
    De cabeça de Império rica e bela:
    Samorim se intitula o senhor dela.

    23
    Chegada a frota ao rico senhorio,
    Um Português mandado logo parte
    A fazer sabedor o Rei gentio
    Da vinda sua a tão remota parte.
    Entrando o mensageiro pelo rio,
    Que ali nas ondas entra, a não vista arte,
    A cor, o gesto estranho, o trajo novo
    Fez concorrer a vê-lo todo o povo.

    24
    Entre a gente que a vê-lo concorria,
    Se chega um Mahometa, que nascido
    Fora na região da Berberia,
    Lá onde fora Anteu obedecido:
    Ou pela vizinhança já teria
    O Reino Lusitano conhecido,
    Ou foi já assinalado de seu ferro:
    Fortuna o trouxe a tão loiro desterro.

    25
    Em vendo o mensageiro, com jocundo
    Rosto, como quem sabe a língua Hispana,
    Lhe disse: "Quem te trouxe a estoutro mundo,
    Tão longe da tua pátria Lusitana?"
    --"Abrindo, lhe responde, o mar profundo,
    Por onde nunca veio gente humana,
    Vimos buscar do Indo a grão corrente,
    Por onde a Lei divina se acrescente."

    26
    Espantado ficou da grã viagem
    O Mouro, que Monçaide se chamava,
    Ouvindo as opressões que na passagem
    Do mar, o Lusitano lhe contava:
    Mas vendo enfim que a f orça da mensagem
    Só para o Rei da terra relevava,
    Lhe diz que estava f ora da cidade,
    Mas de caminho pouca quantidade.

    27
    E que, entanto que a nova lhe chegasse
    De sua estranha vinda, se queria,
    Na sua pobre casa repousasse,
    E do manjar da terra comeria,
    E depois que se um pouco recreasse,
    Com ele para a armada tornaria,
    Que alegria não pode ser tamanha,
    Que achar gente vizinha em terra estranha.

    28
    O Português aceita de vontade
    O que o ledo Monçaide lhe oferece;
    Como se longa fora já a amizade,
    Com ele come, e bebe, e lhe obedece.
    Ambos se tornam logo da cidade
    Para a frota, que o Mouro bem conhece;
    Sobem à capitania; e toda a gente
    Monçaide recebeu benignamente.

    29
    O Capitão o abraça em cabo ledo,
    Ouvindo clara a língua de Castela;
    Junto de si o assenta, e pronto e quedo,
    Pela terra pergunta, e cousas dela.
    Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,
    Só por ouvir o amante da donzela
    Eurídice, tocando a lira de ouro,
    Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.

    30
    Ele começa: "Ó gente, que a natura
    Vizinha fez de meu paterno ninho,
    Que destino tão grande ou que ventura
    Vos trouxe a cometerdes tal caminho?
    Não é sem causa, não, oculta e escura,
    Vir do longínquo Tejo e ignoto Minho,
    Por mares nunca doutro lenho arados,
    A Reinos tão remotos e apartados.

    31
    "Deus por certo vos traz, porque pretende
    Algum serviço seu por vós obrado;
    Por isso só vos guia, e vos defende
    Dos inimigos, do mar, do vento irado.
    Sabei que estais na Índia, onde se estende
    Diverso povo, rico e prosperado
    De ouro luzente e fina pedraria,
    Cheiro suave, ardente especiaria.

    32
    "Esta província, cujo porto agora
    Tomado tendes, Malabar se chama:
    Do culto antigo os ídolos adora,
    Que cá por estas partes se derrama:
    De diversos Reis é, mas dum só
    Noutro tempo, segundo a antiga fama;
    Saramá Perimal foi derradeiro
    Rei, que este Reino teve unido e inteiro.

    33
    "Porém, como a esta terra então viessem
    De lá do seio Arábico outras gentes,
    Que o culto Mahomético trouxessem,
    No qual me instituíram meus parentes,
    Sucedeu que pregando convertessem
    O Perimal: de sábios e eloquentes,
    Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,
    Que pressupôs de nela morrer santo.

    34
    "Naus arma, e nelas mete curioso
    Mercadoria, que ofereça rica,
    Para ir nelas a ser religioso,
    Onde o profeta jaz, que a Lei publica;
    Antes que parta, o Reino poderoso
    Com os seus reparte, porque não lhe fica
    Herdeiro próprio, faz os mais aceitos
    Ricos de pobres, livres de sujeitos.

    35
    "A um Cochim, e a outro Cananor,
    A qual Chalé, a qual a ilha da Pimenta,
    A qual Coulão, a qual dá Cranganor,
    E os mais, a quem o mais serve e contenta,
    Um só moço, a quem tinha muito amor,
    Depois que tudo deu, se lhe apresenta:
    Para este Calecu somente fica,
    Cidade já por trato nobre e rica.

    36
    "Esta lhe dá com o título excelente
    De Imperador, que sobre os outros mande.
    Isto feito, se parte diligente
    Para onde em santa vida acabe, e ande.
    E daqui fica o nome de potente
    Samori, mais que todos digno e grande,
    Ao moço e descendentes; donde vem
    Este, que agora o Império manda e tem.

    37
    "A Lei da gente toda, rica e pobre,
    De fábulas composta se imagina:
    Andam nus, e somente um pano cobre
    As partes, que a cobrir natura ensina.
    Dois modos há de gente, porque a nobre
    Naires chamados são, e a menos digna
    Poleás tem por nome, a quem obriga
    A Lei não misturar a casta antiga.

    38
    "Porque os que usaram sempre um mesmo ofício,
    De outro não podem receber consorte,
    Nem os filhos terão outro exercício,
    Senão o de seus passados, até morte.
    Para os Naires é certo grande vício
    Destes serem tocados; de tal sorte,
    Que quando algum se toca, por ventura,
    Com cerimónias mil se alimpa e apura.

    39
    "Desta sorte o Judaico povo antigo
    Não tocava na gente de Samária.
    Mais estranhezas ainda das que digo
    Nesta terra vereis de usança vária.
    Os Naires sós são dados ao perigo
    Das armas; sós defendem da contrária
    Banda o seu Rei, trazendo sempre usada
    Na esquerda a adarga e na direita a espada.

    40
    "Brâmenes são os seus religiosos,
    Nome antigo e de grande proeminência:
    Observam os preceitos tão famosos
    Dum que primeiro pôs nome à ciência:
    Não matam coisa viva, e, temerosos,
    Das carnes têm grandíssima abstinência;
    Somente no venéreo ajuntamento
    Têm mais licença e menos regimento.

    41
    "Gerais são as mulheres, mas somente
    Para os da geração de seus maridos:
    Ditosa condição, ditosa gente,
    Que não são de ciúmes ofendidos!
    Estes e outros costumes variamente
    São pelos Malabares admitidos.
    A terra é grossa em trato, em tudo aquilo
    Que as ondas podem dar da China ao Nilo."

    42
    Assim contava o Mouro; mas vagando
    Andava a fama já pela cidade
    Da vinda desta gente estranha, quando
    O Rei saber mandava da verdade.
    Já vinham pelas ruas caminhando,
    Rodeados de todo sexo e idade,
    Os principais, que o Rei buscar mandara
    O Capitão da armada, que chegara.

    43
    Mas ele, que do Rei já tem licença
    Para desembarcar, acompanhado
    Dos nobres Portugueses, sem detença
    Parte, de ricos panos adornado.
    Das cores a formosa diferença
    A vista alegra ao povo alvoroçado.
    O remo compassado fere frio
    Agora o mar, depois o fresco rio.

    44
    Na praia um regedor do Reino estava,
    Que na sua língua Catual se chama,
    Rodeado de Naires, que esperava
    Com desusada festa o nobre Gama.
    Já na terra, nos braços o levava,
    E num portátil leito uma rica cama
    Lhe oferece, em que vá, costume usado,
    Que nos ombros dos homens é levado.

    45
    Desta arte o Malabar, destarte o Luso
    Caminham, lá para onde o Rei o espera:
    Os outros Portugueses vão ao uso
    Que infantaria segue, esquadra fera.
    O povo que concorre vai confuso
    De ver a gente estranha, e bem quisera
    Perguntar: mas no tempo já passado
    Na torre de Babel lhe foi vedado.

    46
    O Gama e o Catual iam falando
    Nas coisas, que lhe o tempo oferecia;
    Monçaide entre eles vai interpretando
    As palavras que de ambos entendia.
    Assim pela cidade caminhando,
    Onde uma rica fábrica se erguia
    De um sumptuoso templo, já chegavam,
    Pelas portas do qual juntos entravam.

    47
    Ali estão das deidades as figuras
    Esculpidas em pau e em pedra fria;
    Vários de gestos, vários de pinturas,
    A segundo o Demónio lhe fingia:
    Vêem-se as abomináveis esculturas,
    Qual a Quimera em membros se varia:
    Os Cristãos olhos, a ver Deus usados
    Em forma humana, estão maravilhados.

    48
    Um na cabeça cornos esculpidos,
    Qual Júpiter Amon em Líbia estava;
    Outro num corpo rostos tinha unidos,
    Bem como o antigo Jano se pintava;
    Outro com muitos braços divididos
    A Briareu parece que imitava;
    Outro fronte canina tem de fora,
    Qual Anúbis Menfítico se adora.

    49
    Aqui feita do bárbaro gentio
    A supersticiosa adoração,
    Direitos vão, sem outro algum desvio,
    Para onde estava o Rei do povo vão.
    Engrossando-se vai da gente o fio,
    Com os que vêm ver o estranho Capitão;
    Estão pelos telhados e janelas
    Velhos e moços, donas e donzelas.

    50
    Já chegam perto, e não com passos lentos,
    Dos jardins odoríferos formosos,
    Que em si escondem os régios aposentos,
    Altos de torres não, mas sumptuosos.
    Edificam-se os nobres seus assentos
    Por entre os arvoredos deleitosos:
    Assim vivem os Reis daquela gente,
    No campo e na cidade juntamente.

    51
    Pelos portais da cerca a sutileza
    Se enxerga da Dedálea facultade,
    Em figuras mostrando, por nobreza,
    Da Índia a mais remota antiguidade.
    Afiguradas vão com tal viveza
    As histórias daquela antiga idade,
    Que quem delas tiver notícia inteira,
    Pela sombra conhece a verdadeira.

    52
    Estava um grande exército que pisa
    A terra Oriental, que o Idaspe lava;
    Rege-o um capitão de fronte lisa,
    Que com frondentes tirsos pelejava;
    Por ele edificada estiva Nisa
    Nas ribeiras do rio, que manava,
    Tão próprio, que se ali estiver Semele,
    Dirá, por certo, que é seu filho aquele.

    53
    Mais avante bebendo seca o rio
    Mui grande multidão da Assíria gente,
    Sujeita a feminino senhorio
    De uma tão bela como incontinente.
    Ali tem junto ao lado nunca frio,
    Esculpido o feroz ginete ardente,
    Com quem teria o filho competência:
    Amor nefando, bruta incontinência!

    54
    Daqui mais apartadas tremulavam
    As bandeiras de Grécia gloriosas,
    Terceira Monarquia, e sojugavam
    Até as águas Gangéticas undosas.
    Dum capitão mancebo se guiavam,
    De palmas rodeado valerosas,
    Que já, não de Filipo, mas sem falta
    De progénie de Júpiter se exalta.

    55
    Os Portugueses vendo estas memórias,
    Dizia o Catual ao Capitão:
    "Tempo cedo virá que outras vitórias
    Estas, que agora olhais, abaterão;
    Aqui se escreverão novas histórias
    Por gentes estrangeiras que virão;
    Que os nossos sábios magos o alcançaram
    Quando o tempo futuro especularam.

    56
    "E diz-lhe mais a mágica ciência
    Que, para se evitar força tamanha,
    Não valerá dos homens resistência,
    Que contra o Céu não val da gente manha;
    Mas também diz que a bélica excelência,
    Nas armas e na paz, da gente estranha
    Será tal, que será no mundo ouvido
    O vencedor, por glória do vencido,"

    57
    Assim falando entravam já na sala,
    Onde aquele potente Imperador
    Numa camilha jaz, que não se iguala
    De outra alguma no preço e no lavor.
    No recostado gesto se assinala
    Um venerando e próspero senhor;
    Um pano de ouro cinge, e na cabeça
    De preciosas gemas se adereça.

    58
    Bem junto dele um velho reverente,
    Com os giolhos no chão, de quando em quando
    Lhe dava a verde folha da erva ardente,
    Que a seu costume estava ruminando.
    Um Brâmene, pessoa proeminente,
    Para o Gama vem com passo brando,
    Para que ao grande Príncipe o apresente,
    Que diante lhe acena que se assente.

    59
    Sentado o Gama junto ao rico leito,
    Os seus mais afastados, pronto em vista
    Estava o Samori no trajo e jeito
    Da gente, nunca de antes dele vista.
    Lançando a grave voz do sábio peito,
    Que grande autoridade logo aquista
    Na opinião do Rei e do povo todo,
    O Capitão lhe fala deste modo:

    60
    "Um grande Rei, de lá das partes Onde
    O céu volúvel, com perpétua roda,
    Da terra a luz solar com a terra esconde,
    Tingindo a que deixou de escura noda,
    Ouvindo do rumor que lá responde
    O eco, como em ti da Índia toda
    O principado está, e a majestade,
    Vínculo quer contigo de amizade.

    61
    "E por longos rodeios a ti manda,
    Por te fazer saber que tudo aquilo
    Que sobre o mar, que sobre as terras anda
    De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,
    E desde a fria plaga de Gelanda
    Até bem donde o Sol não muda o estilo
    Nos dias, sobre a gente de Etiópia,
    Tudo tem no seu Reino em grande cópia.

    62
    "E se queres com pactos e alianças
    De paz e de amizade sacra e nua
    Comércio consentir das abastanças
    Das fazendas da terra sua e tua,
    Por que cresçam as rendas e abastanças,
    Por quem a gente mais trabalha e sua,
    De vossos Reinos, será certamente
    De ti proveito, o dele glória ingente.

    63
    "E sendo assim, que o nó desta amizade
    Entre vós firmemente permaneça,
    Estará pronto a toda adversidade,
    Que por guerra a teu Reino se ofereça,
    Com gente, armas e naus, de qualidade
    Que por irmão te tenha e te conheça;
    E da vontade em ti sobre isto posta
    Me dês a mim certíssima resposta."

    64
    Tal embaixada dava o Capitão,
    A quem o Rei gentio respondia
    Que, em ver embaixadores de nação
    Tão remota, grã glória recebia;
    Mas neste caso a última tenção
    Com os de seu conselho tomaria,
    Informando-se certo de quem era
    O Rei, e a gente, e terra que dissera..

    65
    E que entanto podia do trabalho
    Passado ir repousar, e em tempo breve
    Daria a seu despacho um justo talho,
    Com que a seu Rei resposta alegre leve.
    Já nisto punha a noite o usado atalho
    As humanas canseiras, por que ceve
    De doce sono os membros trabalhados,
    Os olhos ocupando ao ócio dados.

    66
    Agasalhados foram juntamente
    O Gama e Portugueses no aposento
    Do nobre Regedor da Índica gente,
    Com festas e geral contentamento.
    O Catual, no cargo diligente
    De seu Rei, tinha já por regimento
    Saber da gente estranha donde vinha,
    Que costumes, que lei, que terra tinha.

    67
    Tanto que os ígneos carros do formoso
    Mancebo Délio viu, que a luz renova,
    Manda chamar Monçaide, desejoso
    De poder-se informar da gente nova.
    Já lhe pergunta pronto e curioso,
    Se tem notícia inteira e certa prova
    Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha
    Que é gente de sua pátria muito vizinha;

    68
    Que particularmente ali lhe desse
    Informação mui larga, pois faria
    Nisso serviço ao Rei, por que soubesse
    O que neste negócio se faria.
    Monçaide torna:--"Posto que eu quisesse
    Dizer-te disto mais, não saberia;
    Somente sei que é gente lá de Espanha,
    Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.

    69
    "Têm a lei dum Profeta, que gerado
    Foi sem fazer na carne detrimento
    Da mãe, tal que por bafo está aprovado
    Do Deus, que tem do mundo o regimento,
    O que entre meus antigos é vulgado
    Deles, é que o valor sanguinolento
    Das armas no seu braço resplandece,
    O que em nossos passados se parece.

    70
    "Porque eles, com virtude sobre-humana,
    Os deitaram dos campos abundosos
    Do rico Tejo e fresco Goadiana,
    Com feitos memoráveis e famosos:
    E não contentes ainda, e na Africana
    Parte, cortando os mares procelosos,
    Nos não querem deixar viver seguros,
    Tomando-nos cidades e altos muros.

    71
    "Não menos têm mostrado esforço e manha
    Em quaisquer outras guerras que aconteças,
    Ou das gentes belígeras de Espanha,
    Ou lá dalguns que do Pírene desçam.
    Assim que nunca enfim com lança estranha
    Se tem, que por vencidos se conheçam,
    Nem se sabe ainda, não, te afirmo e asselo,
    Para estes Anibais nenhum Marcelo.

    72
    "E se esta informação não for inteira
    Tanto quanto convém, deles pretende
    Informar-te, que é gente verdadeira,
    A quem mais falsidade enoja e ofende:
    Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira
    Do fundido metal, que tudo rende,
    E folgarás de veres a polícia
    Portuguesa na paz e na milícia."

    73
    Já com desejos o Idolatra ardia
    De ver isto, que o Mouro lhe contava.
    Manda esquipar batéis que ir ver queria
    Os lenhos em que o Gama navegava.
    Ambos partem da praia, a quem seguia
    A Naira geração, que o mar coalhava.
    A capitania sobem forte e bela,
    Onde Paulo os recebe a bordo dela.

