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Discussion: PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

  1. #91
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    Luís Vaz de Camões
    Os Lusíadas

    Canto Primeiro

    1
    As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram;

    2
    E também as memórias gloriosas
    Daqueles Reis, que foram dilatando
    A Fé, o Império, e as terras viciosas
    De África e de Ásia andaram devastando;
    E aqueles, que por obras valerosas
    Se vão da lei da morte libertando;
    Cantando espalharei por toda parte,
    Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

    3
    Cessem do sábio Grego e do Troiano
    As navegações grandes que fizeram;
    Cale-se de Alexandro e de Trajano
    A fama das vitórias que tiveram;
    Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
    A quem Neptuno e Marte obedeceram:
    Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.

    4
    E vós, Tágides minhas, pois criado
    Tendes em mim um novo engenho ardente,
    Se sempre em verso humilde celebrado
    Foi de mim vosso rio alegremente,
    Dai-me agora um som alto e sublimado,
    Um estilo grandíloquo e corrente,
    Porque de vossas águas, Febo ordene
    Que não tenham inveja às de Hipoerene.

    5
    Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
    E não de agreste avena ou frauta ruda,
    Mas de tuba canora e belicosa,
    Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
    Dai-me igual canto aos feitos da famosa
    Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
    Que se espalhe e se cante no universo,
    Se tão sublime preço cabe em verso.

    6
    E vós, ó bem nascida segurança
    Da Lusitana antígua liberdade,
    E não menos certíssima esperança
    De aumento da pequena Cristandade;
    Vós, ó novo temor da Maura lança,
    Maravilha fatal da nossa idade,
    Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
    Para do mundo a Deus dar parte grande;

    7
    Vós, tenro e novo ramo florescente
    De uma árvore de Cristo mais amada
    Que nenhuma nascida no Ocidente,
    Cesárea ou Cristianíssima chamada;
    (Vede-o no vosso escudo, que presente
    Vos amostra a vitória já passada,
    Na qual vos deu por armas, e deixou
    As que Ele para si na Cruz tomou)

    8
    Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
    O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
    Vê-o também no meio do Hemisfério,
    E quando desce o deixa derradeiro;
    Vós, que esperamos jugo e vitupério
    Do torpe Ismaelita cavaleiro,
    Do Turco oriental, e do Gentio,
    Que inda bebe o licor do santo rio;

    9
    Inclinai por um pouco a majestade,
    Que nesse tenro gesto vos contemplo,
    Que já se mostra qual na inteira idade,
    Quando subindo ireis ao eterno templo;
    Os olhos da real benignidade
    Ponde no chão: vereis um novo exemplo
    De amor dos pátrios feitos valerosos,
    Em versos divulgado numerosos.

    10
    Vereis amor da pátria, não movido
    De prémio vil, mas alto e quase eterno:
    Que não é prémio vil ser conhecido
    Por um pregão do ninho meu paterno.
    Ouvi: vereis o nome engrandecido
    Daqueles de quem sois senhor superno,
    E julgareis qual é mais excelente,
    Se ser do mundo Rei, se de til gente.

    11
    Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
    Fantásticas, fingidas, mentirosas,
    Louvar os vossos, como nas estranhas
    Musas, de engrandecer-se desejosas:
    As verdadeiras vossas são tamanhas,
    Que excedem as sonhadas, fabulosas;
    Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
    E Orlando, inda que fora verdadeiro,

    12
    Por estes vos darei um Nuno fero,
    Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
    Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
    A cítara para eles só cobiço.
    Pois pelos doze Pares dar-vos quero
    Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
    Dou-vos também aquele ilustre Gama,
    Que para si de Eneias toma a fama.

    13
    Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
    Ou de César, quereis igual memória,
    Vede o primeiro Afonso, cuja lança
    Escura faz qualquer estranha glória;
    E aquele que a seu Reino a segurança
    Deixou com a grande e próspera vitória;
    Outro Joane, invicto cavaleiro,
    O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

    14
    Nem deixarão meus versos esquecidos
    Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
    Fizeram, só por armas tão subidos,
    Vossa bandeira sempre vencedora:
    Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
    Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
    Albuquerque terríbil, Castro forte,
    E outros em quem poder não teve a morte.

    15
    E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
    Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
    Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
    Dareis matéria a nunca ouvido canto.
    Comecem a sentir o peso grosso
    (Que pelo mundo todo faça espanto)
    De exércitos e feitos singulares,
    De África as terras, e do Oriente os marços,

    16
    Em vós os olhos tem o Mouro frio,
    Em quem vê seu exício afigurado;
    Só com vos ver o bárbaro Gentio
    Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
    Tethys todo o cerúleo senhorio
    Tem para vós por dote aparelhado;
    Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
    Deseja de comprar-vos para genro.

    17
    Em vós se vêm da olímpica morada
    Dos dois avós as almas cá famosas,
    Uma na paz angélica dourada,
    Outra pelas batalhas sanguinosas;
    Em vós esperam ver-se renovada
    Sua memória e obras valerosas;
    E lá vos tem lugar, no fim da idade,
    No templo da suprema Eternidade.

    18
    Mas enquanto este tempo passa lento
    De regerdes os povos, que o desejam,
    Dai vós favor ao novo atrevimento,
    Para que estes meus versos vossos sejam;
    E vereis ir cortando o salso argento
    Os vossos Argonautas, por que vejam
    Que são vistos de vós no mar irado,
    E costumai-vos já a ser invocado.

    19
    Já no largo Oceano navegavam,
    As inquietas ondas apartando;
    Os ventos brandamente respiravam,
    Das naus as velas côncavas inchando;
    Da branca escuma os mares se mostravam
    Cobertos, onde as proas vão cortando
    As marítimas águas consagradas,
    Que do gado de Próteo são cortadas

    20
    Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
    Onde o governo está da humana gente,
    Se ajuntam em concílio glorioso
    Sobre as cousas futuras do Oriente.
    Pisando o cristalino Céu formoso,
    Vêm pela Via-Láctea juntamente,
    Convocados da parte do Tonante,
    Pelo neto gentil do velho Atlante.

    21
    Deixam dos sete Céus o regimento,
    Que do poder mais alto lhe foi dado,
    Alto poder, que só co'o pensamento
    Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
    Ali se acharam juntos num momento
    Os que habitam o Arcturo congelado,
    E os que o Austro tem, e as partes onde
    A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

    22
    Estava o Padre ali sublime e dino,
    Que vibra os feros raios de Vulcano,
    Num assento de estrelas cristalino,
    Com gesto alto, severo e soberano.
    Do rosto respirava um ar divino,
    Que divino tornara um corpo humano;
    Com uma coroa e ceptro rutilante,
    De outra pedra mais clara que diamante.

    23
    Em luzentes assentos, marchetados
    De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
    Os outros Deuses todos assentados,
    Como a razão e a ordem concertavam:
    Precedem os antíguos mais honrados;
    Mais abaixo os menores se assentavam;
    Quando Júpiter alto, assim dizendo,
    C'um tom de voz começa, grave e horrendo:

    24
    "Eternos moradores do luzente
    Estelífero pólo, e claro assento,
    Se do grande valor da forte gente
    De Luso não perdeis o pensamento,
    Deveis de ter sabido claramente,
    Como é dos fados grandes certo intento,
    Que por ela se esqueçam os humanos
    De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

    25
    "Já lhe foi (bem o vistes) concedido
    C'um poder tão singelo e tão pequeno,
    Tomar ao Mouro forte e guarnecido
    Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
    Pois contra o Castelhano tão temido,
    Sempre alcançou favor do Céu sereno.
    Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
    Teve os troféus pendentes da vitória.

    26
    "Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
    Que coa gente de Rómulo alcançaram,
    Quando com Viriato, na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram;
    Também deixo a memória, que os obriga
    A grande nome, quando alevantaram
    Um por seu capitão, que peregrino
    Fingiu na cerva espírito divino.

    27
    "Agora vedes bem que, cometendo
    O duvidoso mar num lenho leve,
    Por vias nunca usadas, não temendo
    De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
    Que havendo tanto já que as partes vendo
    Onde o dia é comprido e onde breve,
    Inclinam seu propósito e porfia
    A ver os berços onde nasce o dia.

    28
    "Prometido lhe está do Fado eterno,
    Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
    Que tenham longos tempos o governo
    Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
    Nas águas têm passado o duro inverno;
    A gente vem perdida e trabalhada;
    Já parece bem feito que lhe seja
    Mostrada a nova terra, que deseja.

    29
    "E porque, como vistes, têm passados
    Na viagem tão ásperos perigos,
    Tantos climas e céus experimentados,
    Tanto furor de ventos inimigos,
    Que sejam, determino, agasalhados
    Nesta costa africana, como amigos.
    E tendo guarnecida a lassa frota,
    Tornarão a seguir sua longa rota."

    30
    Estas palavras Júpiter dizia,
    Quando os Deuses por ordem respondendo,
    Na sentença um do outro diferia,
    Razões diversas dando e recebendo.
    O padre Baco ali não consentia
    No que Júpiter disse, conhecendo
    Que esquecerão seus feitos no Oriente,
    Se lá passar a Lusitana gente.

  2. #92
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    31
    Ouvido tinha aos Fados que viria
    Uma gente fortíssima de Espanha
    Pelo mar alto, a qual sujeitaria
    Da índia tudo quanto Dóris banha,
    E com novas vitórias venceria
    A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
    Altamente lhe dói perder a glória,
    De que Nisa celebra inda a memória.

    32
    Vê que já teve o Indo sojugado,
    E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
    Por vencedor da Índia ser cantado
    De quantos bebem a água de Parnaso.
    Teme agora que seja sepultado
    Seu tão célebre nome em negro vaso
    D'água do esquecimento, se lá chegam
    Os fortes Portugueses, que navegam.

    33
    Sustentava contra ele Vénus bela,
    Afeiçoada à gente Lusitana,
    Por quantas qualidades via nela
    Da antiga tão amada sua Romana;
    Nos fortes corações, na grande estrela,
    Que mostraram na terra Tingitana,
    E na língua, na qual quando imagina,
    Com pouca corrupção crê que é a Latina.

    34
    Estas causas moviam Citereia,
    E mais, porque das Parcas claro entende
    Que há de ser celebrada a clara Deia,
    Onde a gente belígera se estende.
    Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
    E o outro pelas honras, que pretende,
    Debatem, e na porfia permanecem;
    A qualquer seus amigos favorecem.