    74
    Purpúreos são os toldos, e as bandeiras
    Do rico fio são que o bicho gera;
    Nelas estão pintadas as guerreiras
    Obras, que o forte braço já fizera:
    Batalhas tem campais, aventureiras,
    Desafios cruéis, pintura fera,
    Que, tanto que ao Gentio se apresenta,
    A tento nela os olhos apascenta.

    75
    Pelo que vê pergunta; mas o Gama
    Lhe pedia primeiro que se assente,
    E que aquele deleite, que tanto ama
    A seita Epicureia, experimente.
    Dos espumantes vasos se derrama
    O licor que Noé mostrara à gente:
    Mas comer o Gentio não pretende,
    Que a seita que seguia lho defende.

    76
    A trombeta que, em paz, no pensamento
    Imagem faz de guerra, rompe os ares;
    Com o fogo o diabólico instrumento
    Se faz ouvir no fundo lá dos mares.
    Tudo o Gentio nota; mas o intento
    Mostrava sempre ter nos singulares
    Feitos dos homens, que em retrato breve
    A muda poesia ali descreve

    77
    Alça-se em pé, com ele o Gama junto,
    Coelho de outra parti, e o Mauritano;
    Os olhos põe no bélico transunto
    De um velho branco, aspecto venerando
    Cujo nome não pode ser defunto
    Enquanto houver no mundo trato humano:
    No trajo a Grega usança está perfeita,
    Um ramo por insígnia na direita.

    78
    Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!
    Eu, que cometo insano e temerário,
    Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
    Por caminho tão árduo, longo e vário!
    Vosso favor invoco, que navego
    Por alto mar, com vento tão contrário,
    Que, se não me ajudais, hei grande medo
    Que o meu fraco batel se alague cedo.

    79
    Olhai que há tanto tempo que, cantando
    O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
    A fortuna mo traz peregrinando,
    Novos trabalhos vendo, e novos danos:
    Agora o mar, agora experimentando
    Os perigos Mavórcios inumanos,
    Qual Canace, que à morte se condena,
    Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.

    80
    Agora, com pobreza avorrecida,
    Por hospícios alheios degradado;
    Agora, da esperança já adquirida,
    De novo, mais que nunca, derribado;
    Agora às costas escapando a vida,
    Que dum fio pendia tão delgado
    Que não menos milagre foi salvar-se
    Que para o Rei Judaico acrescentar-se.

    81
    E ainda, Ninfas minhas, não bastava
    Que tamanhas misérias me cercassem,
    Senão que aqueles, que eu cantando andava
    Tal prémio de meus versos me tornassem:
    A troco dos descansos que esperava,
    Das capelas de louro que me honrassem,
    Trabalhos nunca usados me inventaram,
    Com que em tão duro estado me deitaram.

    82
    Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
    O vosso Tejo cria valorosos,
    Que assim sabem prezar com tais favores
    A quem os faz, cantando, gloriosos!
    Que exemplos a futuros escritores,
    Para espertar engenhos curiosos,
    Para porem as coisas em memória,
    Que merecerem ter eterna glória!

    83
    Pois logo em tantos males é forçado,
    Que só vosso favor me não faleça,
    Principalmente aqui, que sou chegado
    Onde feitos diversos engrandeça:
    Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado
    Que não o empregue em quem o não mereça,
    Nem por lisonja louve algum subido,
    Sob pena de não ser agradecido.

    84
    Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse
    A quem ao bem comum e do seu Rei
    Antepuser seu próprio interesse,
    Inimigo da divina e humana Lei.
    Nenhum ambicioso, que quisesse
    Subir a grandes cargos, cantarei,
    Só por poder com torpes exercícios
    Usar mais largamente de seus vícios;

    85
    Nenhum que use de seu poder bastante,
    Para servir a seu desejo feio,
    E que, por comprazer ao vulgo errante,
    Se muda em mais figuras que Proteio.
    Nem, Camenas, também cuideis que canto
    Quem, com hábito honesto e grave, veio,
    Por contentar ao Rei no ofício novo,
    A despir e roubar o pobre povo.

    86
    Nem quem acha que é justo e que é direito
    Guardar-se a lei do Rei severamente,
    E não acha que é justo e bom respeito,
    Que se pague o suor da servil gente;
    Nem quem sempre, com pouco experto peito,
    Razões aprende, e cuida que é prudente,
    Para taxar, com mão rapace e escassa,
    Os trabalhos alheios, que não passa.

    87
    Aqueles sós direi, que aventuraram
    Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
    Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,
    Tão bem de suas obras merecida.
    Apolo, e as Musas que me acompanharam,
    Me dobrarão a fúria concedida,
    Enquanto eu tomo alento descansado,
    Por tornar ao trabalho, mais folgado.

    Canto Oitavo

    1

  7. #107
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    octobre 2007
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    Canto Oitavo

    1
    Na primeira figura se detinha
    O Catual que vira estar pintada,
    Que por divisa um ramo na mão tinha,
    A barba branca, longa e penteada:
    "Quem era, e por que causa lhe convinha
    A divisa, que tem na mão tomada?"
    Paulo responde, cuja voz discreta
    O Mauritano sábio lhe interpreta.

    2
    "Estas figuras todas que aparecem,
    Bravos em vista e feros nos aspectos,
    Mais bravos e mais feros se conhecem,
    Pela fama, nas obras e nos feitos:
    Antigos são, mas ainda resplandecem
    Colo nome, entre os engenhos mais perfeito
    Este que vês é Luso, donde a fama
    O nosso Reino Lusitânia chama.

    3
    "Foi filho e companheiro do Tebano,
    Que tão diversas partes conquistou;
    Parece vindo ter ao ninho Hispano
    Seguindo as armas, que contino usou;
    Do Douro o Guadiana o campo ufano,
    Já dito Elísio, tanto o contentou,
    Que ali quis dar aos já cansados ossos
    Eterna sepultura, e nome aos nossos.

    4
    "O ramo que lhe vês para divisa,
    O verde tirso foi de Baco usado;
    O qual à nossa idade amostra e avisa
    Que foi seu companheiro e filho amido.
    Vês outro, que do Tejo a terra pisa,
    Depois de ter tão longo mar arado,
    Onde muros perpétuos edifica,
    E templo a Palas, que em memória fica?

    5
    "Ulisses é o que faz a santa casa
    A Deusa, que lhe dá língua facunda;
    Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,
    Cá na Europa Lisboa ingente funda."
    --"Quem será estoutro cá, que o campo arrasa
    De mortos, com presença furibunda?
    Grandes batalhas tem desbaratadas,
    Que as águias nas bandeiras tem pintadas."

    6
    Assim o Gentio diz. Responde o Gama:
    --"Este que vês, pastor já foi de gado;
    Viriato sabemos que se chama,
    Destro na lança mais que no cajado;
    Injuriada tem de Roma a f ama,
    Vencedor invencível afamado;
    Não tem com ele, não, nem ter puderam
    O primor que com Pirro já tiveram.

    7
    "Com força, não; com manha vergonhosa,
    A vida lhe tiraram que os espanta:
    Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,
    As vezes leis magnânimas quebranta.
    Outro está aqui que, contra a pátria irosa,
    Degradado, conosco se alevanta:
    Escolheu bem com quem se alevantasse,
    Para que eternamente se ilustrasse.

    8
    "Vês? conosco também vence as bandeiras
    Dessas aves de Júpiter validas;
    Que já naquele tempo as mais Guerreiras
    Gentes de nós souberam ser vencidas.
    Olha tão subtis artes e maneiras,
    Para adquirir os povos, tão fingidas,
    A fatídica Cerva que o avisa:
    Ele é Sertório, e ela a sua divisa.

    9
    "Olha estoutra bandeira, e vê pintado
    O grã progenitor dos Reis primeiros.
    Nós Úngaro o fazemos, porém nado
    Crêem ser em Lotaríngia os estrangeiros.
    Depois de ter com os Mouros superado,
    Galegos e Leoneses cavaleiros,
    A casa Santa passa o santo Henrique,
    Por que o tronco dos Reis se santifique."

    10
    "Quem é, me diz, este outro que me espanta,
    (Pergunta o Malabar maravilhado)
    Que tantos esquadrões, que gente tanta,
    Com tão pouca, tem roto e destroçado?
    Tantos muros aspérrimos quebranta,
    Tantas batalhas dá, nunca cansado,
    Tantas coroas tem por tantas partes
    A seus pés derribadas, e estandartes!"

    11
    --"Este é o primeiro Afonso, disse o Gama,
    Que todo Portugal aos Mouros toma;
    Por quem, no Estígio lago, jura a Fama
    De mais não celebrar nenhum de Roma.
    Este é aquele zeloso a quem Deus ama,
    Com cujo braço o Mouro inimigo doma,
    Para quem de seu Reino abaixa os muros,
    Nada deixando já para os futuros,

    12
    "Se César, se Alexandre Rei, tiveram
    Tão pequeno poder, tão pouca gente,
    Contra tantos inimigos quantos eram
    Os que desbaratava este excelente,
    Não creias que seus nomes se estendera
    Com glórias imortais tão largamente;
    Mas deixa os feitos seus inexplicáveis,
    Vê que os de seus vassalos são notáveis.

    13
    "Este que vês olhar com gesto irado
    Para o rompido aluno mal sofrido,
    Dizendo-lhe que o exército espalhado
    Recolha, e torne ao campo defendido;
    Torna o moço do velho acompanhado,
    Que vencedor o torna de vencido:
    Egas Moniz se chama o forte velho,
    Para leais vassalos claro espelho.

    14
    "Vê-lo cá vai com os filhos a entregar-se,
    A corda ao colo, nu de seda e pano,
    Porque não quis o moço sujeitar-se,
    Como ele prometera, ao Castelhano.
    Fez com siso e promessas levantar-se
    O cerco, que já estava soberano;
    Os filhos e mulher obriga à pena:
    Para que o senhor salve, a si condena.

    15
    "Não fez o Cônsul tanto, que cercado
    Foi nas forças Caudinas, de ignorante,
    Quando a passar por baixo foi forçado
    Do Samnítico jugo triunfante.
    Este, pelo seu povo injuriado,
    A si se entrega só, firme e constante;
    Estoutro a si, e os filhos naturais,
    E a consorte sem culpa, que dói mais.

    16
    "Vês este que, saindo da cilada,
    Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?
    Já o Rei tem preso e a vila descercada:
    Ilustre feito, digno de Mavorte!
    Vê-lo cá vai pintado nesta armada,
    No mar também aos Mouros dando a morto,
    Tomando-lhe as galés, levando a glória
    Da primeira marítima vitória.

    17
    "É, Dom Fuas Roupinho, que na terra
    E no mar resplandece juntamente,
    Com o fogo que acendeu junto da serra
    De Abila, nas galés da Maura gente.
    Olha como, em tão justa e santa guerra,
    De acabar pelejando está contente:
    Das mãos dos Mouros entra a feliz alma,
    Triunfando, nos céus, com justa palma.

    18
    "Não vês um ajuntamento, de estrangeiro
    Trajo, sair da grande armada nova,
    Que ajuda a combater o Rei primeiro
    Lisboa, de si dando santa prova?
    Olha Henrique, famoso cavaleiro,
    A palma que lhe nasce junto à cova.
    Por eles mostra Deus milagre visto:
    Germanos são os mártires de Cristo.

    19
    "Um Sacerdote vê brandindo a espada
    Contra Arronches, que toma, por vingança
    De Leiria, que de antes foi tomada
    Por quem por Mafamede enresta a lança:
    É Teotónio, Prior. Mas vê cercada
    Santarém, e verás a segurança
    Da figura nos muros, que primeira
    Subindo, ergueu das Quinis a bandeira.

    20
    "Vê-lo cá, donde Sancho desbarata
    Os Mouros de Vandália em fera guerra;
    Os inimigos rompendo, o alferes mata
    E o Hispálico pendão derriba em terra:
    Mem Moniz é, que em si o valor retrata,
    Que o sepulcro do pai com os ossos cerra,
    Digno destas bandeiras, pois sem falta
    A contrária derriba e a sua exalta.

    21
    "Olha aquele que desce pela lança?
    Com as duas cabeças dos vigias,
    Onde a cilada esconde, com que alcança
    A cidade por manhas e ousadias.
    Ela por armas toma a semelhança
    Do cavaleiro, que as cabeças frias
    Na mão levava (feito nunca feito!)
    Giraldo Sem-pavor é o forte peito.

    22
    "Não vês um Castelhano, que agravado
    De Afonso nono rei, pelo ódio antigo
    Dos de Lara, com os Mouros é deitado,
    De Portugal fazendo-se inimigo?
    Abrantes vila toma, acompanhado
    Dos duros infiéis que traz consigo.
    Mas vê que um Português com pouca gente
    O desbarata e o prende ousadamente.

    23
    "Martim Lopes se chama o cavaleiro,
    Que destes levar pode a palma e o louro.
    Mas olha um Eclesiástico guerreiro,
    Que em lança de aço torna o Bago de ouro.
    Vê-lo entre os duvidosos tão inteiro
    Em não negar batalha ao bravo Mouro;
    Olha o sinal no céu que lhe aparece,
    Com que nos poucos seus o esforço cresce.

    24
    "Vós? vão os Reis de Córdova e Sevilha
    Rotos, com os outros dois, e não de espaço.
    Rotos? mas antes mortos, maravilha
    Feita de Deus, que não de humano braço.
    Vês? já a vila de Alcáçare se humilha,
    Sem lhe valer defesa, ou muro de aço,
    A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,
    Que a coroa da palma ali coroa.

    25
    "Olha um Mestre que desce de Castela,
    Português de nação, como conquista
    A terra dos Algarves, e já nela
    Não acha quem por armas lhe resista;
    Com manha, esforço, e com benigna estrela,
    Vilas, castelos toma à escala vista.
    Vês Tavila tomada aos moradores,
    Em vingança dos sete caçadores!

    26
    "Vês? com bélica astúcia ao Mouro ganha
    Silves, que ele ganhou com força ingente:
    É Dom Paio Correia, cuja manha
    E grande esforço faz inveja à gente.
    Mas não passes os três que em França e Espanha
    Se fazem conhecer perpetuamente
    Em desafios, justas e torneios,
    Nelas deixando públicos troféus.

    27
    "Vê-los, com o nome vêm de aventureiros
    A Castela, onde o preço sós levaram
    Dos jogos de Belona verdadeiros,
    Que com dano de alguns se exercitaram.
    Vê mortos os soberbos cavaleiros,
    Que o principal dos três desafiaram,
    Que Gonçalo Ribeiro se nomeia,
    Que pode não temer a lei Leteia.

    28
    "Atenta num, que a fama tanto estende,
    Que de nenhum passado se contenta;
    Que a pátria, que de um fraco fio pende,
    Sobre seus duros ombros a sustenta.
    Não no vês tinto de ira, que reprende
    A vil desconfiança inerte e lenta
    Do povo, e faz que tome o doce freio
    De Rei seu natural, e não de alheio?

    29
    "Olha: por seu conselho e ousadia
    De Deus guiada só, e de santa estrela,
    Só pode o que impossível parecia:
    Vencer o povo ingente de Castela.
    Vês, por indústria, esforço e valentia,
    Outro estrago e vitória clara e bela,
    Na gente, assim feroz como infinita,
    Que entre o Tarteso e Goadiana habita?

    30
    "Mas não vês quase já desbaratado
    O poder Lusitano, pela ausência
    Do Capitão devoto, que, apartado
    Orando invoca a suma e trina Essência?
    Vê-lo com pressa já dos seus achado,
    Que lhe dizem que falta resistência
    Contra poder tamanho, e que viesse,
    Por que consigo esforço aos fracos desse?

    31
    "Mas olha com que santa confiança,
    --Que inda não era tempo,--respondia,
    Como quem tinha em Deus a seguraria
    Da vitória que logo lhe daria.
    Assim Pompílio, ouvindo que a possança
    Dos inimigos a terra lhe corria,
    A quem lhe a dura nova estava dando,
    -"Pois eu, responde, estou sacrificando."--

    32
    "Se quem com tanto esforço em Deus se atreve,
    Ouvir quiseres como se nomeia,
    Português Cipião chamar-se deve;
    Mas mais de Dom Nuno Alvares se arreia:
    Ditosa pátria que tal filho teve!
    Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia
    Este globo de Ceres e Netuno,
    Sempre suspirará por tal aluno.

    33
    "Na mesma guerra vê que presas ganha
    Estoutro Capitão de pouca gente;
    Comendadores vence e o gado apanha,
    Que levavam roubado ousadamente.
    Outra vez vê que a lança em sangue banha
    Destes, só por livrar com o amor ardente
    O preso amigo, preso por leal:
    Pêro Rodrigues é do Landroal.

    34
    "Olha este desleal o como paga
    O perjúrio que fez e vil engano:
    Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga,
    E faz vir a passar o último dano:
    De Xerez rouba o campo, e quase alaga
    Com o sangue de seus donos Castelhano.
    Mas olha Rui Pereira, que com o rosto
    Faz escudo às galés, diante posto.

    35
    "Olha que dezessete Lusitanos,
    Neste outeiro subidos se defendem,
    Fortes, de quatrocentos Castelhanos,
    Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
    Porém logo sentiram, com seus danos,
    Que não só se defendem, mas ofendem:
    Digno feito de ser no mundo eterno,
    Grande no tempo antigo e no moderno.

    36
    "Sabe-se antigamente que trezentos
    Já contra mil Romanos pelejaram,
    No tempo que os viris atrevimentos
    De Viriato tanto se ilustraram,
    E deles alcançando vencimentos
    Memoráveis, de herança nos deixaram
    Que os muitos, por ser poucos, não temamos:
    O que depois mil vezes amestramos.

    37
    "Olha cá dois infantes, Pedro e Henrique,
    Progénie generosa de Joane:
    Aquele faz que fama ilustre fique
    Dele em Germânia, com que a morte engane;
    Este, que ela nos mares o publique
    Por seu descobridor, e desengane
    De Ceita a Maura túmida vaidade,
    Primeiro entrando as portas da cidade.

    38
    "Vês o conde Dom Pedro, que sustenta
    Dois cercos contra toda a Barbaria?
    Vês, outro Conde está, que representa
    Em terra Marte, em forças e ousadia;
    De poder defender se não contenta
    Alcácere da ingente companhia;
    Mas do seu Rei defende a cara vida,
    Pondo por muro a sua, ali perdida.

    39
    "Outros muitos verias, que os pintores
    Aqui também por certo pintariam;
    Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores,
    Honra, prémio, favor, que as artes criam:
    Culpa dos viciosos sucessores,
    Que degeneram, certo, e se desviam
    Do lustre e do valor dos seus passados,
    Em gostos e vaidades atolados.

    40
    "Aqueles pais ilustres que já deram
    Princípio à geração que deles pende,
    Pela virtude muito então fizeram,
    E por deixar a casa, que descende.
    Cegos, que dos trabalhos que tiveram,
    Se alta fama e rumor deles se estende,
    Escuros deixam sempre seus menores,
    Com lhe deixar descansos corruptores.

    41
    "Outros também há grandes e abastados,
    Sem nenhum tronco ilustre donde venham;
    Culpa de Reis, que às vezes a privados
    Dão mais que a mil, que esforço e saber tenham.
    Estes os seus não querem ver pintados,
    Crendo que cores vãs lhe não convenham,
    E, como a seu contrairo natural,
    A pintura, que fala, querem mal.

    42
    "Não nego que há contudo descendentes
    Do generoso tronco, e casa rica,
    Que com costumes altos e excelentes,
    Sustentam a nobreza que lhe fica;
    E se a luz dos antigos seus parentes
    Neles mais o valor não clarifica,
    Não falta ao menos, nem se faz escura.
    Mas destes acha poucos a pintura."

    43
    Assim está declarando os grandes feitos
    O Gama, que ali mostra a vária tinta,
    Que a douta mão tão claros, tão perfeitos,
    Do singular artífice ali pinta.
    Os olhos tinha prontos e direitos
    O Catual na história bem distinta;
    Mil vezes perguntava e mil ouvia
    As gostosas batalhas que ali via.

    44
    Mas já a luz se mostrava duvidosa,
    Porque a a lâmpada grande se escondia
    Debaixo do Horizonte e luminosa
    Levava aos Antípodas o dia,
    Quando o Gentio e a gente generosa
    Dos Naires da nau forte se partia
    A buscar o repouso que descansa
    Os lassos animais, na noite mansa.

    45
    Entretanto os Arúspices famosos
    Na falsa opinião, que em sacrifícios
    Antevêem sempre os casos duvidosos,
    Por sinais diabólicos e indícios,
    Mandados do Rei próprio, estudiosos
    Exercitavam a arte e seus ofícios
    Sobre esta vinda desta gente estranha,
    Que às suas terras vem da ignota Espanha.

    46
    Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,
    De como a nova gente lhe seria
    Jugo perpétuo, eterno cativeiro,
    Destruição de gente, e de valia.
    Vai-se espantado o atónito agoureiro
    Dizer ao Rei (segundo o que entendia)
    Os sinais temerosos que alcançara
    Nas entranhas das vítimas que olhara.

    47
    A isto mais se ajunta que um devoto
    Sacerdote da lei de Mafamede,
    Dos ódios concebidos não remoto
    Contra a divina Fé, que tudo excede,
    Em forma do Profeta falso e noto,
    Que do filho da escrava Agar procede,
    Baco odioso em sonhos lhe aparece,
    Que de seus ódios ainda se não desse.

    48
    E diz-lhe assim: "Guardai-vos, gente minha,
    Do mal que se aparelha pelo inimigo
    Que pelas águas úmidas caminha,
    Antes que esteis mais perto do perigo."
    Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,
    Espantado do sonho; mas consigo
    Cuida que não é mais que sonho usado:
    Torna a dormir quieto e sossegado.

    49
    Torna Baco, dizendo: "Não conheces
    O grã legislador que a teus passados
    Tem mostrado o preceito a que obedeces,
    Sem o qual fôreis muitos batizados?
    Eu por ti, rudo, velo; e tu adormeces!
    Pois saberás que aqueles, que chegados
    De novo são, serão muito grande dano
    Da lei que eu dei ao néscio povo humano.

    50
    "Enquanto é fraca a força desta gente,
    Ordena como em tudo se resista,
    Porque, quando o Sol sai, facilmente
    Se pode nele pôr a aguda vista;
    Porém, depois que sobe claro e ardente,
    Se agudeza dos olhos o conquista,
    Tão cega fica, quanto ficareis,
    Se raízes criar lhe não tolheis."

    51
    Isto dito, ele e o sono se despede.
    Tremendo fica o atónito Agareno:
    Salta da cama, lume ao servos pede,
    Lavrando nele o fervido veneno.
    Tanto que a nova luz que ao Sol precede
    Mostrara rosto angélico e sereno,
    Convoca os principais da torpe seita,
    Aos quais do que sonhou dá conta estreita.

    52
    Diversos pareceres e contrários
    Ali se dão, segundo o que entendiam;
    Astutas traições, enganos vários,
    Perfídias inventavam e teciam.
    Mas, deixando conselhos temerários,
    Destruição da gente pretendiam,
    Por manhas mais subtis e ardis melhores,
    Com peitas adquirindo os regedores;

    53
    Com peitas, ouro, e dádivas secretas
    Conciliam da terra os principais,
    E com razões notáveis e discretas
    Mostram ser perdição dos naturais,
    Dizendo que são gentes inquietas,
    Que, os mares discorrendo ocidentais,
    Vivem só de piráticas rapinas,
    Sem Rei, sem leis humanas ou divinas

    54
    Ó quanto deve o Rei que bem governa,
    De olhar que os conselheiros, ou privados,
    De consciência e de virtude interna
    E de sincero amor sejam dotados!
    Porque, como este posto na suprema
    Cadeira, pode mal dos apartados
    Negócios ter notícia mais inteira,
    Do que lhe der a língua conselheira.

    55
    Nem tão pouco direi que tome tanto
    Em grosso a consciência limpa e certa,
    Que se enleve num pobre e humilde manto,
    Onde ambição acaso ande encoberta.
    E quando um bom em tudo é justo e santo,
    Em negócios do mundo pouco acerta,
    Que mal com eles poderá ter conta
    A quieta inocência, em só Deus pronta.

    56
    Mas aqueles avaros Catuais,
    Que o Gentílico povo governavam,
    Induzidos das gentes infernais,
    O Português despacho dilatavam.
    Mas o Gama, que não pretende mais,
    De tudo quanto os Mouros ordenavam,
    Que levar a seu Rei um sinal certo
    Do mundo, que deixava descoberto.

    57
    Nisto trabalha só; que bem sabia
    Que depois que levasse esta certeza,
    Armas, o naus, e gente mandaria
    Manuel, que exercita a suma alteza,
    Com que a seu jugo e lei someteria
    Das terras e do mar a redondeza;
    Que ele não era mais que um diligente
    Descobridor das terras do Oriente.

    58
    Falar ao Rei gentio determina,
    Por que com seu despacho se tornasse,
    Que já sentia em tudo da malina
    Gente impedir-se quanto desejasse.
    O Rei, que da notícia falsa e indina
    Não era de espantar se se espantasse,
    Que tão crédulo era em seus agouros,
    E mais sendo afirmados pelos Mouros,

    59
    Este temor lhe esfria o baixo peito.
    Por outra parte a força da cobiça,
    A quem por natureza está sujeito,
    Um desejo imortal lhe acende e atiça:
    Que bem vê que grandíssimo proveito
    Fará, se com verdade e com justiça
    O contrato fizer por longos anos,
    Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.

    60
    Sobre isto, nos conselhos que tomava,
    Achava muito contrários pareceres;
    Que naqueles com quem se aconselhava
    Executa o dinheiro seus poderes.
    O grande Capitão chamar mandava,
    A quem chegado disse:--"Se quiseres
    Confessar-me a verdade limpa e nua,
    Perdão alcançarás da culpa tua.

    61
    Fala do Samorim ao Gama
    "Eu sou bem informado que a embaixada
    Que de teu Rei me deste, que é fingida;
    Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada,
    Mas vagabundo vás passando a vida;
    Que quem da Hespéria última alongada,
    Rei ou senhor de insânia desmedida,
    Há de vir cometer com naus e frotas
    Tão incertas viagens e remotas?

    62
    "E se de grandes Reinos poderosos
    O teu Rei tem a régia majestade,
    Que presentes me trazes valerosos,
    Sinais de tua incógnita verdade?
    Com peças e dons altos, sumptuosos,
    Se lia dos Reis altos a amizade;
    Que sinal nem penhor não é bastante
    As palavras dum vago navegante.

    63
    "Se porventura vindes desterrados,
    Como já foram homens de alta sorte,
    Em meu Reino sereis agasalhados,
    Que toda a terra é pátria para o forte;
    Ou se piratas sois ao mar usados,
    Dizei-mo sem temor de infâmia ou morte,
    Que por se sustentar em toda idade,
    Tudo faz a vital necessidade."

    64
    Isto assim dito, o Gama, que já tinha
    Suspeitas das insídias que ordenava
    O Mallomético ódio, donde vinha
    Aquilo que tão mal o Rei cuidava,
    Com uma alta confiança, que convinha,
    Com que seguro crédito alcançava,
    Que Vénus Acidália lhe influía,
    Tais palavras do sábio peito abria:

    65
    "Se os antigos delitos, que a malícia
    Humana cometeu na prisca idade,
    Não causaram que o vaso da niquícia,
    Açoute tão cruel da Cristandade,
    Viera pôr perpétua inimicícia
    Na geração de Adão, coa falsidade,
    Ó poderoso Rei da torpe seita,
    Não conceberas tu tão má suspeita.

    66
    "Mas porque nenhum grande bem se alcança
    Sem grandes opressões, e em todo o feito
    Segue o temor os passos da esperança,
    Que em suor vive sempre de seu peito,
    Me mostras tu tão pouca confiança
    Desta minha verdade, sem respeito
    Das razões em contrário que acharias
    Se não cresses a quem não crer devias.

    67
    "Porque, se eu de rapinas só vivesse,
    Undívago, ou da pátria desterrado,
    Como crês que tão longe me viesse
    Buscar assento incógnito e apartado?
    Por que esperanças, ou por que interesse
    Viria experimentando o mar irado,
    Os Antarcticos frios, e os ardores
    Que sofrem do Carneiro os moradores?

    68
    "Se com grandes presentes de alta estima
    O crédito me pedes do que digo,
    Eu não vim mais que a achar o estranho clima
    Onde a natura pôs teu Reino antigo.
    Mas, se a Fortuna tanto me sublima
    Que eu torne à minha pátria e Reino amigo,
    Então verás o dom soberbo e rico,
    Com que minha tornada certifico.

    69
    "Se te parece inopinado feito,
    Que Rei da última Hespéria a ti me mande,
    O coração sublime, o régio peito,
    Nenhum caso possível tem por grande.
    Bem parece que o nobre e grã conceito
    Do Lusitano espírito demande
    Maior crédito, e fé de mais alteza,
    Que creia dele tanta fortaleza.

    70
    "Sabe que há muitos anos que os antigos
    Reis nossos firmemente propuseram
    De vencer os trabalhos e perigos,
    Que sempre às grandes coisas se opuseram;
    E, descobrindo os mares inimigos
    Do quieto descanso, pretenderam
    De saber que fim tinham, e onde estavam
    As derradeiras praias que lavavam.

    71
    "Conceito digno foi do ramo claro
    Do venturoso Rei, que arou primeiro
    O mar, por ir deitar do ninho caro
    O morador de Abila derradeiro.
    Este, por sua indústria e engenho raro,
    Num madeiro ajuntando outro madeiro,
    Descobrir pôde a parte, que faz clara
    De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.

    72
    "Crescendo com os sucessos bons primeiros
    No peito as ousadias, descobriram
    Pouco e pouco caminhos estrangeiros,
    Que uns, sucedendo aos outros, prosseguiram.
    De África os moradores derradeiros
    Austrais, que nunca as sete flamas viram,
    Foram vistos de nós, atrás deixando
    Quantos estão os Trópicos queimando.

    73
    "Assim com firme peito, e com tamanho
    Propósito, vencemos a Fortuna,
    Até que nós no teu terreno estranho
    Viemos pôr a última coluna.
    Rompendo a força do líquido estanho,
    Da tempestade horrífica e importuna,
    A ti chegamos, de quem só queremos
    Sinal, que ao nosso Rei de ti levemos.

    74
    "Esta é a verdade, Rei; que não faria
    Por tão incerto bem, tão fraco prémio,
    Qual, não sendo isto assim, esperar podia,
    Tão longo, tão fingido e vão proêmio;
    Mas antes descansar me deixaria
    No nunca descansado e fero grêmio
    Da madre Tethys, qual pirata inico,
    Dos trabalhos alheios feito rico.

    75
    "Assim que, ó Rei, se minha grã verdade
    Tens por qual é, sincera e não dobrada,
    Ajunta-me ao despacho brevidade,
    Não me impeças o gosto da tornada.
    E, se ainda te parece falsidade,
    Cuida bem na razão que está provada,
    Que com claro juízo pode ver-se,
    Que fácil é a verdade de entender-se."

    76
    A tento estava o Rei na segurança
    Com que provava o Gama o que dizia;
    Concebe dele certa confiança,
    Crédito firme em quanto proferia.
    Pondera das palavras a abastança,
    Julga na autoridade grão valia,
    Começa de julgar por enganados
    Os Catuais corruptos, mal julgados.

    77
    Juntamente a cobiça do proveito,
    Que espera do contrato Lusitano,
    O faz obedecer e ter respeito
    Com o Capitão, e não com o Mauro engano.
    Enfim ao Gama manda que direito
    As naus se vá, e, seguro de algum dano,
    Possa a terra mandar qualquer fazenda,
    Que pela especiaria troque e venda.

    78
    Que mande da fazenda, enfim, lhe manda,
    Que nos Reinos Gangéticos faleça;
    Se alguma traz idónea lá da banda
    Donde a terra se acaba e o mar começa.
    Já da real presença veneranda
    Se parte o Capitão, para onde peça
    Ao Catual, que dele tinha cargo,
    Embarcação, que a sua está de largo.

    79
    Embarcação que o leve às naus lhe pede;
    Mas o mau Regedor, que novos laços
    Lhe maquinava, nada lhe concede,
    Interpondo tardanças e embaraços.
    Com ele parte ao cais, por que o arrede
    Longe quanto puder dos régios paços,
    Onde, sem que seu Rei tenha notícia,
    Faça o que lhe ensinar sua malícia.

    80
    Lá bem longe lhe diz que lhe daria
    Embarcação bastante em que partisse,
    Ou que para a luz crástina do dia
    Futuro sua partida diferisse.
    Já com tantas tardanças entendia
    O Gama, que o Gentio consentisse
    Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,
    O que dele atéli não entendera.

    81
    Era este Catual um dos que estavam
    Corruptos pela Maumetana gente,
    O principal por quem se governavam
    As cidades do Samorim potente.
    Dele somente os Mouros esperavam
    Efeito a seus enganos torpemente.
    Ele, que no conceito vil conspira,
    De suas esperanças não delira.

    82
    O Gama com instância lhe requere
    Que o mande pôr nas naus, e não lhe vai;
    E que assim lhe mandara, lhe refere,
    O nobre sucessor de Perimal.
    Por que razão lhe impede e lhe difere
    A fazenda trazer de Portugal?
    Pois aquilo que os Reis já têm mandado
    Não pode ser por outrem derrogado.

    83
    Pouco obedece o Catual corrupto
    A tais palavras; antes revolvendo
    Na fantasia algum subtil e astuto
    Engano diabólico e estupendo,
    Ou como banhar possa o ferro bruto
    No sangue avorrecido, estava vendo;
    Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
    Por que nenhuma à pátria mais tornasse.

    84
    Que nenhum torne à pátria só pretende
    O conselho infernal dos Maumetanos,
    Por que não saiba nunca onde se estende
    A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.
    Não parte o Gama enfim, que lho defende
    O Regedor dos bárbaros profanos;
    Nem sem licença sua ir-se podia,
    Que as almadias todas lhe tolhia.

    85
    Aos brados o razões do Capitão
    Responde o Idolatra que mandasse--
    Chegar à terra as naus, que longo estão,
    Por que melhor dali fosse e tornasse.
    "Sinal é de inimigo e de ladrão,
    Que lá tão longe a frota se alargasse,
    Lhe diz, porque do certo e fido amigo
    É não temer do seu nenhum perigo."

    86
    Nestas palavras o discreto Gama
    Enxerga bem que as naus deseja perto
    O Catual, por que com f erro e flama,
    Lhas assalte, por ódio descoberto.
    Em vários pensamentos se derrama;
    Fantasiando está remédio certo,
    Que desse a quanto mal se lhe ordenava;
    Tudo temia, tudo enfim cuidava.