    35
    Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
    De silvestre arvoredo abastecida,
    Rompendo os ramos vão da mata escura,
    Com ímpeto e braveza desmedida;
    Brama toda a montanha, o som murmura,
    Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
    Tal andava o tumulto levantado,
    Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

    36
    Mas Marte, que da Deusa sustentava
    Entre todos as partes em porfia,
    Ou porque o amor antigo o obrigava,
    Ou porque a gente forte o merecia,
    De entre os Deuses em pé se levantava:
    Merencório no gesto parecia;
    O forte escudo ao colo pendurado
    Deitando para trás, medonho e irado,

    37
    A viseira do elmo de diamante
    Alevantando um pouco, mui seguro,
    Por dar seu parecer, se pôs diante
    De Júpiter, armado, forte e duro:
    E dando uma pancada penetrante,
    Com o conto do bastão no sólio puro,
    O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
    Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

    38
    E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
    Tudo aquilo obedece, que criaste,
    Se esta gente, que busca outro hemisfério,
    Cuja valia, e obras tanto amaste,
    Não queres que padeçam vitupério,
    Como há já tanto tempo que ordenaste,
    Não onças mais, pois és juiz direito,
    Razões de quem parece que é suspeito.

    39
    "Que, se aqui a razão se não mostrasse
    Vencida do temor demasiado,
    Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
    Pois que de Luso vem, seu tão privado;
    Mas esta tenção sua agora passe,
    Porque enfim vem de estâmago danado;
    Que nunca tirará alheia inveja
    O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.

    40
    "E tu, Padre de grande fortaleza,
    Da determinação, que tens tomada,
    Não tornes por detrás, pois é fraqueza
    Desistir-se da cousa começada.
    Mercúrio, pois excede em ligeireza
    Ao vento leve, e à seta bem talhada,
    Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
    Da índia, e onde a gente se reforme."

    41
    Como isto disse, o Padre poderoso,
    A cabeça inclinando, consentiu
    No que disse Mavorte valeroso,
    E néctar sobre todos esparziu.
    Pelo caminho Lácteo glorioso
    Logo cada um dos Deuses se partiu,
    Fazendo seus reais acatamentos,
    Para os determinados aposentos.

    42
    Enquanto isto se passa na formosa
    Casa etérea do Olimpo onipotente,
    Cortava o mar a gente belicosa,
    Já lá da banda do Austro e do Oriente,
    Entre a costa Etiópica e a famosa
    Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
    Queimava então os Deuses, que Tifeu
    Com o temor grande em peixes converteu.


    43
    Tão brandamente os ventos os levavam,
    Como quem o céu tinha por amigo:
    Sereno o ar, e os tempos se mostravam
    Sem nuvens, sem receio de perigo.
    O promontório Prasso já passavam,
    Na costa de Etiópia, nome antigo,
    Quando o mar descobrindo lhe mostrava
    Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

    44
    Vasco da Gama, o forte capitão,
    Que a tamanhas empresas se oferece,
    De soberbo e de altivo coração,
    A quem Fortuna sempre favorece,
    Para se aqui deter não vê razão,
    Que inabitada a terra lhe parece:
    Por diante passar determinava;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava.

    45
    Eis aparecem logo em companhia
    Uns pequenos batéis, que vêm daquela
    Que mais chegada à terra parecia,
    Cortando o longo mar com larga vela.
    A gente se alvoroça, e de alegria
    Não sabe mais que olhar a causa dela.
    Que gente será esta, em si diziam,
    Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

    46
    As embarcações eram, na maneira,
    Mui veloces, estreitas e compridas:
    As velas, com que, vêm, eram de esteira
    Dumas folhas de palma, bem tecidas;
    A gente da cor era verdadeira,
    Que Faeton, nas terras acendidas,
    Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
    O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

    47
    De panos de algodão vinham vestidos,
    De várias cores, brancos e listrados:
    Uns trazem derredor de si cingidos,
    Outros em modo airoso sobraçados:
    Da cinta para cima vêm despidos;
    Por armas têm adargas o terçados;
    Com toucas na cabeça; e navegando,
    Anafis sonoros vão tocando.

    48
    Co'os panos e co'os braços acenavam
    As gentes Lusitanas, que esperassem;
    Mas já as proas ligeiras se inclinavam
    Para que junto às ilhas amainassem.
    A gente e marinheiros trabalhavam,
    Como se aqui os trabalhos se acabassem;
    Tomam velas; amaina-se a verga alta;
    Da âncora, o mar ferido, em cima salta.

    49
    Não eram ancorados, quando a gente
    Estranha pelas cordas já subia.
    No gesto ledos vêm, e humanamente
    O Capitão sublime os recebia:
    As mesas manda pôr em continente;
    Do licor que Lieo prantado havia
    Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
    Os de Faeton queimados nada enjeitam.

    50
    Comendo alegremente perguntavam,
    Pela Arábica língua, donde vinham,
    Quem eram, de que terra, que buscavam,
    Ou que partes do mar corrido tinham?
    Os fortes Lusitanos lhe tornavam
    As discretas respostas, que convinham:
    "Os Portugueses somos do Ocidente,
    Imos buscando as terras do Oriente.

    51
    "Do mar temos corrido e navegado
    Toda a parte do Antártico e Calisto,
    Toda a costa Africana rodeado,
    Diversos céus e terras temos visto;
    Dum Rei potente somos, tão amado,
    Tão querido de todos, e benquisto,
    Que não no largo mar, com leda fronte,
    Mas no lago entraremos de Aqueronte.

  3. #93
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    52
    "E por mandado seu, buscando andamos
    A terra Oriental que o Indo rega;
    Por ele, o mar remoto navegamos,
    Que só dos feios focas se navega.
    Mas já razão parece que saibamos,
    Se entre vós a verdade não se nega,
    Quem sois, que terra é esta que habitais,
    Ou se tendes da Índia alguns sinais?"

    53
    "Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
    Estrangeiros na terra, Lei e nação;
    Que os próprios são aqueles, que criou
    A natura sem Lei e sem razão.
    Nós temos a Lei certa, que ensinou
    O claro descendente de Abraão
    Que agora tem do mundo o senhorio,
    A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
    Informações. A Ilha de Moçambique.

    54
    "Esta ilha pequena, que habitamos,
    em toda esta terra certa escala
    De todos os que as ondas navegamos
    De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
    E, por ser necessária, procuramos,
    Como próprios da terra, de habitá-la;
    E por que tudo enfim vos notifique,
    Chama-se a pequena ilha Moçambique.

    55
    "E já que de tão longe navegais,
    Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
    Piloto aqui tereis, por quem sejais
    Guiados pelas ondas sabiamente.
    Também será bem feito que tenhais
    Da terra algum refresco, e que o Regente
    Que esta terra governa, que vos veja,
    E do mais necessário vos proveja."

    56
    Isto dizendo, o Mouro se tornou
    A seus batéis com toda a companhia;
    Do Capitão e gente se apartou
    Com mostras de devida cortesia.
    Nisto Febo nas águas encerrou,
    Co'o carro de cristal, o claro dia,
    Dando cargo à irmã, que alumiasse
    O largo mundo, enquanto repousasse.

    57
    A noite se passou na lassa frota
    Com estranha alegria, e não cuidada,
    Por acharem da terra tão remota
    Nova de tanto tempo desejada.
    Qualquer então consigo cuida e nota
    Na gente e na maneira desusada,
    E como os que na errada Seita creram,
    Tanto por todo o mundo se estenderam,

    58
    Da Lua os claros raios rutilavam
    Pelas argênteas ondas Neptuninas,
    As estrelas os Céus acompanhavam,
    Qual campo revestido de boninas;
    Os furiosos ventos repousavam
    Pelas covas escuras peregrinas;
    Porém da armada a gente vigiava,
    Como por longo tempo costumava.

    59
    Mas assim como a Aurora marchetada
    Os formosos cabelos espalhou
    No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
    Ao claro Hiperiónio, que acordou,
    Começa a embandeirar-se toda a armada,
    E de toldos alegres se adornou,
    Por receber com festas e alegria
    O Regedor das ilhas, que partia.

    60
    Partia alegremente navegando,
    A ver as naus ligeiras Lusitanas,
    Com refresco da terra, em si cuidando
    Que são aquelas gentes inumanas,
    Que, os aposentos cáspios habitando,
    A conquistar as terras Asianas
    Vieram; e por ordem do Destino,
    O Império tomaram a Constantino.

    61
    Recebe o Capitão alegremente
    O Mouro, e toda a sua companhia;
    Dá-lhe de ricas peças um presente,
    Que só para este efeito já trazia;
    Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
    Não usado licor, que dá alegria.
    Tudo o Mouro contente bem recebe;
    E muito mais contente come e bebe.

    62
    Está a gente marítima de Luso
    Subida pela enxárcia, de admirada,
    Notando o estrangeiro modo e uso,
    E a linguagem tão bárbara e enleada.
    Também o Mouro astuto está confuso,
    Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
    E perguntando tudo, lhe dizia
    "Se por ventura vinham de Turquia?"

    63
    E mais lhe diz também, que ver deseja
    Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
    Para ver se conforme à sua seja,
    Ou se são dos de Cristo, como Crê.
    E porque tudo note e tudo veja,
    Ao Capitão pedia que lhe dê
    Mostra das fortes armas de que usavam,
    Quando co'os inimigos pelejavam.

    64
    Responde o valeroso Capitão
    Por um, que a língua escura bem sabia:
    "Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
    De mim, da Lei, das armas que trazia.
    Nem sou da terra, nem da geração
    Das gentes enojosas de Turquia:
    Mas sou da forte Europa belicosa,
    Busco as terras da índia tão famosa.

    65
    A lei tenho daquele, a cujo império
    Obedece o visíbil e ínvisíbil
    Aquele que criou todo o Hemisfério,
    Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
    Que padeceu desonra e vitupério,
    Sofrendo morte injusta e insofríbil,
    E que do Céu à Terra, enfim desceu,
    Por subir os mortais da Terra ao Céu.

    66
    Deste Deus-Homem, alto e infinito,
    Os livros, que tu pedes não trazia,
    Que bem posso escusar trazer escrito
    Em papel o que na alma andar devia.
    Se as armas queres ver, como tens dito,
    Cumprido esse desejo te seria;
    Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
    Que nunca as queiras ver como inimigo."