    87
    Qual o reflexo lume do polido
    Espelho de aço, ou de cristal formoso,
    Que, do raio solar sendo ferido,
    Vai ferir noutra parte luminoso,
    E, sendo da ociosa mão movido
    Pela casa do moço curioso,
    Anda pelas paredes é telhado
    Trêmulo, aqui e ali, e dessossegado:

    88
    Tal o vago juízo flutuava
    Do Gama preso, quando lhe lembrara
    Coelho, se por caso o esperava
    Na praia com os batéis, como ordenara.
    Logo secretamente lhe mandava,
    "Que se tornasse à frota, que deixara;
    Não fosse salteado dos enganos,
    Que esperava dos feros Maumetanos."

    89
    Tal há de ser quem quer, com o dom de Marte,
    Imitar os ilustres e igualá-los:
    Voar com o pensamento a toda parte,
    Adivinhar perigos, e evitá-los:
    Com militar engenho e subtil arte
    Entender os inimigos, e enganá-los;
    Crer tudo, enfim, que nunca louvarei
    O Capitão que diga: "Não cuidei".

    90
    Insiste o Malabar em tê-lo preso,
    Se não manda chegar a terra a armada;
    Ele constante, e de ira nobre aceso,
    Os ameaços seus não teme nada;
    Que antes quer sobre si tomar o peso
    De quanto mal a vil malícia ousada
    Lhe andar armando, que pôr em ventura
    A frota de seu Rei, que tem segura.

    91
    Aquela noite esteve ali detido,
    E parte do outro dia, quando ordena
    De se tornar ao Rei; mas impedido
    Foi da guarda que tinha, não pequena.
    Comete-lhe o Gentio outro partido,
    Temendo de seu Rei castigo ou pena,
    Se sabe esta malícia, a qual asinha
    Saberá, se mais tempo ali o detinha.

    92
    Diz-lhe "que mande vir toda a fazenda
    Vendível, que trazia, para a terra,
    Para que de vagar se troque e venda:
    Que quem não quer comércio, busca guerra.
    Posto que os maus propósitos entenda
    O Gama, que o danado peito encerra,
    Consente, porque sabe por verdade,
    Que compra com a fazenda a liberdade.

    93
    Concertam-se que o negro mande dar
    Embarcações idóneas com que venha;
    Que os seus batéis não quer aventurar
    Onde lhos tome o inimigo, ou lhos detenha.
    Partem as almadias a buscar
    Mercadoria Hispana, que convenha.
    Escreve a seu irmão que lhe mandasse
    A fazenda com que se resgatasse.

    94
    Vem a fazenda a terra, aonde logo
    A agasalhou o infame Catual;
    Com ela ficam Álvaro e Diogo,
    Que a pudessem vender pelo que val.
    Se mais que obrigação, que mando e rogo
    No peito vil o prémio pode e val,
    Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,
    Pois o Gama soltou pela fazenda.

    95
    Por ela o solta, crendo que ali tinha
    Penhor bastante, donde recebesse
    Interesse maior do que lhe vinha,
    Se o Capitão mais tempo detivesse.
    Ele, vendo que já lhe não convinha
    Tornar a terra, por que não pudesse
    Ser mais retido, sendo às naus chegado
    Nelas estar se deixa descansado.

    96
    Nas naus estar se deixa vagaroso,
    Até ver o que o tempo lhe descobre:
    Que não se fia já do cobiçoso
    Regedor corrompido e pouco nobre.
    Veja agora o juízo curioso
    Quanto no rico, assim como no pobre,
    Pode o vil interesse e sede inimiga
    Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

    97
    A Polidoro mata o Ptei Treício,
    Só por ficar senhor do grão tesouro;
    Entra, pelo fortíssimo edifício,
    Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;
    Pode tanto em Tarpeia avaro vício,
    Que, a troco do metal luzente e louro,
    Entrega aos inimigos a alta torre,
    Do qual quase afogada em pago morre.

    98
    Este rende munidas fortalezas,
    Faz tredores e falsos os amigos:
    Este a mais nobres faz fazer vilezas,
    E entrega Capitães aos inimigos;
    Este corrompe virginais purezas,
    Sem temer de honra ou fama alguns perigos:
    Este deprava às vezes as ciências,
    Os juízos cegando e as consciências;

    99
    Este interpreta mais que sutilmente.
    Os textos; este faz e desfaz leis;
    Este causa os perjúrios entre a gente,
    E mil vezes tiranos torna os Reis.
    Até os que só a Deus Onipotente
    Se dedicam, mil vezes ouvireis
    Que corrompe este encantador, e ilude;
    Mas não sem cor, contudo, de virtude.

    Canto Nono

  8. #108
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    octobre 2007
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    Canto Nono

    1
    Tiveram longamente na cidade,
    Sem vender-se, a fazenda os dois feitores
    Que os infiéis, por manha e falsidade,
    Fazem que não lha comprem mercadores;
    Que todo seu propósito e vontade
    Era deter ali os descobridores
    Da Índia tanto tempo, que viessem
    De Meca as naus, que as suas desfizessem.

    2
    Lá no seio Eritreu, onde fundada
    Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu,
    Do nome da irmã sua assim chamada,
    Que depois em Suez se converteu,
    Não longe o porto jaz da nomeada
    Cidade Meca, que se engrandeceu
    Com a superstição falsa e profana
    Da religiosa água Maumetana.

    3
    Gidá se chama o porto, aonde o trato
    De todo o Roxo mar mais florescia,
    De que tinha proveito grande e grato
    O Soldão que esse Reino possuía.
    Daqui aos Malabares, por contrato
    Dos infiéis, formosa companhia
    De grandes naus, pelo Índico Oceano,
    Especiaria vem buscar cada ano.

    4
    Por estas naus os Mouros esperavam,
    Que, como fossem grandes e possantes,
    Aquelas, que o comércio lhe tomavam,
    Com flamas abrasassem crepitantes.
    Neste socorro tanto confiavam,
    Que já não querem mais dos navegantes,
    Senão que tanto tempo ali tardassem,
    Que da famosa Meca as naus chegassem.

    5
    Mas o Governador dos céus e gentes,
    Que, para quanto tem determinado,
    De longe os meios dá convenientes,
    Por onde vem a ef eito o fim fadado,
    Influiu piedosos acidentes
    De afeição em Monçaide, que guardado
    Estava para dar ao Gama aviso,
    E merecer por isso o Paraíso.

    6
    Este, de quem se os Mouros não guardavam,
    Por ser Mouro como eles, antes era
    Participante em quanto maquinavam,
    A tenção lhe descobre torpe e fera.
    Muitas vezes as naus que longe estavam
    Visita, o com piedade considera
    O dano, sem razão, que se lhe ordena
    Pela maligna gente Sarracena.

    7
    Informa o cauto Gama das armadas
    Que de Arábica Meca vêm cada ano,
    Que agora são dos seus tão desejadas,
    Para ser instrumento deste dano.
    Diz-lhe que vêm de gente carregadas,
    E dos trovões horrendos de Vulcano,
    E que pode ser delas oprimido,
    Segundo estava mal apercebido.

    8
    O Gama, que também considerava
    O tempo, que para a partida o chama,
    E que despacho já não esperava
    Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,
    Aos feitores, que em terra estão, mandava
    Que se tornem às naus; e por que a fama
    Desta súbita vinda os não impeça,
    Lhe manda que a fizessem escondida.

    9
    Porém não tardou muito que, voando,
    Um rumor não soasse com verdade:
    Que foram presos os feitores, quando
    Foram sentidos vir-se da cidade.
    Esta fama as orelhas penetrando
    Do sábio Capitão, com brevidade
    Faz represaria nuns, que às naus vieram
    A vender a pedraria que trouxeram.

    10
    Eram estes antigos mercadores
    Ricos em Calecu, e conhecidos;
    Da falta deles, logo entre os melhores
    Sentido foi que estão no mar retidos.
    Mas já nas naus os bons trabalhadores
    Volvem o cabrestante, e repartidos
    Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
    Outros quebram com o peito duro a barra;

    11
    Outros pendem da verga, e já desatam
    A vela, que com grita se soltava,
    Quando com maior grita ao Rei relatam
    A pressa com que a armada se levava.
    As mulheres e filhos que se matam
    Daqueles que vão presos, onde estava
    O Samorim, se queixam que perdidos
    Uns têm os pais, as outras os maridos.

    12
    Manda logo os feitores Lusitanos
    Com toda sua fazenda livremente
    Apesar dos inimigos Maumetanos,
    Por que lhe torne a sua presa gente.
    Desculpas manda o Rei de seus enganos;
    Recebe o Capitão de melhor mente
    Os presos que as desculpas, e tornando
    Alguns negros, se parte as velas dando.

    13
    Parte-se costa abaixo, porque entende
    Que em vão com o Rei gentio trabalhava
    Em querer dele paz, a qual pretende
    Por firmar o comércio que tratava.
    Mas como aquela terra, que se estende
    Pela Aurora, sabida já deixava,
    Com estas novas torna à pátria cara,
    Certos sinais levando do que achara.

    14
    Leva alguns Malabares, que tomou
    Por força, dos que o Samorim mandara
    Quando os presos feitores lhe tornou;
    Leva pimenta ardente, que comprara;
    A seca flor de Banda não ficou,
    A noz, e o negro cravo, que faz clara
    A nova ilha Maluco, com a canela,
    Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.

    15
    Isto tudo lhe houvera a diligência
    De Monçaide fiel, que também leva,
    Que, inspirado de angélica influência,
    Quer no livro de Cristo que se escreva.
    Ó ditoso Africano, que a clemência
    Divina assim tirou de escura treva,
    E tão longe da pátria achou maneira
    Para subir à pátria verdadeira!

    16
    Apartadas assim da ardente costa
    As venturosas naus, levando a proa
    Para onde a Natureza tinha posta
    A meta Austrina da esperança boa,
    Levando alegres novas e resposta
    Da parte Oriental para Lisboa,
    Outra vez cometendo os duros medos
    Do mar incerto, tímidos e ledos;

    17
    O prazer de chegar à pátria cara,
    A seus penates caros e parentes,
    Para contar a peregrina e rara
    Navegação, os vários céus e gentes;
    Vir a lograr o prémio, que ganhara
    Por tão longos trabalhos e acidentes,
    Cada um tem por gosto tão perfeito,
    Que o coração para ele é vaso estreito.

    18
    Porém a deusa Cípria, que ordenada
    Era para favor dos Lusitanos
    Do Padre eterno, e por bom génio dada,
    Que sempre os guia já de longos anos;
    A glória por trabalhos alcançada,
    Satisfação de bem sofridos danos,
    Lhe andava já ordenando, e pretendia
    Dar-lhe nos mares tristes alegria.

    19
    Depois de ter um pouco revolvido
    Na mente o largo mar que navegaram,
    Os trabalhos, que pelo Deus nascido
    Nas Anfióneas Tebas se causaram;
    Já trazia de longe no sentido,
    Para prémio de quanto mal passaram,
    Buscar-lhe algum deleite, algum descanso
    No Reino de cristal líquido e manso;

    20
    Algum repouso, enfim, com que pudesse
    Refocilar a lassa humanidade
    Dos navegantes seus, como interesse
    Do trabalho que encurta a breve idade.
    Parece-lhe razão que conta desse
    A seu filho, por cuja potestade
    Os Deuses faz descer ao vil terreno
    E os humanos subir ao céu sereno.

    21
    Isto bem revolvido, determina
    De ter-lhe aparelhada, lá no meio
    Das águas, alguma ínsula divina,
    Ornada de esmaltado e verde arreio;
    Que muitas tem no reino, que confina
    Da mãe primeira com o terreno seio,
    Afora as que possui soberanas
    Para dentro das portas Herculanas.

    22
    Ali quer que as aquáticas donzelas
    Esperem os fortíssimos barões,
    Todas as que têm título de belas,
    Glória dos olhos, dor dos corações,
    Com danças e coreias, porque nelas
    Influirá secretas afeições,
    Para com mais vontade trabalharem
    De contentar, a quem se afeiçoaram.

    23
    Tal manha buscou já, para que aquele
    Que de Anquises pariu, bem recebido
    Fosse no campo que a bovina pele
    Tomou de espaço, por subtil partido.
    Seu filho vai buscar, porque só nele
    Tem todo seu poder, fero Cupido,
    Que assim como naquela empresa antiga
    Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.

    24
    No carro ajunta as aves que na vida
    Vão da morte as exéquias celebrando,
    E aquelas em que já foi convertida
    Perístera, as boninas apanhando.
    Em derredor da Deusa já partida,
    No ar lascivos beijos se vão dando.
    Ela, por onde passa, o ar e o vento
    Sereno faz, com brando movimento.

    25
    Já sobre os Idálios montes pende,
    Onde o filho frecheiro estava então
    Ajuntando outros muitos, que pretende
    Fazer uma famosa expedição
    Contra o mundo rebelde, por que emende
    Erros grandes, que há dias nele estão,
    Amando coisas que nos foram dadas,
    Não para ser amadas, mas usadas.

    26
    Via Acteon na caça tão austero,
    De cego na alegria bruta, insana,
    Que por seguir um feio animal fero,
    Foge da gente e bela forma humana;
    E por castigo quer, doce e severo,
    Mostrar-lhe a formosura de Diana;
    E guarde-se não seja ainda comido
    Desses cães que agora ama, e consumido.

    27
    E vê do mundo todo os principais,
    Que nenhum no bem público imagina;
    Vê neles que não têm amor a mais
    Que a si somente, e a quem Filáucia ensina.
    Vê que esses que frequentam os reais
    Paços, por verdadeira e sã doutrina
    Vendem adulação, que mal consente
    Mondar-se o novo trigo florescente.

    28
    Vê que aqueles que devem à pobreza
    Amor divino e ao povo caridade,
    Amam somente mandos e riqueza,
    Simulando justiça e integridade.
    Da feia tirania e de aspereza
    Fazem direito e vã severidade:
    Leis em favor do Rei se estabelecem,
    As em favor do povo só perecem.

    29
    Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,
    Senão o que somente mal deseja;
    Não quer que tanto tempo se releve
    O castigo, que duro e justo seja.
    Seus ministros ajunta, por que leve
    Exércitos conformes à peleja,
    Que espera ter com a mal regida gente,
    Que lhe não for agora obediente.

    30
    Muitos destes meninos voadores
    Estão em várias obras trabalhando:
    Uns amolando ferros passadores,
    Outros ásteas de setas delgaçando;
    Trabalhando, cantando estão de amores,
    Vários casos em verso modulando,
    Melodia sonora e concertada,
    Suave a letra, angélica a soada.

    31
    Nas frágoas imortais, onde forjavam
    Para as setas as pontas penetrantes,
    Por lenha corações ardendo estavam,
    Vivas entranhas ainda palpitantes.
    As águas onde os ferros temperavam,
    Lágrimas são de míseros amantes;
    A viva f lama, o nunca morto lume,
    Desejo é só que queima, e não consume.

    32
    Alguns exercitando a mão andavam
    Nos duros corações da plebe rude;
    Crebros suspiros pelo ir soavam
    Dos que feridos vão da seta aguda.
    Formosas Ninfas são as que curavam
    As chagas recebidas cuja ajuda
    Não somente dá vida aos mal feridos,
    Mas põe em vida os ainda não nascidos.

    33
    Formosas são algumas e outras feias,
    Segundo a qualidade for das chagas;
    Que o veneno espalhado pelas veias
    Curam-no às vezes ásperas triagas.
    Alguns ficam ligados em cadeias,
    Por palavras subtis de sábias magas:
    Isto acontece às vezes, quando as setas
    Acertam de levar ervas secretas.

    34
    Destes tiros assim desordenados,
    Que estes moços mal destros vão tirando,
    Nascem amores mil desconcertados
    Entre o povo ferido miserando;
    E tamboril nos heróis de altos estados
    Exemplos mil se vêem de amor nefando,
    Qual o das moças Bíbli e Cinireia,
    Um mancebo de Assíria, um de Judeia.

    35
    E vós, ó poderosos, por pastoras
    Muitas vezes ferido o peito vedes;
    E por baixos e rudos, vós, senhoras,
    Também vos tomam nas Vulcâneas redes.
    Uns esperando andais noturnas horas,
    Outros subis telhados e paredes:
    Mas eu creio que deste amor indino
    É mais culpa a da mãe que a do menino.

    36
    Mas já no verde prado o carro leve
    Punham os brancos cisnes mansamente,
    E Dione, que as rosas entro a neve
    No rosto traz, descia diligente.
    O frecheiro, que contra o céu se atreve,
    A recebê-la vem, ledo e contente;
    Vêm todos os Cupidos servidores
    Beijar a mão à Deusa dos amores.

    37
    Ela, por que não gaste o tempo em vão,
    Nos braços tendo o filho, confiada
    Lhe diz: "Amado filho, em cuja mão
    Toda minha potência está fundada;
    Filho, em quem minhas forças sempre estão;
    Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
    A socorrer-me a tua potestade
    Me triz especial necessidade.

    38
    "Bem vês as Lusitânicas fadigas,
    Que eu já de muito longe favoreço,
    Porque das Parcas sei, minhas amigas,
    Que me hão de venerar e ter em preço.
    E, porque tanto imitam as antigas
    Obras de meus Romanos, me ofereço
    A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,
    A quanto se estender o poder nosso.

    39
    "E porque das insídias do odioso
    Baco foram na Índia molestados,
    E das injúrias sós do mar undoso
    Puderam mais ser mortos que cansados,
    No mesmo mar, que sempre temeroso
    Lhe foi, quero que sejam repousados,
    Tomando aquele prémio e doce glória
    Do trabalho, que faz clara a memória.