    67
    Isto dizendo, manda os diligentes
    Ministros amostrar as armaduras:
    Vêm arneses, e peitos reluzentes,
    Malhas finas, e lâminas seguras,
    Escudos de pinturas diferentes,
    Pelouros, espingardas de aço puras,
    Arcos, e sagitíferas aljavas,
    Partazanas agudas, chuças bravas:

    68
    As bombas vêm de fogo, e juntamente
    As panelas sulfúreas, tão danosas;
    Porém aos de Vulcano não consente
    Que dêem fogo às bombardas temerosas;
    Porque o generoso ânimo e valente,
    Entre gentes tão poucas e medrosas,
    Não mostra quanto pode, e com razão,
    Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

    69
    Porém disto, que o Mouro aqui notou,
    E de tudo o que viu com olho atento
    Um ódio certo na alma lhe ficou,
    Uma vontade má de pensamento.
    Nas mostras e no gesto o não mostrou;
    Mas com risonho e ledo fingimento
    Tratá-los brandamente determina,
    Até que mostrar possa o que imagina.

    70
    Pilotos lhe pedia o Capitão,
    Por quem pudesse à Índia ser levado;
    Diz-lhe que o largo prémio levarão
    Do trabalho que nisso for tomado.
    Promete-lhos o Mouro, com tenção
    De peito venenoso, e tão danado,
    Que a morte, se pudesse, neste dia,
    Em lugar de pilotos lhe daria.


    71
    Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
    Que aos estrangeiros súbito tomou,
    Sabendo ser sequazes da verdade,
    Que o Filho de David nos ensinou.
    ó segredos daquela Eternidade,
    A quem juízo algum nunca alcançou!
    Que nunca falte um pérfido inimigo
    Aqueles de quem foste tanto amigo!

    72
    Partiu-se Disto enfim coa companhia,
    Das naus o falso Mouro despedido,
    Com enganosa e grande cortesia,
    Com gesto ledo a todos, e fingido.
    Cortaram os batéis a curta via
    Das águas de Neptuno, e recebido
    Na terra do obsequente ajuntamento
    Se foi o Mouro ao cógnito aposento.

    73
    Do claro assento etóreo o grão Tebano,
    Que da paternal coxa foi nascido,
    Olhando o ajuntamento Lusitano
    Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
    No pensamento cuida um falso engano,
    Com que seja de todo destruído.
    E enquanto isto só na alma imaginava,
    Consigo estas palavras praticava:

    74
    "Está do fado já determinado,
    Que tamanhas vitórias, tão famosas,
    Hajam os Portugueses alcançado
    Das Indianas gentes belicosas.
    E eu só, filho do Padre sublimado,
    Com tantas qualidades generosas,
    Hei de sofrer que o fado favoreça
    Outrem, por quem meu nome se escureça?

    75
    "Já quiseram os Deuses que tivesse
    O filho de Filipo nesta parte
    Tanto poder, que tudo submetesse
    Debaixo de seu jugo o fero Marte.
    Mas há-se de sofrer que o fado desse
    A tão poucos tamanho esforço e arte,
    Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
    Demos lugar ao nome Lusitano?

    76
    "Não será assim, porque antes que chegado
    Seja este Capitão, astutamente
    Lhe será tanto engano fabricados
    Que nunca veja as partes do Oriente.
    Eu descerei à Terra, e o indignado
    Peito revolverei da Maura gente;
    Porque sempre por via irá direita
    Quem do oportuno tempo se aproveita."

    77
    Isto dizendo, irado e quase insano,
    Sobre a terra africana descendeu,
    Onde vestindo a forma e gesto humano,
    Para o Prasso sabido se moveu.
    E por melhor tecer o astuto engano,
    No gesto natural se converteu
    Dum Mouro, em Moçambique conhecido
    Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.

    78
    E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
    A sua falsidade acomodadas,
    Lhe diz como eram gentes roubadoras,
    Estas que ora de novo são chegadas;
    Que das nações na costa moradoras
    Correndo a fama veio que roubadas
    Foram por estes homens que passavam,
    Que com pactos de paz sempre ancoravam.

    79
    E sabe mais, lhe diz, como entendido
    Tenho destes cristãos sanguinolentos,
    Que quase todo o mar têm destruído
    Com roubos, com incêndios violentos;
    E trazem já de longe engano urdido
    Contra nós; e que todos seus intentos
    São para nos matarem e roubarem,
    E mulheres e filhos cativarem.

    80
    "E também sei que tem determinado
    De vir por água a terra muito cedo
    O Capitão dos seus acompanhado,
    Que da tensão danada nasce o medo.
    Tu deves de ir também co'os teus armado
    Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
    Porque, saindo a gente descuidada,
    Cairão facilmente na cilada.

    81
    "E se inda não ficarem deste jeito
    Destruídos, ou mortos totalmente
    Eu tenho imaginado no conceito
    Outra manha e ardil, que te contente:
    Manda-lhe dar piloto, que de jeito
    Seja astuto no engano, e tão prudente,
    Que os leve aonde sejam destruídos,
    Desbaratados, mortos, ou perdidos."

    82
    Tanto que estas palavras acabou,
    O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
    Os braços pelo colo lhe lançou,
    Agradecendo muito o tal conselho;
    E logo nesse instante concertou
    Para a guerra o belígero aparelho,
    Para que ao Português se lhe tornasse
    Em roxo sangue a água, que buscasse.

    83
    E busca mais, para o cuidado engano,
    Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
    Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
    De quem fiar-se possa um feito grande.
    Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
    Por tais costas e mares com ele ande,
    Que, se daqui escapar, que lá diante
    Vá cair onde nunca se alevante.

    84
    Já o raio Apolíneo visitava
    Os montes Nabatêos acendido,
    Quando o Gama, colos seus determinava
    De vir por água a terra apercebido.
    A gente nos batéis se concertava,
    Como se fosse o engano já sabido:
    Mas pode suspeitar-se facilmente,
    Que o coração pressago nunca mente.

    85
    E mais também mandado tinha a terra,
    De antes, pelo piloto necessário,
    E foi-lhe respondido em som de guerra,
    Caso do que cuidava mui contrário;
    Por isto, e porque sabe quanto erra
    Quem se crê de seu pérfido adversário,
    Apercebido vai como podia,
    Em três batéis somente que trazia.

    86
    Mas os Mouros que andavam pela praia,
    Por lhe defender a água desejada,
    Um de escudo embraçado e de azagaia,
    Outro de arco encurvado e seta ervada,
    Esperam que a guerreira gente saia,
    Outros muitos já postos em cilada.
    E, porque o caso leve se lhe faça,
    Põem uns poucos diante por negaça,

    87
    Andam pela ribeira alva, arenosa,
    Os belicosos Mouros acenando
    Com a adarga e co'a hástia perigosa,
    Os fortes Portugueses incitando.
    Não sofre muito a gente generosa
    Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
    Qualquer em terra salta tão ligeiro,
    Que nenhum dizer pode que é primeiro.

    88
    Qual no corro sanguino o ledo amante,
    Vendo a formosa dama desejada,
    O touro busca, e pondo-se diante,
    Salta, corre, sibila, acena, e brada,
    Mas o animal atroce, nesse instante,
    Com a fronte cornígera inclinada,
    Bramando duro corre, e os olhos cerra,
    Derriba, fere e mata, e põe por terra:

    89
    Eis nos batéis o fogo se levanta
    Na furiosa e dura artilharia,
    A plúmbea péla mata, o brado espanta,
    Ferido o ar retumba e assovia:
    O coração dos Mouros se quebranta,
    O temor grande o sangue lhe resfria.
    Já foge o escondido de medroso,
    E morre o descoberto aventuroso.

    90
    Não se contenta a gente Portuguesa,
    Mas seguindo a vitória estrui e mata;
    A povoação, sem muro e sem defesa,
    Esbombardeia, acende e desbarata.
    Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
    Que bem cuidou comprá-la mais barata;
    Já blasfema da guerra, e maldizia,
    O velho inerte, e a mãe que o filho cria.

    91
    Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
    Sem força, de covarde e de apressado,
    A pedra, o pau, e o canto arremessando;
    Dá-lhe armas o furor desatinado.
    Já a ilha e todo o mais desemparando,
    A terra firme foge amedrontado;
    Passa e corta do mar o estreito braço,
    Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço

    92
    Uns vão nas almadias carregadas,
    Um corta o mar a nado diligente,
    Quem se afoga nas ondas encurvadas,
    Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
    Arrombam as miúdas bombardadas
    Os pangaios subtis da bruta gente:
    Desta arte o Português enfim castiga
    A vil malícia, pérfida, inimiga.

    93

  4. #94
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
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    octobre 2007
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    93
    Tornam vitoriosos para a armada,
    Co'o despojo da guerra e rica presa,
    E vão a seu prazer fazer aguada,
    Sem achar resistência, nem defesa.
    Ficava a Maura gente magoada,
    No ódio antigo mais que nunca acesa;
    E vendo sem vingança tanto dano,
    Somente estriba no segundo engano.

    94
    Pazes cometer manda arrependido
    O Regedor daquela iníqua terra,
    Sem ser dos Lusitanos entendido,
    Que em figura de paz lhe manda guerra;
    Porque o piloto falso prometido,
    Que toda a má tenção no peito encerra,
    Para os guiar à morte lhe mandava,
    Como em sinal das pazes que tratava.

    95
    O Capitão, que já lhe então convinha
    Tornar a seu caminho acostumado,
    Que tempo concertado e ventos tinha
    Para ir buscar o Indo desejado,
    Recebendo o piloto, que lhe vinha,
    Foi dele alegremente agasalhado;
    E respondendo ao mensageiro a tento,
    As velas manda dar ao largo vento.

    96
    Desta arte despedida a forte armada,
    As ondas de Anfitrite dividia,
    Das filhas de Nereu acompanhada,
    Fiel, alegre e doce companhia.
    O Capitão, que não caía em nada
    Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
    Dele mui largamente se informava
    Da Índia toda, e costas que passava.

    97
    Mas o Mouro, instruído nos enganos
    Que o malévolo Baco lhe ensinara,
    De morte ou cativeiro novos danos,
    Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
    Dando razões dos portos Indianos,
    Também tudo o que pede lhe declara,
    Que, havendo por verdade o que dizia,
    De nada a forte gente se temia.