    40
    "E para isso queria que, feridas
    As filhas de Nereu, no ponto fundo,
    De amor dos Lusitanos incendidas,
    Que vêm de descobrir o novo mundo,
    Todas numa ilha juntas e subidas,
    Ilha, que nas entranhas do profundo
    Oceano terei aparelhada,
    De dons de Flora e Zéfiro adornada;

    41
    "Ali, com mil refrescos e manjares,
    Com vinhos odoríferos e rosas,
    Em cristalinos paços singulares
    Formosos leitos, e elas mais formosas;
    Enfim, com mil deleites não vulgares,
    Os esperem as Ninfas amorosas,
    De amor feridas, para lhes entregarem
    Quanto delas os olhos cobiçarem.

    42
    "Quero que haja no reino Netunino,
    Onde eu nasci, progénie forte e bela,
    E tome exemplo o mundo vil, malino,
    Que contra tua potência se rebela,
    Por que entendam que muro adamantino,
    Nem triste hipocrisia val contra ela:
    Mal haverá na terra quem se guarde,
    Se teu fogo imortal nas águas arde."

    43
    Assim Vénus propôs, e o filho inieo,
    Para lhe obedecer, já se apercebe:
    Manda trazer o arco ebúrneo rico,
    Onde as setas de ponta de ouro embebe.
    Com gesto ledo a Cípria, e impudico,
    Dentro no carro o filho seu recebe;
    A rédea larga às aves, cujo canto
    A Factôntea morte chorou tanto.

    44
    Mas diz Cupido, que era necessária
    Uma famosa e célebre terceira,
    Que, posto que mil vezes lhe é contrária,
    Outras muitas a tem por companheira:
    A Deusa Giganteia, temerária,
    Jactante, mentirosa, e verdadeira,
    Que com cem olhos vê, e por onde voa,
    O que vê, com mil bocas apregoa.

    45
    Vão-a buscar, e mandam adiante,
    Que celebrando vá com tuba clara
    Os louvores da gente navegante,
    Mais do que nunca os d'outrem celebrara.
    Já murmurando a Fama penetrante
    Pelas fundas cavernas se espalhara:
    Fala verdade, havida por verdade,
    Que junto a Deusa traz Credulidade.

    46
    O louvor grande, o rumor excelente
    No coração dos Deuses, que indignados
    Foram por Baco contra a ilustre gente,
    Mudando, os fez um pouco afeiçoados.
    O peito feminil, que levemente
    Muda quaisquer propósitos tomados,
    Já julga por mau zelo e por crueza
    Desejar mal a tanta fortaleza.

    47
    Despede nisto o fero moço as setas
    Uma após outra: geme o mar com os tiros;
    Direitas pelas ondas inquietas
    Algumas vão, e algumas fazem giros;
    Caem as Ninfas, lançam das secretas
    Entranhas ardentíssimos suspiros;
    Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:
    Que tanto, como a vista, pode a fama.

    48
    Os cornos ajuntou da ebúrnea lua
    Com força o moço indómito excessiva,
    Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,
    Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.
    Já não fica na aljava seta alguma,
    Nem nos equóreos campos Ninfa viva;
    E se feridas ainda estão vivendo,
    Será para sentir que vão morrendo.

    49
    Dai lugar, altas e cerúleas ondas,
    Que, vedes, Vénus traz a medicina,
    Mostrando as brancas velas e redondas,
    Que vêm por cima da água Netunina.
    Para que tu recíproco respondas,
    Ardente Amor, à flama feminina,
    É, forçado que a pudicícia honesta
    Faça quanto lhe Vénus amoesta.

    50
    Já todo o belo coro se aparelha
    Das Nereidas, e junto caminhava
    Em coreias gentis, usança velha,
    Para a ilha, a que Vénus as guiava.
    Ali a formosa Deusa lhe aconselha
    O que ela fez mil vezes, quando amava.
    Elas, que vão do doce amor vencidas,
    Estão a seu conselho oferecidas.

    51
    Cortando vão as naus a larga via
    Do mar ingente para a pátria amada,
    Desejando prover-se de água fria,
    Para a grande viagem prolongada,
    Quando juntas, com súbita alegria,
    Houveram vista da ilha namorada,
    Rompendo pelo céu a mãe formosa
    De Menónio, suave e deleitosa.

    52
    De longe a Ilha viram fresca e bela,
    Que Vénus pelas ondas lha levava
    (Bem como o vento leva branca vela)
    Para onde a forte armada se enxergava;
    Que, por que não passassem, sem que nela
    Tomassem porto, como desejava,
    Para onde as naus navegam a movia
    A Acidália, que tudo enfim podia.

    53
    Mas firme a fez e imóvel, como viu
    Que era dos Nautas vista e demandada;
    Qual ficou Delos, tanto que pariu
    Latona Febo e a Deusa à caça usada.
    Para lá logo a proa o mar abriu,
    Onde a costa fazia uma enseada
    Curva e quieta, cuja branca areia,
    Pintou de ruivas conchas Citereia.

    54
    Três formosos outeiros se mostravam
    Erguidos com soberba graciosa,
    Que de gramíneo esmalte se adornavam..
    Na formosa ilha alegre e deleitosa;
    Claras fontes o límpidas manavam
    Do cume, que a verdura tem viçosa;
    Por entre pedras alvas se deriva
    A sonorosa Ninfa fugitiva.

    55
    Num vale ameno, que os outeiros fende,
    Vinham as claras águas ajuntar-se,
    Onde uma mesa fazem, que se estende
    Tão bela quanto pode imaginar-se;
    Arvoredo gentil sobre ela pende,
    Como que pronto está para afeitar-se,
    Vendo-se no cristal resplandecente,
    Que em si o está pintando propriamente.

    56
    Mil árvores estão ao céu subindo,
    Com pomos odoríferos e belos:
    A laranjeira tem no fruto lindo
    A cor que tinha Dafne nos cabelos;
    Encosta-se no chão, que está caindo,
    A cidreira com os pesos amarelos;
    Os formosos limões ali, cheirando,
    Estão virgíneas tetas imitando.

    57
    As árvores agrestes que os outeiros
    Têm com frondente coma enobrecidos,
    Alemos são de Alcides, e os loureiros
    Do louro Deus amados e queridos;
    Mirtos de Citereia, com os pinheiros
    De Cibele, por outro amor vencidos;
    Está apontando o agudo cipariso
    Para onde é posto o etéreo paraíso.

    58
    Os dons que dá Pomona, ali Natura
    Produz diferentes nos sabores,
    Sem ter necessidade de cultura,
    Que sem ela se dão muito melhores:
    As cerejas purpúreas na pintura,
    As amoras, que o nome têm de amores,
    O pomo que da pátria Pérsia veio,
    Melhor tornado no terreno alheio.

    59
    Abre a romã, mostrando a rubicunda
    Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
    Entre os braços do ulmeiro está a jocunda
    Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;
    E vós, se na vossa árvore fecunda,
    Peras piramidais, viver quiserdes,
    Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,
    Em vós fazem os pássaros inicos.

    60
    Pois a tapeçaria bela e fina,
    Com que se cobre o rústico terreno,
    Faz ser a de Aqueménia menos diria,
    Mas o sombrio vale mais ameno.
    Ali a cabeça a flor Cifísia inclina
    Sôbolo tanque lúcido e sereno;
    Floresce o filho e neto de Ciniras,
    Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras.

    61
    Para julgar, difícil coisa fora,
    No céu vendo e na terra as mesmas cores,
    Se dava às flores cor a bela Aurora,
    Ou se lha dão a ela as belas flores.
    Pintando estava ali Zéfiro e Flora
    As violas da cor dos amadores;
    O lírio roxo, a fresca rosa bela,
    Qual reluz nas faces da donzela;

    62
    A cândida cecém, das matutinas
    Lágrimas rociada, e a manjarona.
    Vêem-se as letras nas flores Hiacintinas,
    Tão queridas do filho de Latona.
    Bem se enxerga nos pomos e boninas
    Que competia Cloris com Pomona.
    Pois se as aves no ar cantando voam,
    Alegres animais o chão povoam.

    63
    Ao longo da água o níveo cisne canta,
    Responde-lhe do ramo filomela;
    Da sombra de seus cornos não se espanta
    Acteon, n'água cristalina e bela;
    Aqui a fugace lebre se levanta
    Da espessa mata, ou tímida gazela;
    Ali no bico traz ao caro ninho
    O mantimento o leve passarinho.

    64
    Nesta frescura tal desembarcavam
    Já das naus os segundos Argonautas,
    Onde pela floresta se deixavam
    Andar as belas Deusas, como incautas.
    Algumas doces cítaras tocavam,
    Algumas harpas e sonoras flautas,
    Outras com os arcos de ouro se fingiam
    Seguir os animais, que não seguiam.

    65
    Assim lhe aconselhara a mestra experta;
    Que andassem pelos campos espalhadas;
    Que, vista dos barões a presa incerta,
    Se fizessem primeiro desejadas.
    Algumas, que na forma descoberta
    Do belo corpo estavam confiadas,
    Posta a artificiosa formosura,
    Nuas lavar-se deixam na água pura,

    66
    Mas os fortes mancebos, que na praia
    Punham os pés, de terra cobiçosos,
    Que não há nenhum deles que não saia
    De acharem caça agreste desejosos,
    Não cuidam que, sem laço ou redes, caia
    Caça naqueles montes deleitosos,
    Tão suave, doméstica e benigna,
    Qual ferida lha tinha já Ericina.

    67
    Alguns, que em espingardas e nas bestas,
    Para ferir os cervos se fiavam,
    Pelos sombrios matos e florestas
    Determinadamente se lançavam:
    Outros, nas sombras, que de as altas sestas
    Defendem a verdura, passeavam
    Ao longo da água que, suave e queda,
    Por alvas pedras corre à praia leda.

    68
    Começam de enxergar subitamente
    Por entre verdes ramos várias cores,
    Cores de quem a vista julga e sente
    Que não eram das rosas ou das flores,
    Mas da lã fina e seda diferente,
    Que mais incita a força dos amores,
    De que se vestem as humanas rosas,
    Fazendo-se por arte mais formosas.

    69
    Dá Veloso espantado um grande grito:
    "Senhores, caça estranha, disse, é esta!
    Se ainda dura o Gentio antigo rito,
    A Deusas é sagrada esta floresta.
    Mais descobrimos do que humano espírito
    Desejou nunca; e bem se manifesta
    Que são grandes as coisas e excelentes,
    Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

    70
    "Sigamos estas Deusas, e vejamos
    Se fantásticas são, se verdadeiras."
    Isto dito, velozes mais que gamos,
    Se lançam a correr pelas ribeiras.
    Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
    Mas, mais industriosas que ligeiras,
    Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,
    Se deixam ir dos galgos alcançando.

    71
    De uma os cabelos de ouro o vento leva
    Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
    Acende-se o desejo, que se ceva
    Nas alvas carnes súbito mostradas;
    Uma de indústria cai, e já releva,
    Com mostras mais macias que indignadas,
    Que sobre ela, empecendo, também caia
    Quem a seguiu pela arenosa praia.

    72
    Outros, por outra parte, vão topar
    Com as Deusas despidas, que se lavam:
    Elas começam súbito a gritar,
    Como que assalto tal não esperavam.
    Umas, fingindo menos estimar
    A vergonha que a força, se lançavam
    Nuas por entre o mato, aos olhos dando
    O que às mãos cobiçosas vão negando.

    73
    Outra, como acudindo mais depressa
    A vergonha da Deusa caçadora,
    Esconde o corpo n'água; outra se apressa
    Por tomar os vestidos, que tem fora.
    Tal dos mancebos há, que se arremessa,
    Vestido assim e calçado (que, coa mora
    De se despir, há medo que ainda tarde)
    A matar na água o fogo que nele arde.

    74
    Qual cão de caçador, sagaz e ardido,
    Usado a tomar na água a ave ferida,
    Vendo no rosto o férreo cano erguido
    Para a garcenha ou pata conhecida,
    Antes que soe o estouro, mal sofrido
    Salta n'água, e da presa não duvida,
    Nadando vai e latindo: assim o mancebo
    Remete à que não era irmã de Febo.

    75
    Leonardo, soldado bem disposto,
    Manhoso, cavaleiro e namorado,
    A quem amor não dera um só desgosto,
    Mas sempre fora dele maltratado,
    E tinha já por firme pressuposto
    Ser com amores mal afortunado,
    Porém não que perdesse a esperança
    De ainda poder seu fado ter mudança,

    76
    Quis aqui sua ventura, que corria
    Após Efire, exemplo de beleza,
    Que mais caro que as outras dar queria
    O que deu para dar-se a natureza.
    Já cansado correndo lhe dizia:
    "Ó formosura indigna de aspereza,
    Pois desta vida te concedo a palma,
    Espera um corpo de quem levas a alma.

    77
    "Todas de correr cansam, Ninfa pura,
    Rendendo-se à vontade do inimigo,
    Tu só de mi só foges na espessura?
    Quem te disse que eu era o que te sigo?
    Se to tem dito já aquela ventura,
    Que em toda a parte sempre anda comigo,
    Ó não na creias, porque eu, quando a cria,
    Mil vezes cada hora me mentia.

    78
    "Não canses, que me cansas: e se queres
    Fugir-me, por que não possa tocar-te,
    Minha ventura é tal que, ainda que esperes,
    Ela fará que não possa alcançar-te.
    Espora; quero ver, se tu quiseres,
    Que subtil modo busca de escapar-te,
    E notarás, no fim deste sucesso,
    Tra la spica e la man, qual muro è messo.

    79
    "Ó não me fujas! Assim nunca o breve
    Tempo fuja de tua formosura!
    Que, só com refrear o passo leve,
    Vencerás da fortuna a força dura.
    Que Imperador, que exército se atreve
    A quebrantar a fúria da ventura,
    Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
    O que tu só farás não me fugindo!

    80
    "Pões-te da parte da desdita minha?
    Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
    Levas-me um coração, que livre tinha?
    Solta-me, e correrás mais levemente.
    Não te carrega essa alma tão mesquinha,
    Que nesses fios de ouro reluzente
    Atada levas? Ou, depois de presa,
    Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

    81
    "Nesta esperança só te vou seguindo:
    Que, ou tu não sofrerás o peso dela,
    Ou na virtude de teu gesto lindo
    Lhe mudarás a triste e dura estrela:
    E se se lhe mudar, não vás fugindo,
    Que Amor te ferirá, gentil donzela,
    E tu me esperarás, se Amor te fere:
    E se me esperas, não há mais que espere."

    82
    Já não fugia a bela Ninfa, tanto
    Por se dar cara ao triste que a seguia,
    Como por ir ouvindo o doce canto,
    As namoradas mágoas que dizia.
    Volvendo o rosto já sereno e santo,
    Toda banhada em riso e alegria,
    Cair se deixa aos pés do vencedor,
    Que todo se desfaz em puro amor.

    83
    Ó que famintos beijos na floresta,
    E que mimoso choro que soava!
    Que afagos tão suaves, que ira honesta,
    Que em risinhos alegres se tornava!
    O que mais passam na manhã, e na sesta,
    Que Vénus com prazeres inflamava,
    Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
    Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

    84
    Desta arte enfim conformes já as formosas
    Ninfas com os seus amados navegantes,
    Os ornam de capelas deleitosas
    De louro, e de ouro, e flores abundantes.
    As mãos alvas lhes davam como esposas;
    Com palavras formais e estipulantes
    Se prometem eterna companhia
    Em vida e morte, de honra e alegria.

    85
    Uma delas maior, a quem se humilha
    Todo o coro das Ninfas, e obedece,
    Que dizem ser de Celo e Vesta filha,
    O que no gesto belo se parece,
    Enchendo a terra e o mar de maravilha,
    O Capitão ilustre, que o merece,
    Recebe ali com pompa honesta e régia,
    Mostrando-se senhora grande e egrégia.

    86
    Que, depois de lhe ter dito quem era,
    Com um alto exórdio, de alta graça ornado,
    Dando-lhe a entender que ali viera
    Por alta influição do imóvel fado,
    Para lhe descobrir da unida esfera
    Da terra imensa, e mar não navegado,
    Os segredos, por alta profecia,
    O que esta sua nação só merecia,

    87
    Tomando-o pela mão, o leva e guia
    Para o cume dum monte alto e divino,
    No qual uma rica fábrica se erguia
    De cristal toda, e de ouro puro e fino.
    A maior parte aqui passam do dia
    Em doces jogos e em prazer contino:
    Ela nos paços logra seus amores,
    As outras pelas sombras entre as flores.

    88
    Assim a formosa e a forte companhia
    O dia quase todo estão passando,
    Numa alma, doce, incógnita alegria,
    Os trabalhos tão longos compensando.
    Porque dos feitos grandes, da ousadia
    Forte e famosa, o mundo está guardando
    O prémio lá no fim, bem merecido,
    Com fama grande e nome alto e subido.

    89
    Que as Ninfas do Oceano tão formosas,
    Tethys, e a ilha angélica pintada,
    Outra coisa não é que as deleitosas
    Honras que a vida fazem sublimada.
    Aquelas proeminências gloriosas,
    Os triunfos, a fronte coroada
    De palma e louro, a glória e maravilha:
    Estes são os deleites desta ilha.

    90
    Que as imortalidades que fingia
    A antiguidade, que os ilustres ama,
    Lá no estelante Olimpo, a quem subia
    Sobre as asas ínclitas da Fama,
    Por obras valorosas que fazia,
    Pelo trabalho imenso que se chama
    Caminho da virtude alto e fragoso,
    Mas no fim doce, alegre e deleitoso:

    91
    Não eram senão prémios que reparte
    Por feitos imortais e soberanos
    O mundo com os varões, que esforço e arte
    Divinos os fizeram, sendo humanos.
    Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
    Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,
    Ceres, Palas e Juno, com Diana,
    Todos foram de fraca carne humana.

    92
    Mas a Fama, trombeta de obras tais,
    Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
    De Deuses, Semideuses imortais,
    Indígetes, Heróicos e de Magnos.
    Por isso, ó vós que as famas estimais,
    Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
    Despertai já do sono do ócio ignavo,
    Que o ânimo de livre faz escravo.

    93
    E ponde na cobiça um freio duro,
    E na ambição também, que indignamente
    Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
    Vício da tirania infame e urgente;
    Porque essas honras vãs, esse ouro puro
    Verdadeiro valor não dão à gente:
    Melhor é, merecê-los sem os ter,
    Que possuí-los sem os merecer.

    94
    Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
    Que aos grandes não dêem o dos pequenos;
    Ou vos vesti nas armas rutilantes,
    Contra a lei dos inimigos Sarracenos:
    Fareis os Reinos grandes e possantes,
    E todos tereis mais, o nenhum menos;
    Possuireis riquezas merecidas,
    Com as honras, que ilustram tanto as vidas.

    95
    E fareis claro o Rei, que tanto amais,
    Agora com os conselhos bem cuidados,
    Agora com as espadas, que imortais
    Vos farão, como os vossos já passados;
    Impossibilidades não façais,
    Que quem quis sempre pôde; e numerados
    Sereis entre os Heróis esclarecidos,
    E nesta Ilha de Vénus recebidos.

    Canto Décimo

    1
    Mas já o claro amador da Larisséia
    Adúltera inclinava os animais
    Lá pera o grande lago que rodeia
    Temistitão, nos fins Ocidentais;
    O grande ardor do Sol Favónio enfreia
    Co sopro que nos tanques naturais
    Encrespa a água serena e despertava
    Os lírios e jasmins, que a calma agrava,

    2
    Quando as fermosas Ninfas, cos amantes
    Pela mão, já conformes e contentes,
    Subiam pera os paços radiantes
    E de metais ornados reluzentes,
    Mandados da Rainha, que abundantes
    Mesas d'altos manjares excelentes
    Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
    Restaurem da cansada natureza.

    3
    Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,
    Se assentam dous e dous, amante e dama;
    Noutras, à cabeceira, d'ouro finas,
    Está co a bela Deusa o claro Gama.
    De iguarias suaves e divinas,
    A quem não chega a Egípcia antiga fama,
    Se acumulam os pratos de fulvo ouro,
    Trazidos lá do Atlântico tesouro.

    4
    Os vinhos odoríferos, que acima
    Estão não só do Itálico Falerno
    Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima
    Com todo o ajuntamento sempiterno,
    Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,
    Crespas escumas erguem, que no interno
    Coração movem súbita alegria,
    Saltando co a mistura d'água fria.

    5
    Mil práticas alegres se tocavam;
    Risos doces, sutis e argutos ditos,
    Que entre um e outro manjar se ale vantavam,
    Despertando os alegres apetitos;
    Músicos instrumentos não faltavam
    (Quais, no profundo Reino, os nus espritos
    Fizeram descansar da eterna pena)
    Cüa voz düa angélica Sirena.

    6
    Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,
    Que pelos altos paços vão soando,
    Em consonância igual, os instumentos
    Suaves vêm a um tempo conformando.
    Um súbito silêncio enfreia os ventos
    E faz ir docemente murmurando
    As águas, e nas casas naturais
    Adormecer os brutos animais.

    7
    Com doce voz está subindo ao Céu
    Altos varões que estão por vir ao mundo,
    Cujas claras Ideias viu Proteu
    Num globo vão, diáfano, rotundo,
    Que Júpiter em dom lho concedeu
    Em sonhos, e despois no Reino fundo,
    Vaticinando, o disse, e na memória
    Recolheu logo a Ninfa a clara história.

    8
    Matéria é de coturno, e não de soco,
    A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;
    Qual Iopas não soube, ou Demodoco,
    Entre os Feaces um, outro em Cartago.
    Aqui, minha Calíope, te invoco
    Neste trabalho extremo, por que em pago
    Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,
    O gosto de escrever, que vou perdendo.

    9
    Vão os anos descendo, e já do Estio
    Há pouco que passar até o Outono;
    A Fortuna me faz o engenho frio,
    Do qual já não me jacto nem me abono;
    Os desgostos me vão levando ao rio
    Do negro esquecimento e eterno sono.
    Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha
    Das Musas, co que quero à nação minha!

    10
    Cantava a bela Deusa que viriam
    Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,
    Armadas que as ribeiras venceriam
    Por onde o Oceano Índico suspira;
    E que os Gentios Reis que não dariam
    A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira
    Provariam do braço duro e forte,
    Até render-se a ele ou logo à morte.

    11
    Cantava dum que tem nos Malabares
    Do sumo sacerdócio a dignidade,
    Que, só por não quebrar cos singulares
    Barões os nós que dera d'amizade,
    Sofrerá suas cidades e lugares,
    Com ferro, incêndios, ira e crueldade,
    Ver destruir do Samorim potente,
    Que tais ódios terá co a nova gente.

    12
    E canta como lá se embarcaria
    Em Belém o remédio deste dano,
    Sem saber o que em si ao mar traria,
    O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.
    O peso sentirão, quando entraria,
    O curvo lenho e o férvido Oceano,
    Quando mais n'água os troncos que gemerem
    Contra sua natureza se meterem.

    13
    Mas, já chegado aos fins Orientais
    E deixado em ajuda do gentio Rei de
    Cochim, com poucos naturais,
    Nos braços do salgado e curvo rio
    Desbaratará os Naires infernais
    No passo Cambalão, tornando frio
    D'espanto o ardor imenso do Oriente,
    Que verá tanto obrar tão pouca gente.

    14
    Chamará o Samorim mais gente nova;
    Virão Reis [de] Bipur e de Tanor,
    Das serras de Narsinga, que alta prova
    Estarão prometendo a seu senhor;
    Fará que todo o Naire, enfim, se mova
    Que entre Calecu jaz e Cananor,
    D'ambas as Leis imigas pera a guerra:
    Mouros por mar, Gentios pola terra.

    15
    E todos outra vez desbaratando,
    Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,
    A grande multidão que irá matando
    A todo o Malabar terá admirado.
    Cometerá outra vez, não dilatando,
    O Gentio os combates, apressado,
    Injuriando os seus, fazendo votos
    Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.

    16
    Já não defenderá somente os passos,
    Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;
    Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos
    Aqueles que as cidades fazem rasas,
    Fará que os seus, de vida pouco escassos,
    Cometam o Pacheco, que tem asas,
    Por dous passos num tempo; mas voando
    Dum noutro, tudo irá desbaratando.

    17
    Virá ali o Samorim, por que em pessoa
    Veja a batalha e os seus esforce e anime;
    Mas um tiro, que com zunido voa,
    De sangue o tingirá no andor sublime.
    Já não verá remédio ou manha boa
    Nem força que o Pacheco muito estime;
    Inventará traições e vãos venenos,
    Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.

    18
    Que tornará a vez sétima (cantava)
    Pelejar co invicto e forte Luso,
    A quem nenhum trabalho pesa e agrava;
    Mas, contudo, este só o fará confuso.
    Trará pera a batalha, horrenda e brava,
    Máquinas de madeiros fora de uso,
    Pera lhe abalroar as caravelas,
    Que até'li vão lhe fora cometê-las.

    19
    Pela água levará serras de fogo
    Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;
    Mas a militar arte e engenho logo
    Fará ser vã a braveza com que venha.
    --"Nenhum claro barão no Márcio jogo,
    Que nas asas da Fama se sustenha,
    Chega a este, que a palma a todos toma.
    E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.

    20
    "Porque tantas batalhas, sustentadas
    Com muito pouco mais de cem soldados,
    Com tantas manhas e artes inventadas,
    Tantos Cães não imbeles profligados,
    Ou parecerão fábulas sonhadas,
    Ou que os celestes Coros, invocados,
    Decerão a ajudá-lo e lhe darão
    Esforço, força, ardil e coração.

    21
    "Aquele que nos campos Maratónios
    O grão poder de Dário estrui e rende,
    Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,
    O passo de Termópilas defende,
    Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,
    Que com todo o poder Tusco contende
    Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,
    Foi como este na guerra forte e sábio."

    22
    Mas neste passo a Ninfa, o som canoro
    Abaxando, fez ronco e entristecido,
    Cantando em baxa voz, envolta em choro,
    O grande esforço mal agardecido.
    --"Ó Belisário (disse) que no coro
    Das Musas serás sempre engrandecido,
    Se em ti viste abatido o bravo Marte,
    Aqui tens com quem podes consolar-te!

    23
    "Aqui tens companheiro, assi nos feitos
    Como no galardão injusto e duro;
    Em ti e nele veremos altos peitos
    A baxo estado vir, humilde e escuro.
    Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
    Os que ao Rei e à Lei servem de muro!
    Isto fazem os Reis cuja vontade
    Manda mais que a justiça e que a verdade.

    24
    "Isto fazem os Reis quando embebidos
    Nüa aparência branda que os contenta
    Dão os prémios, de Aiace merecidos,
    À língua vã de Ulisses, fraudulenta.
    Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
    Por quem só doces sombras apresenta,
    Se não os dão a sábios cavaleiros,
    Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.

    25
    "Mas tu, de quem ficou tão mal pagado
    Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,
    Se não és pera dar-lhe honroso estado,
    É ele pera dar-te um Reino rico.
    Enquanto for o mundo rodeado
    Dos Apolíneos raios, eu te fico
    Que ele seja entre a gente ilustre e claro,
    E tu nisto culpado por avaro.

    26
    "Mas eis outro (cantava) intitulado
    Vem com nome real e traz consigo
    O filho, que no mar será ilustrado,
    Tanto como qualquer Romano antigo.
    Ambos darão com braço forte, armado,
    A Quíloa fértil, áspero castigo,
    Fazendo nela Rei leal e humano,
    Deitado fora o pérfido tirano.

    27
    "Também farão Mombaça, que se arreia
    De casas sumptuosas e edifícios,
    Co ferro e fogo seu queimada e feia,
    Em pago dos passados malefícios.
    Despois, na costa da Índia, andando cheia
    De lenhos inimigos e artifícios
    Contra os Lusos, com velas e com remos
    O mancebo Lourenço fará extremos.

    28
    "Das grandes naus do Samorim potente,
    Que encherão todo o mar, co a férrea pela,
    Que sai com trovão do cobre ardente,
    Fará pedaços leme, masto, vela.
    Despois, lançando arpéus ousadamente
    Na capitaina imiga, dentro nela
    Saltando o fará só com lança e espada
    De quatrocentos Mouros despejada.

    29
    "Mas de Deus a escondida providência
    (Que ela só sabe o bem de que se serve)
    O porá onde esforço nem prudência
    Poderá haver que a vida lhe reserve.
    Em Chaúl, onde em sangue e resistência
    O mar todo com fogo e ferro ferve,
    Lhe farão que com vida se não saia
    As armadas de Egipto e de Cambaia.

    30
    "Ali o poder de muitos inimigos
    (Que o grande esforço só com força rende),
    Os ventos que faltaram, e os perigos
    Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.
    Aqui ressurjam todos os Antigos,
    A ver o nobre ardor que aqui se aprende:
    Outro Ceva verão, que, espedaçado,
    Não sabe ser rendido nem domado.

    31
    "Com toda üa coxa fora, que em pedaços
    Lhe leva um cego tiro que passara,
    Se serve inda dos animosos braços
    E do grão coração que lhe ficara.
    Até que outro pelouro quebra os laços
    Com que co alma o corpo se liara:
    Ela, solta, voou da prisão fora
    Onde súbito se acha vencedora.

    32
    "Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,
    Na qual tu mereceste paz serena!
    Que o corpo, que em pedaços se apresenta,
    Quem o gerou, vingança já lhe ordena:
    Que eu ouço retumbar a grão tormenta,
    Que vem já dar a dura e eterna pena,
    De esperas, basiliscos e trabucos,
    A Cambaicos cruéis e Mamelucos.

    33
    "Eis vem o pai, com ânimo estupendo,
    Trazendo fúria e mágoa por antolhos,
    Com que o paterno amor lhe está movendo
    Fogo no coração, água nos olhos.
    A nobre ira lhe vinha prometendo
    Que o sangue fará dar pelos giolhos
    Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,
    Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.

    34
    "Qual o touro cioso, que se ensaia
    Pera a crua peleja, os cornos tenta
    No tronco dum carvalho ou alta faia
    E, o ar ferindo, as forças experimenta:
    Tal, antes que no seio de Cambaia
    Entre Francisco irado, na opulenta
    Cidade de Dabul a espada afia,
    Abaxando-lhe a túmida ousadia.

    35
    "E logo, entrando fero na enseada
    De Dio, ilustre em cercos e batalhas,
    Fará espalhar a fraca e grande armada
    De Calecu, que remos tem por malhas.
    A de Melique Iaz, acautelada,
    Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,
    Fará ir ver o frio e fundo assento,
    Secreto leito do húmido elemento.

    36
    "Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,
    A fúria esperará dos vingadores,
    Verá braços e pernas ir nadando
    Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
    Raios de fogo irão representando,
    No cego ardor, os bravos domadores.
    Quanto ali sentirão olhos e ouvidos
    É fumo, ferro, flamas e alaridos.

    37
    "Mas ah, que desta próspera vitória,
    Com que despois virá ao pátrio Tejo,
    Quási lhe roubará a famosa glória
    Um sucesso, que triste e negro vejo!
    O Cabo Tormentório, que a memória
    Cos ossos guardará, não terá pejo
    De tirar deste mundo aquele esprito,
    Que não tiraram toda a Índia e Egipto.

    38
    "Ali, Cafres selvagens poderão
    O que destros imigos não puderam;
    E rudos paus tostados sós farão
    O que arcos e pelouros não fizeram.
    Ocultos os juízos de Deus são;
    As gentes vãs, que não nos entenderam,
    Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,
    Sendo só providência de Deus pura.

    39
    "Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto
    (Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)
    Lá no mar de Melinde, em sangue tinto
    Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,
    Pelo Cunha também, que nunca extinto
    Será seu nome em todo o mar que lava
    As ilhas do Austro, e praias que se chamam
    De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!

    40
    "Esta luz é do fogo e das luzentes
    Armas com que Albuquerque irá amansando
    De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,
    Que refusam o jugo honroso e brando.
    Ali verão as setas estridentes
    Reciprocar-se, a ponta no ar virando
    Contra quem as tirou; que Deus peleja
    Por quem estende a fé da Madre Igreja.

    41
    "Ali do sal os montes não defendem
    De corrupção os corpos no combate,
    Que mortos pela praia e mar se estendem
    De Gerum, de Mazcate e Calaiate;
    Até que à força só de braço aprendem
    A abaxar a cerviz, onde se lhe ate
    Obrigação de dar o reino inico
    Das perlas de Barém tributo rico.

    42
    "Que gloriosas palmas tecer vejo
    Com que Vitória a fronte lhe coroa,
    Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,
    Toma a ilha ilustríssima de Goa!
    Despois, obedecendo ao duro ensejo,
    A deixa, e ocasião espera boa
    Com que a torne a tomar, que esforço e arte
    Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.

    43
    "Eis já sobr'ela torna e vai rompendo
    Por muros, fogo, lanças e pelouros,
    Abrindo com a espada o espesso e horrendo
    Esquadrão de Gentios e de Mouros.
    Irão soldados ínclitos fazendo
    Mais que liões famélicos e touros,
    Na luz que sempre celebrada e dina
    Será da Egípcia Santa Caterina.

    44
    "Nem tu menos fugir poderás deste,
    Posto que rica e posto que assentada
    Lá no grémio da Aurora, onde naceste,
    Opulenta Malaca nomeada.
    As setas venenosas que fizeste,
    Os crises com que já te vejo armada,
    Malaios namorados, Jaus valentes,
    Todos farás ao Luso obedientes."

    45
    Mais estanças cantara esta Sirena
    Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,
    Mas alembrou-lhe üa ira que o condena,
    Posto que a fama sua o mundo cerque.
    O grande Capitão, que o fado ordena
    Que com trabalhos glória eterna merque,
    Mais há-de ser um brando companheiro
    Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.

    46
    Mas em tempo que fomes e asperezas,
    Doenças, frechas e trovões ardentes,
    A sazão e o lugar, fazem cruezas
    Nos soldados a tudo obedientes,
    Parece de selváticas brutezas,
    De peitos inumanos e insolentes,
    Dar extremo suplício pela culpa
    Que a fraca humanidade e Amor desculpa.

    47
    Não será a culpa abominoso incesto
    Nem violento estupro em virgem pura,
    Nem menos adultério desonesto,
    Mas cüa escrava vil, lasciva e escura.
    Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
    Ou de usado a crueza fera e dura,
    Cos seus üa ira insana não refreia,
    Põe na fama alva noda negra e feia.

    48
    Viu Alexandre Apeles namorado
    Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,
    Não sendo seu soldado exprimentado,
    Nem vendo-se num cerco duro e urgente.
    Sentiu Ciro que andava já abrasado
    Araspas, de Panteia, em fogo ardente,
    Que ele tomara em guarda, e prometia
    Que nenhum mau desejo o venceria;

    49
    Mas, vendo o ilustre Persa que vencido
    Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,
    Levemente o perdoa, e foi servido
    Dele num caso grande, em recompensa.
    Per força, de Judita foi marido
    O férreo Balduíno; mas dispensa
    Carlos, pai dela, posto em causas grandes,
    Que viva e povoador seja de Frandes.

    50
    Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,
    De Soares cantava, que as bandeiras
    Faria tremular e pôr espanto
    Pelas roxas Arábicas ribeiras:
    --"Medina abominábil teme tanto,
    Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras
    Praias de Abássia; Barborá se teme
    Do mal de que o empório Zeila geme.

    51
    "A nobre ilha também de Taprobana,
    Já pelo nome antigo tão famosa
    Quanto agora soberba e soberana
    Pela cortiça cálida, cheirosa,
    Dela dará tributo à Lusitana
    Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,
    Vencendo se erguerá na torre erguida,
    Em Columbo, dos próprios tão temida.