    98
    E diz-lhe mais, com o falso pensamento
    Com que Sinon os Frígios enganou:
    Que perto está uma ilha, cujo assento
    Povo antigo cristão sempre habitou.
    O Capitão, que a tudo estava a tento,
    Tanto com estas novas se alegrou,
    Que com dádivas grandes lhe rogava,
    Que o leve à terra onde esta gente estava.

    99
    O mesmo o falso Mouro determina,
    Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
    Que a ilha é possuída da malina
    Gente que segue o torpe Mahamede.
    Aqui o engano e morte lhe imagina,
    Porque em poder e forças muito excede
    A Moçambique esta ilha, que se chama
    Quíloa, mui conhecida pela fama.

    100
    Para lá se inclinava a leda frota;
    Mas a Deusa em Citere celebrada,
    Vendo como deixava a certa rota
    Por ir buscar a morte não cuidada,
    Não consente que em terra tão remota
    Se perca a gente dela tanto amada.
    E com ventos contrários a desvia
    Donde o piloto falso a leva e guia.

    101
    Mas o malvado Mouro, não podendo
    Tal determinação levar avante,
    Outra maldade iníqua cometendo,
    Ainda em seu propósito constante,
    Lhe diz que, pois as águas discorrendo
    Os levaram por força por diante,
    Que outra ilha tem perto, cuja gente
    Eram Cristãos com Mouros juntamente.

    102
    Também nestas palavras lhe mentia,
    Como por regimento enfim levava,
    Que aqui gente de Cristo não havia,
    Mas a que a Mahamede celebrava.
    O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
    Virando as velas, a ilha demandava;
    Mas, não querendo a Deusa guardadora,
    Não entra pela barra, e surge fora.

    103
    Estava a ilha à terra tão chegada,
    Que um estreito pequeno a dividia;
    Uma cidade nela situada,
    Que na fronte do mar aparecia,
    De nobres edifícios fabricada,
    Como por fora ao longe descobria,
    Regida por um Rei de antiga idade:
    Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

    104
    E sendo a ela o Capitão chegado,
    Estranhamente ledo, porque espera
    De poder ver o povo batizado,
    Como o falso piloto lhe dissera,
    Eis vêm batéis da terra com recado
    Do Rei, que já sabia a gente que era:
    Que Baco muito de antes o avisara,
    Na forma doutro Mouro, que tomara.

    105
    O recado que trazem é de amigos,
    Mas debaixo o veneno vem coberto;
    Que os pensamentos eram de inimigos,
    Segundo foi o engano descoberto.
    Ó grandes e gravíssimos perigos!
    Ó caminho de vida nunca certo:
    Que aonde a gente põe sua esperança,
    Tenha a vida tão pouca segurança!

    106
    No mar tanta tormenta, e tanto dano,
    Tantas vezes a morte apercebida!
    Na terra tanta guerra, tanto engano,
    Tanta necessidade avorrecida!
    Onde pode acolher-se um fraco humano,
    Onde terá segura a curta vida,
    Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
    Contra um bicho da terra tão pequeno?


    Canto Segundo

    1
    Já neste tempo o lúcido Planeta,
    Que as horas vai do dia distinguindo,
    Chegava à desejada e lenta meta,
    A luz celeste às gentes encobrindo,
    E da casa marítima secreta
    Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
    Quando as infidas gentes se chegaram
    As naus, que pouco havia que ancoraram.

    2
    Dentre eles um, que traz encomendado
    O mortífero engano, assim dizia:
    "Capitão valeroso, que cortado
    Tens de Neptuno o reino e salsa via,
    O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
    Da vinda tua, tem tanta alegria,
    Que não deseja mais que agasalhar-te,
    Ver-te, e do necessário reformar-te.

    3
    "E porque está em extremo desejoso
    De te ver, como cousa nomeada,
    Te roga que, de nada receoso,
    Entres a barra, tu com toda armada:
    E porque do caminho trabalhoso
    Trarás a gente débil e cansada,
    Diz que na terra podes reformá-la,
    Que a natureza obriga a desejá-la.

    4
    "E se buscando vás mercadoria
    Que produze o aurífero Levante,
    Canela, cravo, ardente especiaria,
    Ou droga salutífera e prestante;
    Ou se queres luzente pedraria,
    O rubi fino, o rígido diamante,
    Daqui levarás tudo tão sobejo
    Com que faças o fim a teu desejo."

    5
    Ao mensageiro o Capitão responde
    As palavras do Rei agradecendo:
    E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
    Não entra para dentro, obedecendo;
    Porém que, como a luz mostrar por onde
    Vá sem perigo a frota, não temendo,
    Cumprirá sem receio seu mandado,
    Que a mais por tal senhor está obrigado.

    6
    Pergunta-lhe depois, se estão na terra
    Cristãos, como o piloto lhe dizia;
    O mensageiro astuto, que não erra,
    Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
    Desta sorte do peito lhe desterra
    Toda a suspeita e cauta fantasia;
    Por onde o Capitão seguramente
    Se fia da infiel e falsa gente.

    7
    E de alguns que trazia condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.

    8
    E por estes ao Rei presentes manda,
    Por que a boa vontade, que mostrava,
    Tenha firme, segura, limpa e branda;
    A qual bem ao contrário em tudo estava.
    Já a companhia pérfida e nefanda
    Das naus se despedia e o mar cortava:
    Foram com gestos ledos e fingidos,
    Os dous da frota em terra recebidos.

    9
    E depois que ao Rei apresentaram,
    Co'o recado, os presentes que traziam,
    A cidade correram, e notaram
    Muito menos daquilo que queriam;
    Que os Mouros cautelosos se guardaras
    De lhes mostrarem tudo o que pediam:
    Que onde reina a malícia, está o receio,
    Que a faz imaginar no peito alheio.

    10
    Mas aquele que sempre a mocidade
    Tem no rosto perpétua, e foi nascido
    De duas mães, que urdia a falsidade
    Por ver o navegante destruído,
    Estava numa casa da cidade,
    Com rosto humano e hábito fingido,
    Mostrando-se Cristão, e fabricava
    Um altar sumptuoso, que adorava.

    11
    Ali tinha em retrato afigurada
    Do alto e Santo Espírito a pintura:
    A cândida pombinha debuxada
    Sobre a única Fénix, Virgem pura;
    A companhia santa está pintada
    Dos doze, tão torvados na figura,
    Como os que, só das línguas que caíram,
    De fogo, várias línguas referiram.

    12
    Aqui os dous companheiros conduzidos
    Onde com este engano Baco estava,
    Põem em terra os giolhos, e os sentidos
    Naquele Deus que o mundo governava.
    Os cheiros excelentes, produzidos
    Na Pancaia odorífera, queimava
    O Tioneu, e assim por derradeiro
    O falso Deus adora o verdadeiro.

    13
    Aqui foram de noite agasalhados,
    Com todo o bom e honesto tratamento,
    Os dous Cristãos, não vendo que enganados
    Os tinha o falso e santo fingimento.
    Mas assim como os raios espalhados
    Do Sol foram no mundo, e num momento
    Apareceu no rúbido horizonte
    Da moça de Titão a roxa fronte,

    14
    Tornam da terra os Mouros co'o recado
    Do Rei, para que entrassem, e consigo
    Os dous que o Capitão tinha mandado,
    A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
    E sendo o Português certificado
    De não haver receio de perigo,
    E que gente de Cristo em terra havia,
    Dentro no salso rio entrar queria.

    15
    Dizem-lhe os que mandou, que em terra
    Sacras aras e sacerdote sinto; viram
    Que ali se agasalharam o dormiram,
    Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
    E que no Rei e gentes não sentiram
    Senão contentamento e gosto tanto,
    Que não podia certo haver suspeita
    Numa mostra tão clara e tão perfeita.

    16
    Com isto o nobre Gama recebia
    Alegremente os Mouros que subiam;
    Que levemente um ânimo se fia
    De mostras, que tão certas pareciam.
    A nau da gente pérfida se enchia,
    Deixando a bordo os barcos que traziam.
    Alegres vinham todos, porque crêm
    Que a presa desejada certa têm.

    17
    Na terra, cautamente aparelhavam
    Armas e munições que, como vissem
    Que no rio os navios ancoravam,
    Neles ousadamente se subissem;
    E, nesta treição determinavam
    Que os de Luso de todo destruíssem,
    E que incautos pagassem deste jeito
    O mal que em Moçambique tinham feito.

    18
    As âncoras tenaces vão levando
    Com a náutica grita costumada;
    Da proa as velas sós ao vento dando
    Inclinam para a barra abalizada.
    Mas a linda Ericina, que guardando
    Andava sempre a gente assinalada,
    Vendo a cilada grande, e tão secreta,
    Voa do Céu ao mar como uma seta.

    19
    Convoca as alvas filhas de Nereu,
    Com toda a mais cerúlea companhia,
    Que, porque no salgado mar nasceu,
    Das águas o poder lhe obedecia.
    E propondo-lhe a causa a que desceu,
    Com todas juntamente se partia,
    Para estorvar que a armada não chegasse
    Aonde para sempre se acabasse.

    20
    Já na água erguendo vão, com grande pressa,
    Com as argênteas caudas branca escuma;
    Cloto eo'o peito corta e atravessa
    Com mais furor o mar do que costuma.
    Salta Nise, Nerine se arremessa
    Por cima da água crespa, em força suma.
    Abrem caminho as ondas encurvadas
    De temor das Nereidas apressadas.

    21
    Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
    Vai a linda Dione furiosa;
    Não sente quem a leva o doce peso,
    De soberbo com carga tão formosa.
    Já chegam perto donde o vento teso
    Enche as velas da frota belicosa;
    Repartem-se e rodeiam nesse instante
    As naus ligeiras, que iam por diante.

    22
    Põe-se a Deusa com outras em direito
    Da proa capitaina, e ali fechando
    O caminho da barra, estão de jeito,
    Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
    Põem no madeiro duro o brando peito,
    Para detrás a forte nau forçando;
    Outras em derredor levando-a estavam,
    E da barra inimiga a desviavam.

    23
    Quais para a cova as próvidas formigas,
    Levando o peso grande acomodado,
    As forças exercitam, de inimigas
    Do inimigo inverno congelado;
    Ali são seus trabalhos e fadigas,
    Ali mostram vigor nunca esperado:
    Tais andavam as Ninfas estorvando
    A gente Portuguesa o fim nefando.