    52
    "Também Sequeira, as ondas Eritreias
    Dividindo, abrirá novo caminho
    Pera ti, grande Império, que te arreias
    De seres de Candace e Sabá ninho.
    Maçuá, com cisternas de água cheias
    Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;
    E fará descobir remotas Ilhas,
    Que dão ao mundo novas maravilhas.

    53
    "Virá despois Meneses, cujo ferro
    Mais na Africa, que cá, terá provado;
    Castigará de Ormuz soberba o erro,
    Com lhe fazer tributo dar dobrado.
    Também tu, Gama, em pago do desterro
    Em que estás e serás inda tornado,
    Cos títulos de Conde e d'honras nobres
    Virás mandar a terra que descobres.

    54
    "Mas aquela fatal necessidade
    De quem ninguém se exime dos humanos,
    Ilustrado co a Régia dignidade,
    Te tirará do mundo e seus enganos.
    Outro Meneses logo, cuja idade
    É maior na prudência que nos anos,
    Governará; e fará o ditoso Henrique
    Que perpétua memória dele fique.

    55
    "Não vencerá somente os Malabares,
    Destruindo Panane com Coulete,
    Cometendo as bombardas, que, nos ares,
    Se vingam só do peito que as comete;
    Mas com virtudes, certo, singulares,
    Vence os imigos d'alma todos sete;
    De cobiça triunfa e incontinência,
    Que em tal idade é suma de excelência.

    56
    "Mas, despois que as Estrelas o chamarem,
    Sucederás, ó forte Mascarenhas;
    E, se injustos o mando te tomarem,
    Prometo-te que fama eterna tenhas.
    Pera teus inimigos confessarem
    Teu valor alto, o fado quer que venhas
    A mandar, mais de palmas coroado,
    Que de fortuna justa acompanhado.

    57
    "No reino de Bintão, que tantos danos
    Terá a Malaca muito tempo feitos,
    Num só dia as injúrias de mil anos
    Vingarás, co valor de ilustres peitos.
    Trabalhos e perigos inumanos,
    Abrolhos férreos mil, passos estreitos,
    Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:
    Tudo fico que rompas e sometas.

    58
    "Mas na Índia, cobiça e ambição,
    Que claramente põem aberto o rosto
    Contra Deus e Justiça, te farão
    Vitupério nenhum, mas só desgosto.
    Quem faz injúria vil e sem razão,
    Com forças e poder em que está posto,
    Não vence; que a vitória verdadeira
    É saber ter justiça nua e inteira.

  9. #109
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    octobre 2007
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    59
    "Mas, contudo, não nego que Sampaio
    Será, no esforço, ilustre e assinalado,
    Mostrando-se no mar um fero raio,
    Que de inimigos mil verá coalhado.
    Em Bacanor fará cruel ensaio
    No Malabar, pera que, amedrontado,
    Despois a ser vencido dele venha
    Cutiale, com quanta armada tenha.

    60
    "E não menos de Dio a fera frota,
    Que Chaúl temerá, de grande e ousada,
    Fará, co a vista só, perdida e rota,
    Por Heitor da Silveira e destroçada;
    Por Heitor Português, de quem se nota
    Que na costa Cambaica, sempre armada,
    Será aos Guzarates tanto dano,
    Quanto já foi aos Gregos o Troiano.

    61
    "A Sampaio feroz sucederá
    Cunha, que longo tempo tem o leme:
    De Chale as torres altas erguerá,
    Enquanto Dio ilustre dele treme;
    O forte Baçaim se lhe dará,
    Não sem sangue, porém, que nele geme
    Melique, porque à força só de espada
    A tranqueira soberba vê tomada.

    62
    "Trás este vem Noronha, cujo auspício
    De Dio os Rumes feros afugenta;
    Dio, que o peito e bélico exercício
    De António da Silveira bem sustenta.
    Fará em Noronha a morte o usado ofício,
    Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta
    No governo do Império, cujo zelo
    Com medo o Roxo Mar fará amarelo.

    63
    "Das mãos do teu Estêvão vem tomar
    As rédeas um, que já será ilustrado
    No Brasil, com vencer e castigar
    O pirata Francês, ao mar usado.
    Despois, Capitão-mor do Índico mar,
    O muro de Damão, soberbo e armado,
    Escala e primeiro entra a porta aberta,
    Que fogo e frechas mil terão coberta.

    64
    "A este o Rei Cambaico soberbíssimo
    Fortaleza dará na rica Dio,
    Por que contra o Mogor poderosíssimo
    Lhe ajude a defender o senhorio.
    Despois irá com peito esforçadíssimo
    A tolher que não passe o Rei gentio
    De Calecu, que assi com quantos veio
    O fará retirar, de sangue cheio.

    65
    "Destruirá a cidade Repelim,
    Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
    E despois, junto ao Cabo Comorim,
    üa façanha faz esclarecida:
    A frota principal do Samorim,
    Que destruir o mundo não duvida,
    Vencerá co furor do ferro e fogo;
    Em si verá Beadala o Márcio jogo.

    66
    "Tendo assi limpa a Índia dos imigos,
    Virá despois com ceptro a governá-Ia
    Sem que ache resistência nem perigos,
    Que todos tremem dele e nenhum fala.
    Só quis provar os ásperos castigos
    Baticalá, que vira já Beadala.
    De sangue e corpos mortos ficou cheia
    E de fogo e trovões desfeita e feia.

    67
    "Este será Martinho, que de Marte
    O nome tem co as obras derivado;
    Tanto em armas ilustre em toda parte,
    Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
    Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
    Português terá sempre levantado,
    Conforme sucessor ao sucedido,
    Que um ergue Dio, outro o defende erguido.

    68
    "Persas feroces, Abassis e Rumes,
    Que trazido de Roma o nome têm,
    Vários de gestos, vários de costumes
    (Que mil nações ao cerco feras vêm),
    Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes
    Porque uns poucos a terra lhe detêm.
    Em sangue Português, juram, descridos,
    De banhar os bigodes retorcidos.

    69
    "Basiliscos medonhos e liões,
    Trabucos feros, minas encobertas,
    Sustenta Mascarenhas cos barões
    Que tão ledos as mortes têm por certas;
    Até que, nas maiores opressões,
    Castro libertador, fazendo ofertas
    Das vidas de seus filhos, quer que fiquem
    Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.

    70
    "Fernando, um deles, ramo da alta pranta,
    Onde o violento fogo, com ruido,
    Em pedaços os muros no ar levanta,
    Será ali arrebatado e ao Céu subido.
    Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta
    E tem o caminho húmido impedido,
    Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,
    Os ventos e despois os inimigos.

    71
    "Eis vem despois o pai, que as ondas corta
    Co restante da gente Lusitana,
    E com força e saber, que mais importa,
    Batalha dá felice e soberana.
    Uns, paredes subindo, escusam porta;
    Outros a abrem na fera esquadra insana.
    Feitos farão tão dinos de memória
    Que não caibam em verso ou larga história.

    72
    "Este, despois, em campo se apresenta,
    Vencedor forte e intrépido, ao possante
    Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta
    Da fera multidão quadrupedante.
    Não menos suas terras mal sustenta
    O Hidalcão, do braço triunfante
    Que castigando vai Dabul na costa;
    Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.

    73
    "Estes e outros Barões, por várias partes,
    Dinos todos de fama e maravilha,
    Fazendo-se na terra bravos Martes,
    Virão lograr os gostos desta Ilha,
    Varrendo triunfantes estandartes
    Pelas ondas que corta a aguda quilha;
    E acharão estas Ninfas e estas mesas,
    Que glórias e honras são de árduas empresas."

    74
    Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,
    Com sonoroso aplauso, vozes davam,
    Com que festejam as alegres vodas
    Que com tanto prazer se celebravam.
    --"Por mais que da Fortuna andem as rodas
    (Nüa cônsona voz todas soavam),
    Não vos hão-de faltar, gente famosa,
    Honra, valor e fama gloriosa."

    75
    Despois que a corporal necessidade
    Se satisfez do mantimento nobre,
    E na harmonia e doce suavidade
    Viram os altos feitos que descobre,
    Tétis, de graça ornada e gravidade,
    Pera que com mais alta glória dobre
    As festas deste alegre e claro dia,
    Pera o felice Gama assi dizia:

    76
    --"Faz-te mercê, barão, a Sapiência
    Suprema de, cos olhos corporais,
    Veres o que não pode a vã ciência
    Dos errados e míseros mortais.
    Sigue-me firme e forte, com prudência,
    Por este monte espesso, tu cos mais."
    Assi lhe diz e o guia por um mato
    Árduo, difícil, duro a humano trato.

    77
    Não andam muito que no erguido cume
    Se acharam, onde um campo se esmaltava
    De esmeraldas, rubis, tais que presume
    A vista que divino chão pisava.
    Aqui um globo vêm no ar, que o lume
    Claríssimo por ele penetrava,
    De modo que o seu centro está evidente,
    Como a sua superfícia, claramente.

    78
    Qual a matéria seja não se enxerga,
    Mas enxerga-se bem que está composto
    De vários orbes, que a Divina verga
    Compôs, e um centro a todos só tem posto.
    Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
    Nunca s'ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
    Por toda a parte tem; e em toda a parte
    Começa e acaba, enfim, por divina arte,

    79
    Uniforme, perfeito, em si sustido,
    Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
    Vendo o Gama este globo, comovido
    De espanto e de desejo ali ficou.
    Diz-lhe a Deusa:--"O transunto, reduzido
    Em pequeno volume, aqui te dou
    Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
    Por onde vás e irás e o que desejas.

    80
    "Vês aqui a grande máquina do Mundo,
    Etérea e elemental, que fabricada
    Assi foi do Saber, alto e profundo,
    Que é sem princípio e meta limitada.
    Quem cerca em derredor este rotundo
    Globo e sua superfícia tão limada,
    É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
    Que a tanto o engenho humano não se estende.

    81
    "Este orbe que, primeiro, vai cercando
    Os outros mais pequenos que em si tem,
    Que está com luz tão clara radiando
    Que a vista cega e a mente vil também,
    Empíreo se nomeia, onde logrando
    Puras almas estão daquele Bem
    Tamanho, que ele só se entende e alcança,
    De quem não há no mundo semelhança.

    82
    "Aqui, só verdadeiros, gloriosos
    Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
    Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
    Fingidos de mortal e cego engano.
    Só pera fazer versos deleitosos
    Servimos; e, se mais o trato humano
    Nos pode dar, é só que o nome nosso
    Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

    83
    "E também, porque a santa Providência,
    Que em Júpiter aqui se representa,
    Por espíritos mil que têm prudência
    Governa o Mundo todo que sustenta
    (Ensina-lo a profética ciência,
    Em muitos dos exemplos que apresenta);
    Os que são bons, guiando, favorecem,
    Os maus, em quanto podem, nos empecem;

    84
    "Quer logo aqui a pintura que varia
    Agora deleitando, ora ensinando,
    Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
    A seus Deuses já dera, fabulando;
    Que os Anjos de celeste companhia
    Deuses o sacro verso está chamando,
    Nem nega que esse nome preminente
    Também aos maus se dá, mas falsamente.

    85
    "Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
    Causas obra no Mundo, tudo manda.
    E tornando a contar-te das profundas
    Obras da Mão Divina veneranda,
    Debaxo deste círculo onde as mundas
    Almas divinas gozam, que não anda,
    Outro corre, tão leve e tão ligeiro
    Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.

    86
    "Com este rapto e grande movimento
    Vão todos os que dentro tem no seio;
    Por obra deste, o Sol, andando a tento,
    O dia e noite faz, com curso alheio.
    Debaxo deste leve, anda outro lento,
    Tão lento e sojugado a duro freio,
    Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,
    Duzentos cursos faz, dá ele um passo.

    87
    "Olha estoutro debaxo, que esmaltado
    De corpos lisos anda e radiantes,
    Que também nele tem curso ordenado
    E nos seus axes correm cintilantes.
    Bem vês como se veste e faz ornado
    Co largo Cinto d, ouro, que estelantes
    Animais doze traz afigurados,
    Apousentos de Febo limitados.

    88
    "Olha por outras partes a pintura
    Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:
    Olha a Carreta, atenta a Cinosura,
    Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;
    Vê de Cassiopeia a fermosura
    E do Orionte o gesto turbulento;
    Olha o Cisne morrendo que suspira,
    A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.

    89
    "Debaxo deste grande Firmamento,
    Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
    Júpiter logo faz o movimento,
    E Marte abaxo, bélico inimigo;
    O claro Olho do céu, no quarto assento,
    E Vénus, que os amores traz consigo;
    Mercúrio, de eloquência soberana;
    Com três rostos, debaxo vai Diana.

    90
    "Em todos estes orbes, diferente
    Curso verás, nuns grave e noutros leve;
    Ora fogem do Centro longamente,
    Ora da Terra estão caminho breve,
    Bem como quis o Padre omnipotente,
    Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
    Os quais verás que jazem mais a dentro
    E tem co Mar a Terra por seu centro.

    91
    "Neste centro, pousada dos humanos,
    Que não somente, ousados, se contentam
    De sofrerem da terra firme os danos,
    Mas inda o mar instábil exprimentam,
    Verás as várias partes, que os insanos
    Mares dividem, onde se apousentam
    Várias nações que mandam vários Reis,
    Vários costumes seus e várias leis.

    92
    "Vês Europa Cristã, mais alta e clara
    Que as outras em polícia e fortaleza.
    Vês África, dos bens do mundo avara,
    Inculta e toda cheia de bruteza;
    Co Cabo que até'aqui se vos negara,
    Que assentou pera o Austro a Natureza.
    Olha essa terra toda, que se habita
    Dessa gente sem Lei, quási infinita.

    93
    "Vê do Benomotapa o grande império,
    De selvática gente, negra e nua,
    Onde Gonçalo morte e vitupério
    Padecerá, pola Fé santa sua.
    Nace por este incógnito Hemispério
    O metal por que mais a gente sua.
    Vê que do lago donde se derrama
    O Nilo, também vindo está Cuama.

    94
    "Olha as casas dos negros, como estão
    Sem portas, confiados, em seus ninhos,
    Na justiça real e defensão
    E na fidelidade dos vizinhos;
    Olha deles a bruta multidão,
    Qual bando espesso e negro de estorninhos,
    Combaterá em Sofala a fortaleza, Que
    defenderá Nhaia com destreza.

    95
    "Olha lá as alagoas donde o Nilo
    Nace, que não souberam os antigos;
    Vê-lo rega, gerando o crocodilo,
    Os povos Abassis, de Crista amigos;
    Olha como sem muros (novo estilo)
    Se defendem milhor dos inimigos;
    Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,
    Que ora dos naturais Nobá se chama.

    96
    "Nesta remota terra um filho teu
    Nas armas contra os Turcos será claro;
    Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;
    Mas contra o fim fatal não há reparo.
    Vê cá a costa do mar, onde te deu
    Melinde hospício gasalhoso e caro;
    O Rapto rio nota, que o romance
    Da terra chama Obi; entra em Quilmance.

    97
    "O Cabo vê já Arómata chamado,
    E agora Guardafú, dos moradores,
    Onde começa a boca do afamado
    Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
    Este como limite está lançado
    Que divide Asia de Africa; e as milhores
    Povoações que a parte Africa tem
    Maçuá são, Arquico e Suaquém.

    98
    "Vês o extremo Suez, que antigamente
    Dizem que foi dos Héroas a cidade
    (Outros dizem que Arsínoe), e ao presente
    Tem das frotas do Egipto a potestade.
    Olha as águas nas quais abriu patente
    Estrada o grão Mousés na antiga idade.
    Ásia começa aqui, que se apresenta
    Em terras grande, em reinos opulenta.

    99
    "Olha o monte Sinai, que se ennobrece
    Co sepulcro de Santa Caterina;
    Olha Toro e Gidá, que lhe falece
    Água das fontes, doce e cristalina;
    Olha as portas do Estreito, que fenece
    No reino da seca Ádem, que confina
    Com a serra d'Arzira, pedra viva,
    Onde chuva dos céus se não deriva.

    100
    "Olha as Arábias três, que tanta terra
    Tomam, todas da gente vaga e baça,
    Donde vêm os cavalos pera a guerra,
    Ligeiros e feroces, de alta raça;
    Olha a costa que corrre, até que cera
    Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
    O Cabo que co nome se apelida
    Da cidade Fartaque, ali sabida.

    101
    "Olha Dófar, insigne porque manda
    O mais cheiroso incenso pera as aras;
    Mas atenta: já cá destoutra banda
    De Roçalgate, e praias sempre avaras,
    Começa o reino Ormuz, que todo se anda
    Pelas ribeiras que inda serão claras
    Quando as galés do Turco e fera armada
    Virem de Castelbranco nua a espada.

    102
    "Olha o Cabo Asaboro, que chamado
    Agora é Moçandão, dos navegantes;
    Por aqui entra o lago que é fechado
    De Arábia e Pérsias terras abundantes.
    Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado
    Tem das suas perlas ricas, e imitantes
    A cor da Aurora; e vê na água salgada
    Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.

    103
    "Olha da grande Pérsia o império nobre,
    Sempre posto no campo e nos cavalos,
    Que se injuria de usar fundido cobre
    E de não ter das armas sempre os calos.
    Mas vê a ilha Gerum, como descobre
    O que fazem do tempo os intervalos,
    Que da cidade Armuza, que ali esteve,
    Ela o nome despois e a glória teve.