    24
    Torna para detrás a nau forçada,
    Apesar dos que leva, que gritando
    Mareiam velas; ferve a gente irada,
    O leme a um bordo e a outro atravessando;
    O mestre astuto em vão da popa brada,
    Vendo como diante ameaçando
    Os estava um marítimo penedo,
    Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

    25
    A celeuma medonha se alevanta
    No rudo marinheiro que trabalha;
    O grande estrondo a Maura gente espanta,
    Como se vissem hórrida batalha;
    Não sabem a razão de fúria tanta,
    Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
    Cuidam que seus enganos são sabidos,
    E que hão de ser por isso aqui punidos.

    26
    Ei-los subitamente se lançavam
    A seus batéis velozes que traziam;
    Outros em cima o mar alevantavam,
    Saltando n'água, a nado se acolhiam;
    De um bordo e doutro súbito saltavam,
    Que o medo os compelia do que viam;
    Que antes querem ao mar aventurar-se
    Que nas mãos inimigas entregar-se.

    27
    Assim como em selvática alagoa
    As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
    Se sentem por ventura vir pessoa,
    Estando fora da água incautamente,
    Daqui e dali saltando, o charco soa,
    Por fugir do perigo que se sente,
    E acolhendo-se ao couto que conhecem,
    Sós as cabeças na água lhe aparecem:

    28
    Assim fogem os Mouros; e o piloto,
    Que ao perigo grande as naus guiara,
    Crendo que seu engano estava noto,
    Também foge, saltando na água amara.
    Mas, por não darem no penedo imoto,
    Onde percam a vida doce e cara,
    A âncora solta logo a capitaina,
    Qualquer das outras junto dela amaina.

    29
    Vendo o Gama, atentado, a estranheza
    Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
    O piloto fugir-lhe com presteza,
    Entende o que ordenava a bruta gente;
    E vendo, sem contraste e sem braveza
    Dos ventos, ou das águas sem corrente,
    Que a nau passar avante não podia,
    Havendo-o por milagre, assim dizia:

    30
    "Ó caso grande, estranho e não cuidado,
    Ó milagre claríssimo e evidente,
    Ó descoberto engano inopinado,
    Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
    Quem poderá do mal aparelhado
    Livrar-se sem perigo sabiamente,
    Se lá de cima a Guarda soberana
    Não acudir à fraca força humana?

  5. #95
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    31
    "Bem nos mostra a divina Providência
    Destes portos a pouca segurança;
    Bem claro temos visto na aparência,
    Que era enganada a nossa confiança.
    Mas pois saber humano nem prudência
    Enganos tão fingidos não alcança,
    Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
    De quem sem ti não pode ser guardado!

    32
    "E se te move tanto a piedade
    Desta mísera gente peregrina,
    Que só por tua altíssima bondade,
    Da gente a salvas pérfida e malina,
    Nalgum porto seguro de verdade
    Conduzir-nos já agora determina,
    Ou nos amostra a terra que buscamos,
    Pois só por teu serviço navegamos."

    33
    Ouviu-lhe essas palavras piedosas
    A formosa Dione, e comovida,
    Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
    Ficaram desta súbita partida.
    Já penetra as Estrelas luminosas,
    Já na terceira Esfera recebida
    Avante passa, e lá no sexto Céu,
    Para onde estava o Padre, se moveu.

    34
    E como ia afrontada do caminho,
    Tão formosa no gesto se mostrava,
    Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
    E tudo quanto a via namorava.
    Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
    Uns espíritos vivos inspirava,
    Com que os Pólos gelados acendia,
    E tornava do Fogo a esfera fria.

    35
    E por mais namorar o soberano
    Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
    Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
    Na selva Idea, já se apresentara.
    Se a vira o caçador, que o vulto humano
    Perdeu, vendo Diana na água clara,
    Nunca os famintos galgos o mataram,
    Que primeiro desejos o acabaram.

    36
    Os crespos fios d'ouro se esparziam
    Pelo colo, que a neve escurecia;
    Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
    Com quem Amor brincava, e não se via;
    Da alva petrina flamas lhe saíam,
    Onde o Menino as almas acendia;
    Pelas lisas colunas lhe trepavam
    Desejos, que como hera se enrolavam.

    37
    C'um delgado sendal as partes cobre,
    De quem vergonha é natural reparo,
    Porém nem tudo esconde, nem descobre,
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
    Mas, para que o desejo acenda o dobre,
    Lhe põe diante aquele objeto raro.
    Já se sentem no Céu, por toda a parte,
    Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

    38
    E mostrando no angélico semblante
    Co'o riso uma tristeza misturada,
    Como dama que foi do incauto amante
    Em brincos amorosos mal tratada,
    Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
    E se torna entre alegre magoada,
    Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
    Mais mimosa que triste ao Padre fala:

    39
    "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
    Que, para as cousas que eu do peito amasse,
    Te achasse brando, afábil e amoroso,
    Posto que a algum contrário lhe pesasse;
    Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
    Sem que to merecesse, nem te errasse,
    Faça-se como Baco determina;
    Assentarei enfim que fui mofina.

    40
    "Este povo que é meu, por quem derramo
    As lágrimas que em vão caídas vejo,
    Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
    Sendo tu tanto contra meu desejo!
    Por ele a ti rogando choro e bramo,
    E contra minha dita enfim pelejo.
    Ora pois, porque o amo é mal tratado,
    Quero-lhe querer mal, será guardado.

    41
    "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
    Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,
    O rosto banha em lágrimas ardentes,
    Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
    Calada um pouco, como se entre os dentes
    Se lhe impedira a fala piedosa,
    Torna a segui-la; e indo por diante,
    Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

    42
    E destas brandas mostras comovido,
    Que moveram de um tigre o peito duro,
    Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
    Torna sereno e claro o ar escuro,
    As lágrimas lhe alimpa, e acendido
    Na face a beija, e abraça o colo puro;
    De modo que dali, se só se achara,
    Outro novo Cupido se gerara.

    43
    E co'o seu apertando o rosto amado,
    Que os soluços e lágrimas aumenta,
    Como menino da ama castigado,
    Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
    Por lhe pôr em sossego o peito irado,
    Muitos casos futuros lhe apresenta.
    Dos fados as entranhas revolvendo,
    Desta maneira enfim lhe está dizendo:

    44
    "Formosa filha minha, não temais
    Perigo algum nos vossos Lusitanos,
    Nem que ninguém comigo possa mais,
    Que esses chorosos olhos soberanos;
    Que eu vos prometo, filha, que vejais
    Esquecerem-se Gregos e Romanos,
    Pelos ilustres feitos que esta gente
    Há-de fazer nas partes do Oriente.

    45
    "Que se o facundo Ulisses escapou
    De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
    E se Antenor os seios penetrou
    Ilíricos e a fonte de Timavo;
    E se o piedoso Eneias navegou
    De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
    Os vossos, mores cousas atentando,
    Novos mundos ao mundo irão mostrando.

    46
    "Fortalezas, cidades e altos muros,
    Por eles vereis, filha, edificados;
    Os Turcos belacíssimos e duros,
    Deles sempre vereis desbaratados.
    Os Reis da índia, livres e seguros,
    Vereis ao Rei potente sojugados;
    E por eles, de tudo enfim senhores,
    Serão dadas na terra leis melhores.

    47
    "Vereis este, que agora pressuroso
    Por tantos medos o Indo vai buscando,
    Tremer dele Neptuno, de medroso
    Sem vento suas águas encrespando.
    Ó caso nunca visto e milagroso,
    Que trema e ferva o mar, em calma estando!
    Ó gente forte e de altos pensamentos,
    Que também dela hão medo os Elementos!

    48
    "Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
    Que inda há-de ser um porto mui decente,
    Em que vão descansar da longa via
    As naus que navegarem do Ocidente.
    Toda esta costa enfim, que agora urdia
    O mortífero engano, obediente
    Lhe pagará tributos, conhecendo
    Não poder resistir ao Luso horrendo.

    49
    "E vereis o mar Roxo, tão famoso,
    Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
    Vereis de Ormuz o Reino poderoso
    Duas vezes tomado e sojugado.
    Ali vereis o Mouro furioso
    De suas mesmas setas traspassado:
    Que quem vai contra os vossos, claro veja
    Que, se resiste, contra si peleja.

    50
    "Vereis a inexpugnábil Dio forte,
    Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
    Ali se mostrará seu preço e sorte,
    Feitos de armas grandíssimos fazendo.
    Invejoso vereis o grão Mavorte
    Do peito Lusitano fero e horrendo:
    Do Mouro ali verão que a voz extrema
    Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

    51
    "Goa vereis aos Mouros ser tomada,
    A qual virá depois a ser senhora
    De todo o Oriente, e sublimada
    Co'os triunfos da gente vencedora.
    Ali soberba, altiva, e exalçada,
    Ao Gentio, que os ídolos adora,
    Duro freio porá, e a toda a terra
    Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

    52
    "Vereis a fortaleza sustentar-se
    De Cananor, com pouca força e gente;
    E vereis Calecu desbaratar-se,
    Cidade populosa e tão potente:
    E vereis em Cochim assinalar-se
    Tanto um peito soberbo e insolente,
    Que cítara jamais cantou vitória,
    Que assim mereça eterno nome e glória.

    53
    "Nunca com Marte instructo e furioso,
    Se viu ferver Leucate, quando Augusto
    Nas civis Actias guerras animoso,
    O Capitão venceu Romano injusto,
    Que dos povos da Aurora, e do famoso
    Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
    A vitória trazia, e presa rica,
    Preso na Egípcia linda e nego pudica.

    54
    Como vereis o mar fervendo aceso
    Colos incêndios dos vossos pelejando,
    Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
    De nações diferentes triunfando.
    E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
    Até ao longínquo China navegando,
    E as ilhas mais remotas do Oriente,
    Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.

    55
    "De modo, filha minha, que de jeito
    Amostrarão esforço mais que humano,
    Que nunca se verá tão forte peito,
    Do Gangético mar ao Gaditano,
    Nem das Boreais ondas ao Estreito,
    Que mostrou o agravado Lusitano,
    Posto que em todo o mundo, de afrontados,
    Ressuscitassem todos os passados."

    56
    Como isto disse, manda o consagrado
    Filho de Maia à Terra, por que tenha
    Um pacífico porto o sossegado,
    Para onde sem receio a frota venha;
    F, para que em Mombaça, aventurado,
    O forte Capitão se não detenha,
    Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
    A terra, onde quieto repousasse.

    57
    Já pelo ar o Cileneu voava;
    Com as asas nos pés à Terra desce;
    Sua vara fatal na mão levava,
    Com que os olhos cansados adormece:
    Com esta, as tristes almas revocava
    Do Inferno, e o vento lhe obedece.
    Na cabeça o galero costumado.
    E desta arte a Melinde foi chegado.

    58
    Consigo a Fama leva, por que diga
    Do Lusitano o preço grande e raro,
    Que o nome ilustre a um certo amor obriga
    E faz, a quem o tem, amado e caro.
    Desta arte vai fazendo a gente amiga,
    Co rumor famosíssimo, e perclaro.
    Já Melinde em desejos arde todo
    De ver da gente forte o gesto e modo.

    59
    Dali para Mombaça logo parte,
    Aonde as naus estavam temerosas,
    Para que à gente mande que se aparte
    Da barra amiga e terras suspeitosas:
    Porque mui pouco val esforço e arte,
    Contra infernais vontades enganosas;
    Pouco val coração, astúcia e siso,
    Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

    60
    No feio caminho a noite tinha anelado,
    E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
    Tinham o largo Mundo alumiado;
    E só co'o sono a gente se recreia.
    O Capitão ilustre, já cansado
    De vigiar a noite que arreceia,
    Breve repouso então aos olhos dava,
    A outra gente a quartos vigiava;

    61
    Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
    Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
    Da cilada que o Rei malvado tece,
    Por te trazer ao fim, e extremo dano;
    Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
    Sereno o tempo tens e o Oceano,
    E outro Rei mais amigo, noutra parte,
    Onde podes seguro agasalhar-te.

    62
    "Não tens aqui senão aparelhado
    O hospício que o cru Diomedes dava,
    Fazendo ser manjar acostumado
    De cavalos a gente que hospedava;
    As aras de Busíris infamado,
    Onde os hóspedes tristes imolava,
    Terás certas aqui, se muito esperas.
    Fuge das gentes pérfidas e feras.

    63
    "Vai-te ao longo da costa discorrendo,
    E outra terra acharás de mais verdade,
    Lá quase junto donde o Sol ardendo
    Iguala o dia e noite em quantidade;
    Ali tua frota alegre recebendo
    Um Rei, com muitas obras de amizade,
    Gasalhado seguro te daria,
    E, para a índia, certa e sábia guia."

    64
    Isto Mercúrio disse, e o sono leva
    Ao Capitão, que com mui grande espanto
    Acorda, e vê ferida a escura treva
    De uma súbita luz e raio santo.
    E vendo claro quanto lhe releva
    Não se deter na terra iníqua tanto,
    Com novo espírito ao mestre seu mandava
    Que as velas desse ao vento que assopravam.

    65
    "Dai velas, disse, dai ao largo vento,
    Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
    Que um mensageiro vi do claro assento
    Que só em favor de nossos passos anda."
    Alevanta-se nisto o movimento
    Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
    Levam gritando as âncoras acima,
    Mostrando a ruda força, que se estima.

    66
    Neste tempo, que as âncoras levavam,
    Na sombra escura os Mouros escondidos
    Mansamente as amarras lhe cortavam,
    Por serem, dando à costa, destruídos;
    Mas com vista de linces vigiavam
    Os Portugueses, sempre apercebidos.
    Eles, como acordados os sentiram,
    Voando, e não remando, lhe fugiram.

    67
    Mas já as agudas proas apartando
    Iam as vias húmidas de argento;
    Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
    Com suave e seguro movimento.
    Nos perigos passados vão falando,
    Que mal se perderão do pensamento
    Os casos grandes, donde em tanto aperto
    A vida em salvo escapa por acerto.

    68
    Tinha uma volta dado o Sol ardente
    E noutro começava, quando viram
    Ao longe deus navios, brandamente
    Co'os ventos navegando, que respiram:
    Porque haviam de ser da Maura gente,
    Para eles arribando, as velas viram:
    Um, de temor do mal que arreceava,
    Por se salvar a gente à costa dava.

    69
    Não é o outro que fica tão manhoso;
    Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
    Sem o rigor de Marte furioso,
    E sem a fúria horrenda de Vulcano;
    Que como fosse débil e medroso
    Da pouca gente o fraco peito humano,
    Não teve resistência; e se a tivera,
    Mais dano resistindo recebera.

    70
    E como o Gama muito desejasse
    Piloto para a Índia que buscava,
    Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava,
    Que nenhum deles há que lhe ensinasse
    A que parte dos céus a Índia estava;
    Porém dizem-lhe todos, que tem perto
    Melinde, onde achará piloto certo.

    71
    Louvam do Rei os Mouros a bondade,
    Condição liberal, sincero peito,
    Magnificência grande e humanidade,
    Com partes de grandíssimo respeito.
    O Capitão o assela por verdade,
    Porque já lhe dissera, deste jeito,
    Cileneu em sonhos; e partia
    Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

    72
    Era no tempo alegre, quando entrava
    No roubador de Europa a luz Febeia,
    Quando um e outro corno lhe aquentava,
    E Flora derramava o de Amalteia:
    A memória do dia renovava
    O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
    Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
    O selo pôs a quanto tinha feito;

    73
    Quando chegava a frota àquela parte,
    Onde o Reino Melinde já se via,
    De toldos adornada, e leda de arte
    Que bem mostra estimar o santo dia.
    Treme a bandeira, voa o estandarte,
    A cor purpúrea ao longe aparecia;
    Soam os atambores o pandeiros,
    E assim entravam ledos e guerreiros.

    74
    Enche-se toda a praia Melindana
    Da gente que vem ver a leda armada,
    Gente mais verdadeira, e mais humana,
    Que toda a doutra terra atrás deixada.
    Surge diante a frota Lusitana,
    Pega no fundo a âncora pesada;
    Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
    Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

    75
    O Rei, que já sabia da nobreza
    Que tanto os Portugueses engrandece,
    Tomarem o seu porto tanto preza,
    Quanto a gente fortíssima merece:
    E com verdadeiro ânimo e pureza,
    Que os peitos generosos enobrece,
    Lhe manda rogar muito que saíssem,
    Para que de seus reinos se servissem.

    76
    São oferecimentos verdadeiros,
    E palavras sinceras, não dobradas,
    As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
    Que tanto mar e terras tem passadas.
    Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
    E galinhas domésticas cevadas,
    Com as frutas, que então na terra havia;
    E a vontade à dádiva excedia.

    77
    Recebe o Capitão alegremente
    O mensageiro ledo e seu recado;
    E logo manda ao Rei outro presente,
    Que de longe trazia aparelhado:
    Escarlata purpúrea, cor ardente,
    O ramoso coral, fino e prezado,
    Que debaixo das águas mole cresce,
    E como é fora delas se endurece.

    78
    Manda mais um, na prática elegante,
    Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
    E que de não sair naquele instante
    De suas naus em terra o desculpasse.
    Partido assim o embaixador prestante,
    Como na terra ao Rei se apresentasse,
    Com estilo que Palas lhe ensinava,
    Estas palavras tais falando orava:

    79
    "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
    Foi da suma Justiça concedido
    Refrear o soberbo povo duro,
    Não menos dele amado, que temido:
    Como porto mui forte e mui seguro,
    De todo o Oriente conhecido,
    Te vimos a buscar, para que achemos
    Em ti o remédio certo que queremos.

    80
    "Não somos roubadores, que passando
    Pelas fracas cidades descuidadas,
    A ferro e a fogo as gentes vão matando,
    Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
    Mas da soberba Europa navegando,
    Imos buscando as terras apartadas
    Da Índia grande e rica, por mandado
    De um Rei que temos, alto e sublimado.

  6. #96
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    81
    "Que geração tão dura há hi de gente,
    Que bárbaro costume e usança feia,
    Que não vedem os portos tão somente,
    Mas inda o hospício da deserta areia?
    Que má tenção, que peito em nós se sente,
    Que de tão pouca gente se arreceia?
    Que com laços armados, tão fingidos,
    Nos ordenassem ver-nos destruídos?

    82
    "Mas tu, e quem mui certo confiamos
    Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
    E aquela certa ajuda em ti esperamos,
    Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
    A teu porto seguro navegamos,
    Conduzidos do intérprete divino;
    Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
    Que és de peito sincero, humano e raro.

    83
    "E não cuides, ó Rei, que não saísse
    O nosso Capitão esclarecido
    A ver-te, ou a servir-te, porque visse
    Ou suspeitasse em ti peito fingido:
    Mas saberás que o fez, porque cumprisse
    O regimento, em tudo obedecido,
    De seu Rei, que lhe manda que não saia,
    Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

    84
    "E porque é, de vassalos o exercício,
    Que os membros tem regidos da cabeça,
    Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
    Que ninguém a seu Rei desobedeça;
    Mas as mercês e o grande benefício,
    Que ora acha em ti, promete que conheça
    Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
    Enquanto os rios para o mar correrem."

    85
    Assim dizia; e todos juntamente,
    Uns com outros em prática falando,
    Louvavam muito o estâmago da gente,
    Que tantos céus e mares vai passando.
    E o Rei ilustre, o peito obediente
    Dos Portugueses na alma imaginando,
    Tinha por valor grande e mui subido
    O do Rei que é tão longe obedecido.

    86
    E com risonha vista e ledo aspeito,
    Responde ao embaixador, que tanto estima:
    "Toda a suspeita má tirai do peito,
    Nenhum frio temor em vós se imprima;
    Que vosso preço e obras são de jeito
    Para vos ter o mundo em muita estima;
    E quem vos fez molesto tratamento,
    Não pode ter subido pensamento.

    87
    "De não sair em terra toda a gente,
    Por observar a usada preminência,
    Ainda que me pese estranhamente,
    Em muito tenho a muita obediência;
    Mas, se lho o regimento não consente,
    Nem eu consentirei que a excelência
    De peitos tão leais em si desfaça,
    Só porque a meu desejo satisfaça.