    104
    "Aqui de Dom Filipe de Meneses
    Se mostrará a virtude, em armas clara,
    Quando, com muito poucos Portugueses,
    Os muitos Párseos vencerá de Lara.
    Virão provar os golpes e reveses
    De Dom Pedro de Sousa, que provara
    Já seu braço em Ampaza, que deixada
    Terá por terra, à força só de espada.

    105
    "Mas deixemos o Estreito e o conhecido
    Cabo de Jasque, dito já Carpela,
    Com todo o seu terreno mal querido
    Da Natura e dos dões usados dela;
    Carmânia teve já por apelido.
    Mas vês o fermoso Indo, que daquela
    Altura nace, junto à qual, também
    Doutra altura correndo o Gange vem?

    106
    "Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,
    E de Jáquete a íntima enseada;
    Do mar a enchente súbita, grandíssima,
    E a vazante, que foge apressurada.
    A terra de Cambaia vê, riquíssima,
    Onde do mar o seio faz entrada;
    Cidades outras mil, que vou passando,
    A vós outros aqui se estão guardando.

    107
    "Vês corre a costa célebre Indiana
    Pera o Sul, até o Cabo Comori,
    Já chamado Cori, que Taprobana
    (Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
    Por este mar a gente Lusitana,
    Que com armas virá despois de ti,
    Terá vitórias, terras e cidades,
    Nas quais hão-de viver muitas idades.

    108
    "As províncias que entre um e o outro rio
    Vês, com várias nações, são infinitas:
    Um reino Mahometa, outro Gentio,
    A quem tem o Demónio leis escritas.
    Olha que de Narsinga o senhorio
    Tem as relíquias santas e benditas
    Do corpo de Tomé, barão sagrado,
    Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.

    109
    "Aqui a cidade foi que se chamava
    Meliapor, fermosa, grande e rica;
    Os Ídolos antigos adorava
    Como inda agora faz a gente inica.
    Longe do mar naquele tempo estava,
    Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
    Tomé vinha prègando, e já passara
    Províncias mil do mundo, que ensinara.

    110
    "Chegado aqui, pregando e junto dando
    A doentes saúde, a mortos vida,
    Acaso traz um dia o mar, vagando,
    Um lenho de grandeza desmedida.
    Deseja o Rei, que andava edificando,
    Fazer dele madeira; e não duvida
    Poder tirá-lo a terra, com possantes
    Forças d' homens, de engenhos, de alifantes.

    111
    "Era tão grande o peso do madeiro
    Que, só pera abalar-se, nada abasta;
    Mas o núncio de Cristo verdadeiro
    Menos trabalho em tal negócio gasta:
    Ata o cordão que traz, por derradeiro,
    No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta
    Pera onde faça um sumptuoso templo
    Que ficasse aos futuros por exemplo.

    112
    "Sabia bem que se com fé formada
    Mandar a um monte surdo que se mova,
    Que obedecerá logo à voz sagrada,
    Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
    A gente ficou disto alvoraçada;
    Os Brâmenes o têm por cousa nova;
    Vendo os milagres, vendo a santidade,
    Hão medo de perder autoridade.

    113
    "São estes sacerdotes dos Gentios
    Em quem mais penetrado tinha enveja;
    Buscam maneiras mil, buscam desvios,
    Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
    O principal, que ao peito traz os fios,
    Um caso horrendo faz, que o mundo veja
    Que inimiga não há, tão dura e fera,
    Como a virtude falsa, da sincera.

    114
    "Um filho próprio mata, e logo acusa
    De homicídio Tomé, que era inocente;
    Dá falsas testemunhas, como se usa;
    Condenaram-no a morte brevemente.
    O Santo, que não vê milhor escusa
    Que apelar pera o Padre omnipotente,
    Quer, diante do Rei e dos senhores,
    Que se faça um milagre dos maiores.

    115
    "O corpo morto manda ser trazido,
    Que res[s]ucite e seja perguntado
    Quem foi seu matador, e será crido
    Por testemunho, o seu, mais aprovado.
    Viram todos o moço vivo, erguido,
    Em nome de Jesu crucificado:
    Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
    E descobre seu pai ser homicida.

    116
    "Este milagre fez tamanho espanto
    Que o Rei se banha logo na água santa,
    E muitos após ele; um beija o manto,
    Outro louvor do Deus de Tomé canta.
    Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
    Com seu veneno os morde enveja tanta,
    Que, persuadindo a isso o povo rudo,
    Determinam matá-lo, em fim de tudo.

    117
    "Um dia que pregando ao povo estava,
    Fingiram entre a gente um arruído.
    (Já Cristo neste tempo lhe ordenava
    Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
    A multidão das pedras que voava
    No Santo dá, já a tudo oferecido;
    Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
    Com crua lança o peito lhe atravessa.

    118
    "Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
    Chorou-te toda a terra que pisaste;
    Mais te choram as almas que vestindo
    Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
    Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
    Te recebem na glória que ganhaste.
    Pedimos-te que a Deus ajuda peças
    Com que os teus Lusitanos favoreças.

    119
    "E vós outros que os nomes usurpais
    De mandados de Deus, como Tomé,
    Dizei: se sois mandados, como estais
    Sem irdes a pregar a santa Fé?
    Olhai que, se sois Sal e vos danais
    Na pátria, onde profeta ninguém é,
    Com que se salgarão em nossos dias
    (Infiéis deixo) tantas heresias?

    120
    "Mas passo esta matéria perigosa
    E tornemos à costa debuxada.
    Já com esta cidade tão famosa
    Se faz curva a Gangética enseada;
    Corre Narsinga, rica e poderosa;
    Corre Orixa, de roupas abastada;
    No fundo da enseada, o ilustre rio
    Ganges vem ao salgado senhorio;

    121
    "Ganges, no qual os seus habitadores
    Morrem banhados, tendo por certeza
    Que, inda que sejam grandes pecadores,
    Esta água santa os lava e dá pureza.
    Vê Catigão, cidade das milhores
    De Bengala província, que se preza
    De abundante. Mas olha que está posta
    Pera o Austro, daqui virada, a costa.

    122
    "Olha o reino Arracão; olha o assento
    De Pegu, que já monstros povoaram,
    Monstros filhos do feio ajuntamento
    Düa mulher e um cão, que sós se acharam.
    Aqui soante arame no instrumento
    Da geração costumam, o que usaram
    Por manha da Rainha que, inventando
    Tal uso, deitou fora o error nefando.

    123
    "Olha Tavai cidade, onde começa
    De Sião largo o império tão comprido;
    Tenassari, Quedá, que é só cabeça
    Das que pimenta ali têm produzido.
    Mais avante fareis que se conheça
    Malaca por empório ennobrecido,
    Onde toda a província do mar grande
    Suas mercadorias ricas mande.

    124
    "Dizem que desta terra co as possantes
    Ondas o mar, entrando, dividiu
    A nobre ilha Samatra, que já d'antes
    Juntas ambas a gente antiga viu.
    Quersoneso foi dita; e das prestantes
    Veias d'ouro que a terra produziu,
    'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram;
    Alguns que fosse Ofir imaginaram.

    125
    "Mas, na ponta da terra, Cingapura
    Verás, onde o caminho às naus se estreita;
    Daqui tornando a costa à Cinosura,
    Se encurva e pera a Aurora se endireita.
    Vês Pam, Patane, reinos, e a longura
    De Sião, que estes e outros mais sujeita;
    Olha o rio Menão, que se derrama
    Do grande lago que Chiamai se chama.

    126
    Vês neste grão terreno os diferentes
    Nomes de mil nações, nunca sabidas:
    Os Laos, em terra e número potentes;
    Avás, Bramás, por serras tão compridas;
    Vê nos remotos montes outras gentes,
    Que Gueos se chamam, de selvages vidas;
    Humana carne comem, mas a sua
    Pintam com ferro ardente, usança crua.

    127
    "Vês, passa por Camboja Mecom rio,
    Que capitão das águas se interpreta;
    Tantas recebe d' outro só no Estio,
    Que alaga os campos largos e inquieta;
    Tem as enchentes quais o Nilo frio;
    A gente dele crê, como indiscreta,
    Que pena e glória têm, despois de morte,
    Os brutos animais de toda sorte.

    128
    "Este receberá, plácido e brando,
    No seu regaço os Cantos que molhados
    Vêm do naufrágio triste e miserando,
    Dos procelosos baxos escapados,
    Das fomes, dos perigos grandes, quando
    Será o injusto mando executado
    Naquele cuja Lira sonorosa
    Será mais afamada que ditosa.

    129
    "Vês, corre a costa que Champá se chama,
    Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
    Vês Cauchichina está, de escura fama,
    E de Ainão vê a incógnita enseada;
    Aqui o soberbo Império, que se afama
    Com terras e riqueza não cuidada,
    Da China corre, e ocupa o senhorio
    Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.

    130
    "Olha o muro e edifício nunca crido,
    Que entre um império e o outro se edifica,
    Certíssimo sinal, e conhecido,
    Da potência real, soberba e rica.
    Estes, o Rei que têm, não foi nacido
    Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,
    Mas elegem aquele que é famoso
    Por cavaleiro, sábio e virtuoso.

    131
    "Inda outra muita terra se te esconde
    Até que venha o tempo de mostrar-se;
    Mas não deixes no mar as Ilhas onde
    A Natureza quis mais afamar-se:
    Esta, meia escondida, que responde
    De longe à China, donde vem buscar-se,
    É Japão, onde nace a prata fina,
    Que ilustrada será co a Lei divina.

    132
    "Olha cá pelos mares do Oriente
    Ás infinitas Ilhas espalhadas:
    Vê Tidore e Ternate, co fervente
    Cume, que lança as flamas ondeadas.
    As árvores verás do cravo ardente,
    Co sangue Português inda compradas.
    Aqui há as áureas aves, que não decem
    Nunca à terra e só mortas aparecem.

    133
    "Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam
    Da vária cor que pinta o roxo fruto;
    Às aves variadas, que ali saltam,
    Da verde noz tomando seu tributo.
    Olha também Bornéu, onde não faltam
    Lágrimas no licor coalhado e enxuto
    Das árvores, que cânfora é chamado,
    Com que da Ilha o nome é celebrado.

    134

  10. #110
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
    Date d'inscription
    octobre 2007
    Messages
    3 626

    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    134
    "Ali também Timor, que o lenho manda
    Sândalo, salutífero e cheiroso;
    Olha a Sunda, tão larga que üa banda
    Esconde pera o Sul dificultoso;
    A gente do Sertão, que as terras anda,
    Um rio diz que tem miraculoso,
    Que, por onde ele só, sem outro, vai,
    Converte em pedra o pau que nele cai.

    135
    "Vê naquela que o tempo tornou Ilha,
    Que também flamas trémulas vapora,
    A fonte que óleo mana, e a maravilha
    Do cheiroso licor que o tronco chora,
    --Cheiroso, mais que quanto estila a filha
    De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
    E vê que, tendo quanto as outras têm,
    Branda seda e fino ouro dá também.

    136
    "Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta
    Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
    Os naturais o têm por cousa santa,
    Pola pedra onde está a pegada humana.
    Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
    No profundo das águas, soberana,
    Cujo pomo contra o veneno urgente
    É tido por antídoto excelente.

    137
    "Verás defronte estar do Roxo Estreito
    Socotorá, co amaro aloé famosa;
    Outras ilhas, no mar também sujeito
    A vós, na costa de África arenosa,
    Onde sai do cheiro mais perfeito
    A massa, ao mundo oculta e preciosa.
    De São Lourenço vê a Ilha afamada,
    Que Madagáscar é dalguns chamada.

    138
    "Eis aqui as novas partes do Oriente
    Que vós outros agora ao mundo dais,
    Abrindo a porta ao vasto mar patente,
    Que com tão forte peito navegais.
    Mas é também razão que, no Ponente,
    Dum Lusitano um feito inda vejais,
    Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
    Caminho há-de fazer nunca cuidado.

    139
    "Vedes a grande terra que contina
    Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
    Que soberba a fará a luzente mina
    Do metal que a cor tem do louro Apolo.
    Castela, vossa amiga, será dina
    De lançar-lhe o colar ao rudo colo.
    Varias províncias tem de várias gentes,
    Em ritos e costumes, diferentes.

    140
    "Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
    Parte também, co pau vermelho nota;
    De Santa Cruz o nome lhe poreis;
    Descobri-la-á a primeira vossa frota.
    Ao longo desta costa, que tereis,
    Irá buscando a parte mais remota
    O Magalhães, no feito, com verdade,
    Português, porém não na lealdade.

    141
    "Dês que passar a via mais que meia
    Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
    Düa estatura quási giganteia
    Homens verá, da terra ali vizinha;
    E mais avante o Estreito que se arreia
    Co nome dele agora, o qual caminha
    Pera outro mar e terra que fica onde
    Com suas frias asas o Austro a esconde.

    142
    "Até'aqui Portugueses concedido
    Vos é saberdes os futuros feitos
    Que, pelo mar que já deixais sabido,
    Virão fazer barões de fortes peitos.
    Agora, pois que tendes aprendido
    Trabalhos que vos façam ser aceitos
    As eternas esposas e fermosas,
    Que coroas vos tecem gloriosas,

    143
    "Podeis-vos embarcar, que tendes vento
    E mar tranquilo, pera a pátria amada."
    Assi lhe disse; e logo movimento
    Fazem da Ilha alegre e namorada.
    Levam refresco e nobre mantimento;
    Levam a companhia desejada
    Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
    Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.

    144
    Assi foram cortando o mar sereno,
    Com vento sempre manso e nunca irado,
    Até que houveram vista do terreno
    Em que naceram, sempre desejado.
    Entraram pela foz do Tejo ameno,
    E à sua pátria e Rei temido e amado
    O prémio e glória dão por que mandou,
    E com títulos novos se ilustrou.

    145
    Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
    Destemperada e a voz enrouquecida,
    E não do canto, mas de ver que venho
    Cantar a gente surda e endurecida.
    O favor com que mais se acende o engenho
    Não no dá a pátria, não, que está metida
    No gosto da cobiça e na rudeza
    Düa austera, apagada e vil tristeza.

    146
    E não sei por que influxo de Destino
    Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
    Que os ânimos levanta de contino
    A ter pera trabalhos ledo o rosto.
    Por isso vós, ó Rei, que por divino
    Conselho estais no régio sólio posto,
    Olhai que sois (e vede as outras gentes)
    Senhor só de vassalos excelentes.

    147
    Olhai que ledos vão, por várias vias,
    Quais rompentes liões e bravos touros,
    Dando os corpos a fomes e vigias,
    A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
    A quentes regiões, a plagas frias,
    A golpes de Idolátras e de Mouros,
    A perigos incógnitos do mundo,
    A naufrágios, a pexes, ao profundo.

    148
    Por vos servir, a tudo aparelhados;
    De vós tão longe, sempre obedientes;
    A quaisquer vossos ásperos mandados,
    Sem dar reposta, prontos e contentes.
    Só com saber que são de vós olhados,
    Demónios infernais, negros e ardentes,
    Cometerão convosco, e não duvido
    Que vencedor vos façam, não vencido.

    149
    Favorecei-os logo, e alegrai-os
    Com a presença e leda humanidade;
    De rigorosas leis desalivai-os,
    Que assi se abre o caminho à santidade.
    Os mais exprimentados levantai-os,
    Se, com a experiência, têm bondade
    Pera vosso conselho, pois que sabem
    O como, o quando, e onde as cousas cabem.

    150
    Todos favorecei em seus ofícios,
    Segundo têm das vidas o talento;
    Tenham Religiosos exercícios
    De rogarem, por vosso regimento,
    Com jejuns, disciplina, pelos vícios
    Comuns; toda ambição terão por vento,
    Que o bom Religioso verdadeiro
    Glória vã não pretende nem dinheiro.

    151
    Os Cavaleiros tende em muita estima,
    Pois com seu sangue intrépido e fervente
    Estendem não sòmente a Lei de cima,
    Mas inda vosso Império preminente.
    Pois aqueles que a tão remoto clima
    Vos vão servir, com passo diligente,
    Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
    E (o que é mais) os trabalhos excessivos.

    152
    Fazei, Senhor, que nunca os admirados
    Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
    Possam dizer que são pera mandados,
    Mais que pera mandar, os Portugueses.
    Tomai conselho só d'exprimentados
    Que viram largos anos, largos meses,
    Que, posto que em cientes muito cabe.
    Mais em particular o experto sabe.

    153
    De Formião, filósofo elegante,
    Vereis como Anibal escarnecia,
    Quando das artes bélicas, diante
    Dele, com larga voz tratava e lia.
    A disciplina militar prestante
    Não se aprende, Senhor, na fantasia,
    Sonhando, imaginando ou estudando,
    Senão vendo, tratando e pelejando.

    154
    Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
    De vós não conhecido nem sonhado?
    Da boca dos pequenos sei, contudo,
    Que o louvor sai às vezes acabado.
    Tem me falta na vida honesto estudo,
    Com longa experiência misturado,
    Nem engenho, que aqui vereis presente,
    Cousas que juntas se acham raramente.

    155
    Pera servir-vos, braço às armas feito,
    Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
    Só me falece ser a vós aceito,
    De quem virtude deve ser prezada.
    Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
    Dina empresa tomar de ser cantada,
    Como a pres[s]aga mente vaticina
    Olhando a vossa inclinação divina,

    156
    Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
    A vista vossa tema o monte Atlante,
    Ou rompendo nos campos de Ampelusa
    Os muros de Marrocos e Trudante,
    A minha já estimada e leda Musa
    Fico que em todo o mundo de vós cante,
    De sorte que Alexandro em vós se veja,
    Sem à dita de Aquiles ter enveja.

    ---------------------oOo---------------------


    Final de Os Lusíadas

    DE LUIZ VAZ DE CAMOES
    O MAIOR POETE HISTORIADOR DO SEU TEMPO QUE PORTUGAL
    PODE TER

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