    88
    "Porém, como a luz crástina chegada
    Ao mundo for, em minhas almadias
    Eu irei visitar a forte armada,
    Que ver tanto desejo, há tantos dias;
    E se vier do mar desbaratada,
    Do furioso vento e longas vias,
    Aqui terá, de limpos pensamentos,
    Piloto, munições e mantimentos."

    89
    Isto disse; e nas águas se escondia
    O filho de Latona; e o mensageiro
    Coa embaixada alegre se partia
    Para a frota, no seu batel ligeiro.
    Enchem-se os peitos todos de alegria.
    Por terem o remédio verdadeiro
    Para acharem a terra que buscavam;
    E assim ledos a noite festejavam.

    90
    Não faltam ali os raios de artifício,
    Os trêmulos cometas imitando;
    Fazem os bombardeiros seu ofício,
    O céu, a terra e as ondas atroando.
    Mostra-se dos Ciclopas o exercício
    Nas bombas que de fogo estão queimando;
    Outros com vozes, com que o céu feriam,
    Instrumentos altíssonos tangiam.

    91
    Respondem-lhe da terra juntamente,
    Co'o raio volteando, com zunido;
    Anda em giros no ar a roda ardente,
    Estoura o pó sulfúreo escondido.
    A grita se alevanta ao céu, da gente;
    O mar se via em fogos acendido,
    E não menos a terra; e assim festeja
    Um ao outro, a maneira de peleja.

    92
    Mas já o Céu inquieto revolvendo,
    As gentes incitava a seu trabalho,
    E já a mãe de Menon a luz trazendo,
    Ao sono longo punha certo atalho;
    Iam-se as sombras lentas desfazendo,
    Sobre as flores da terra em frio orvalho,
    Quando o Rei Melindano se embarcava
    A ver a frota, que no mar estava.

    93
    Viam-se em derredor ferver as praias
    Da gente, que a ver só concorre leda;
    Luzem da fina púrpura as cabaias,
    Lustram os panos da tecida seda;
    Em lugar das guerreiras azagaias
    E do arco, que os cornos arremeda
    Da Lua, trazem ramos de palmeira,
    Dos que vencem, coroa verdadeira.

    94
    Um batel grande e largo, que toldado
    Vinha de sedas de diversas cores,
    Traz o Rei de Melinde, acompanhado
    De nobres e seu Reino e de senhores:
    Vem de ricos vestidos adornado,
    Segundo seus costumes e primores;
    Na cabeça uma fota guarnecida
    De ouro, e de seda e de algodão tecida.

    95
    Cabaia de Damasco rico e dino,
    Da Tíria cor, entre eles estimada,
    Um colar ao pescoço, de ouro fino,
    Onde a matéria da obra é superada,
    C'um resplendor reluze adamantino;
    Na cinta, a rica bem lavrada;
    Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
    Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.

    96
    Com um redondo emparo alto de seda,
    Numa alta e dourada hástia enxerido,
    Um ministro à solar quentura veda.
    Que não ofenda e queime o Rei subido.
    Música traz na proa, estranha e leda,
    De áspero som, horríssono ao ouvido,
    De trombetas arcadas em redondo,
    Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

    97
    Não menos guarnecido o Lusitano
    Nos seus batéis, da frota se partia
    A receber no mar o Melindano,
    Com lustrosa e lograda companhia.
    Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
    Mas Francesa era a roupa que vestia,
    De cetim da Adriática Veneza
    Carmesi, cor que a gente tanto preza:

    98
    De botões douro as mangas vêm tomadas,
    Onde o Sol reluzindo a vista cega;
    As calças soldadescas recamadas
    Do metal, que Fortuna a tantos nega,
    E com pontas do mesmo delicadas
    Os golpes do gibão ajunta e achega;
    Ao Itálico modo a áurea espada;
    Pluma na gorra, um pouco declinada.

    99
    Nos de sua companhia se mostrava
    Da tinta, que dá o múrice excelente,
    A vária cor, que os olhos alegrava,
    E a maneira do trajo diferente.
    Tal o formoso esmalte se notava
    Dos vestidos, olhados juntamente,
    Qual aparece o arco rutilante
    Da bela Ninfa, filha de Taumante.

    100
    Sonorosas trombetas incitavam
    Os ânimos alegres, ressoando;
    Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
    Os toldos pelas águas arrojando;
    As bombardas horríssonas bramavam,
    Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
    Amiúdam-se os brados acendidos,
    Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.

    101
    Já no batel entrou do Capitão
    O Rei, que nos seus braços o levava;
    Ele coa cortesia, que a razão
    (Por ser Rei) requeria, lhe falava.
    C'umas mostras de espanto e admiração,
    O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
    Como quem em mui grande estima tinha
    Gente que de tão longe à índia vinha.

    102
    E com grandes palavras lhe oferece
    Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
    E que, se mantimento lhe falece,
    Como se próprio fosse, lho pedisse.
    Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
    A gente Lusitana, sem que a visse;
    Que já ouviu dizer, que noutra terra
    Com gente de sua Lei tivesse guerra.

    103
    E como por toda África se soa,
    Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
    Quando nela ganharam a coroa
    Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
    E com muitas palavras apregoa
    O menos que os de Luso mereceram,
    E o mais que pela fama o Rei sabia.
    Mas desta sorte o Gama respondia:

    104
    "Ó tu, que só tiveste piedade,
    Rei benigno, da gente Lusitana,
    Que com tanta miséria e adversidade
    Dos mares experimenta a fúria insana;
    Aquela alta e divina Eternidade,
    Que o Céu revolve e rege a gente humana,
    Pois que de ti tais obras recebemos,
    Te pague o que nós outros não podemos.

    105
    "Tu só, de todos quantos queima Apolo,
    Nos recebes em paz, cio mar profundo;
    Em ti dos ventos hórridos de Eolo
    Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
    Enquanto apascentar o largo Pólo
    As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
    Onde quer que eu viver, com fama e glória
    Viverão teus louvores em memória."

    106
    Isto dizendo, os barcos vão remando
    Para a frota, que o Mouro ver deseja;
    Vão as naus uma e uma rodeando,
    Porque de todas tudo note e veja.
    Mas para o céu Vulcano fuzilando,
    A frota coas bombardas o festeja,
    E as trombetas canoras lhe tangiam;
    Co'os anafis os Mouros respondiam.

    107
    Mas depois de ser tudo já notado
    Do generoso Mouro, que pasmava
    Ouvindo o instrumento inusitado,
    Que tamanho terror em si mostrava,
    Mandava estar quieto e ancorado
    N'água o batel ligeiro que os levava,
    Por falar de vagar co'o forte Gama,
    Nas cousas de que tem notícia e faina.

    108
    Em práticas o Mouro diferentes
    Se deleitava, perguntando agora
    Pelas guerras famosas e excelentes
    Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
    Agora lhe pergunta pelas gentes
    De toda a Hespéria última, onde mora;
    Agora pelos povos seus vizinhos,
    Agora pelos úmidos caminhos.

    109
    "Mas antes, valeroso Capitão,
    Nos conta, lhe dizia, diligente,
    Da terra tua o clima, e região
    Do mundo onde morais distintamente;
    E assim de vossa antiga geração,
    E o princípio do Reino tão potente,
    Co'os sucessos das guerras do começo,
    Que, sem sabê-las, sei que são de preço.

    110
    "E assim também nos conta dos rodeios
    Longos, em que te traz o mar irado,
    Vendo os costumes bárbaros alheios.
    Que a nossa África ruda tem criado.
    Conta: que agora vêm co'os áureos freios
    Os cavalos que o carro marchetado
    Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
    O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

    111
    "E não menos co'o tempo se parece
    O desejo de ouvir-te o que contares;
    Que quem há, que por fama não conhece
    As obras Portuguesas singulares?
    Não tanto desviado resplandece
    De nós o claro Sol, para julgares
    Que os Melindanos têm tão rudo peito,
    Que não estimem muito um grande feito.

    112
    "Cometeram soberbos os Gigantes,
    Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
    Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
    O Reino de Plutão horrendo e escuro.
    Se houve feitos no mundo tão possantes,
    Não menos é trabalho ilustre e duro,
    Quanto foi cometer Inferno o Céu,
    Que outrem cometa a fúria de Nereu.

    113
    "Queimou o sagrado templo de Diana,
    Do subtil Tesifónio fabricado,
    Heróstrato, por ser da gente humana
    Conhecido no mundo e nomeado:
    Se também com tais obras nos engana
    O desejo de um nome avantajado,
    Mais razão há que queira eterna glória
    Quem faz obras tão dignas de memória."

    Canto Terceiro

    1
    Agora tu, Calíope, me ensina
    O que contou ao Rei o ilustre Gama:
    Inspira imortal canto e voz divina
    Neste peito mortal, que tanto te ama.
    Assim o claro inventor da Medicina,
    De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
    Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
    Te negue o amor devido, como soe.

    2
    Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
    Como merece a gente Lusitana;
    Que veja e saiba o mundo que do Tejo
    O licor de Aganipe corre e mana.
    Deixa as flores de Pindo, que já vejo
    Banhar-me Apolo na água soberana;
    Senão direi que tens algum receio,
    Que se escureça o teu querido Orfeio.

    3
    Prontos estavam todos escutando
    O que o sublime Gama contaria,
    Quando, depois de um pouco estar cuidando,
    Alevantando o rosto, assim dizia:
    "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
    De minha gente a grão genealogia:
    Não me mandas contar estranha história,
    Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

    4
    "Que outrem possa louvar esforço alheio,
    Cousa é que se costuma e se deseja;
    Mas louvar os meus próprios, arreceio
    Que louvor tão suspeito mal me esteja;
    E para dizer tudo, temo e creio,
    Que qualquer longo tempo curto seja:
    Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
    Irei contra o que devo, e serei breve.

    5
    "Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
    É não poder mentir no que disser,
    Porque de feitos tais, por mais que diga,
    Mais me há-de ficar inda por dizer.
    Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
    Segundo o que desejas de saber,
    Primeiro tratarei da larga terra,
    Depois direi da sanguinosa guerra.

    6
    "Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
    Meta setentrional do Sol luzente,
    E aquela que por f ria se arreceia
    Tanto, como a do meio por ardente,
    Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
    Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
    Com suas salsas ondas o Oceano,
    E pela Austral o mar Mediterrano.

    7
    "Da parte donde o dia vem nascendo,
    Com Ásia se avizinha; mas o rio
    Que dos montes Rifeios vai correndo,
    Na alagoa Meotis, curvo o frio,
    As divide: e o mar que, fero e horrendo,
    Viu dos Gregos o irado senhorio,
    Onde agora de Tróia triunfante
    Não vê mais que a memória o navegante.

    8
    "Lá onde mais debaixo está do Pólo,
    Os montes Hiperbóreos aparecem,
    E aqueles onde sempre sopra Eolo,
    E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
    Aqui tão pouca força tem de Apolo
    Os raios que no mundo resplandecem,
    Que a neve está contido pelos montes,
    Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

    9
    "Aqui dos Citas grande quantidade
    Vivem, que antigamente grande guerra
    Tiveram, sobre a humana antiguidade,
    Co'os que tinham então a Egípcia terra;
    Mas quem tão fora estava da verdade,
    (Já que o juízo humano tanto erra)
    Para que do mais certo se informara,
    Ao campo Damasceno o perguntara.

    10
    "Agora nestas partes se nomeia
    A Lápia fria, a inculta Noruega,
    Escandinávia Ilha, que se arreia
    Das vitórias que Itália não lhe nega.
    Aqui, enquanto as águas não refreia
    O congelado inverno, se navega
    Um braço do Sarmático Oceano
    Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.

    11
    "Entre este mar e o Tánais vive estranha
    Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
    Sármatas outro tempo; e na montanha
    Hircínia os Marcomanos são Polónios.
    Sujeitos ao Império de Alemanha
    São Saxones, Boêmios e Panónios,
    E outras várias nações, que o Reno frio
    Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.

    12
    "Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
    Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
    Estão os Traces de robusto peito,
    Do fero Marte pátria tão querida,
    Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
    Ao Otomano está, que submetida
    Bizâncio tem a seu serviço indino:
    Boa injúria do grande Constantino!

    13
    "Logo de Macedónia estão as gentes,
    A quem lava do Axio a água fria;
    E vós também, ó terras excelentes
    Nos costumes, engenhos e ousadia,
    Que criastes os peitos eloquentes
    E os juízos de alta fantasia,
    Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
    E não menos por armas, que por letras.

    14
    "Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
    Onde Antenor já muros levantou,
    A soberba Veneza está no meio
    Das águas, que tão baixa começou.
    Da terra um braço vem ao mar, que cheio
    De esforço, nações várias sujeitou,
    Braço forte, de gente sublimada,
    Não menos nos engenhos, que na espada.

    15
    "Em torno o cerca o Reino Neptunino,
    Co'os muros naturais por outra parte;
    Pelo meio o divide o Apenino,
    Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
    Mas depois que o Porteiro tem divino,
    Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
    Pobre está já de antiga potestade:
    Tanto Deus se contenta de humildade!

    16
    "Gália ali se verá que nomeada
    Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
    Que do Séquana e Ródano é regada,
    E do Giruna frio e Reno fundo.
    Logo os montes da Ninfa sepultada
    Pirene se alevantam, que segundo
    Antiguidades contam, quando arderam,
    Rios de ouro e de prata então correram.

    17
    "Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
    Como cabeça ali de Europa toda,
    Em cujo senhorio o glória estranha
    Muitas voltas tem dado a fatal roda;
    Mas nunca poderá, com força ou manha,
    A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
    Que lhe não tire o esforço e ousadia
    Dos belicosos peitos que em si cria.

    18
    "Com Tingitânia entesta, e ali parece
    Que quer fechar o mar Mediterrano,
    Onde o sabido Estreito se enobrece
    Co'o extremo trabalhado Tebano.
    Com nações diferentes se engrandece,
    Cercadas com as ondas do Oceano;
    Todas de tal nobreza e tal valor,
    Que qualquer delas cuida que é melhor.

    19
    "Tem o Tarragonês, que se fez claro
    Sujeitando Parténope inquieta;
    O Navarro, as Astúrias, que reparo
    Já foram contra a gente Mahometa;
    Tem o Galego cauto, e o grande e raro
    Castelhano, a quem fez o seu Planeta
    Restituidor de Espanha e senhor dela,
    Bétis, Lião, Granada, com Castela.

    20
    "Eis aqui, quase cume da cabeça
    De Europa toda, o Reino Lusitano,
    Onde a terra se acaba e o mar começa,
    E onde Febo repousa no Oceano.
    Este quis o Céu justo que floresça
    Nas armas contra o torpe Mauritano,
    Deitando-o de si fora, e lá na ardente
    África estar quieto o não consente.

  7. #97
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
    Date d'inscription
    octobre 2007
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    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    22
    "Esta é a ditosa pátria minha amada,
    A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
    Torne, com esta empresa já acabada,
    Acabe-se esta luz ali comigo.
    Esta foi Lusitânia, derivada
    De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
    Filhos foram, parece, ou companheiros,
    E nela então os Íncolas primeiros.

    22
    "Desta o pastor nasceu, que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguém virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve.
    Esta, o velho que os filhos próprios come
    Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
    Veio a fazer no mundo tanta parte,
    Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:

    23
    "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
    Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
    Que por armas sanguinas, força e manha,
    A muitos fez perder a vida o a terra;
    Voando deste Rei a fama estranha
    Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
    Muitos, para na guerra esclarecer-se,
    Vinham a ele e à morte oferecer-se.

    24
    "E com um amor intrínseco acendidos
    Da Fé, mais que das honras populares,
    Eram de várias terras conduzidos,
    Deixando a pátria amada e próprios lares.
    Depois que em feitos altos e subidos
    Se mostraram nas armas singulares,
    Quis o famoso Afonso que obras tais
    Levassem prémio digno e dons iguais.

    25
    "Destes Anrique, dizem que segundo
    Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
    Portugal houve em sorte, que no mundo
    Então não era ilustre nem prezado;
    E, para mais sinal d'amor profundo,
    Quis o Rei Castelhano, que casado
    Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
    E com ela das terras tornou posse.

    26
    "Este, depois que contra os descendentes
    Da escrava Agar vitórias grandes teve,
    Ganhando muitas terras adjacentes,
    Fazendo o que a seu forte peito deve,
    Em prémio destes feitos excelentes,
    Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
    Um filho, que ilustrasse o nome ufano
    Do belicoso Reino Lusitano.

    27
    "Já tinha vindo Anrique da conquista
    Da cidade Hierosólima sagrada,
    E do Jordão a areia tinha vista,
    Que viu de Deus a carne em si lavada;
    Que não tendo Gotfredo a quem resista,
    Depois de ter Judeia sojugada,
    Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
    Para seus senhorios se tornaram;

    28
    "Quando chegado ao fim de sua idade,
    O forte e famoso Úngaro estremado,
    Forçado da fatal necessidade,
    O espírito deu a quem lhe tinha dado,
    Ficava o filho em tenra mocidade,
    Em quem o pai deixava seu traslado,
    Que do mundo os mais fortes igualava;
    Que de tal pai tal filho se esperava.

    29
    "Mas o velho rumor, não sei se errado,
    Que em tanta antiguidade não há certeza,
    Conta que a mãe, tomando todo o estado,
    Do segundo himeneu não se despreza.
    O filho órfão deixava deserdado,
    Dizendo que nas terras a grandeza
    Do senhorio todo só sua era,
    Porque, para casar, seu pai lhes dera.

    30
    "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
    Se chamava, do avô tomando o nome,
    Vendo-se em suas terras não ter parte,
    Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
    Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
    Imagina consigo como as tome.
    Revolvidas as causas no conceito,
    Ao propósito firme segue o efeito.

    31
    "De Guimarães o campo se tingia
    Co'o sangue próprio da intestina guerra,
    Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
    A seu filho negava o amor e a terra.
    Com ele posta em campo já se via;
    E não vê a soberba o muito que erra
    Contra Deus, contra o maternal amor;
    Mas nela o sensual era maior.

    32
    "Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
    Se em vossos próprios filhos vos vingais
    Da maldade dos pais, da culpa alheia,
    Olhai que inda Teresa peca mais:
    Incontinência má, cobiça feia,
    São as causas deste erro principais:
    Cila, por uma, mata o velho pai,
    Esta, por ambas, contra o filho vai.

    33
    "Mas já o Príncipe claro o vencimento
    Do padrasto e da iníqua mãe levava;
    Já lhe obedece a terra num momento,
    Que primeiro contra ele pelejava.
    Porém, vencido de ira o entendimento,
    A mãe em ferros ásperos atava;
    Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
    Tanta veneração aos pais se deve!

    34
    "Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
    Para vingar a injúria de Teresa,
    Contra o tão raro em gente Lusitano,
    A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
    Em batalha cruel o peito humano,
    Ajudado da angélica defesa,
    Não só contra tal fúria se sustenta,
    Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

    35
    "Não passa muito tempo, quando o forte
    Príncipe em Guimarães está cercado
    De infinito poder; que desta sorte
    Foi refazer-se o inimigo magoado;
    Mas, com se oferecer à dura morte
    O fiel Egas amo, foi livrado;
    Que de outra arte pudera ser perdido,
    Segundo estava mal apercebido.

    36
    "lulas o leal vassalo, conhecendo
    Que seu senhor não tinha resistência,
    Se vai ao Castelhano, prometendo
    Que ele faria dar-lhe obediência.
    Levanta o inimigo o cerco horrendo,
    Fiado na promessa e consciência
    De Egas Moniz; mas não consente o peito
    Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

    37
    "Chegado tinha o prazo prometido,
    Em que o Rei Castelhano já aguardava
    Que o Príncipe, a seu mando sometido,
    Lhe desse a obediência que esperava.
    Vendo Egas que ficava fementido,
    O que dele Castela não cuidava,
    Determina de dar a doce vida
    A troco da palavra mal cumprida.
    Dernière modification par duarte1 ; 10/12/2009 à 02h58.

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    38
    "E com seus filhos e mulher se parte
    A alevantar com eles a fiança,
    Descalços e despidos, de tal arte,
    Que mais move a piedade que a vingança.
    --"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
    De minha temerária confiança,
    Dizia, eis aqui venho oferecido
    A te pagar, coa vida, o prometido.

    39
    "Vês aqui trago as vidas inocentes
    Dos filhos sem pecado e da consorte;
    Se a peitos generosos e excelentes,
    Dos fracos satisfaz a fera morte.
    Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
    Nelas sós exprimenta toda a sorte
    De tormentos, de mortes, pelo estilo
    De Cínis e do touro de Perilo"!--

    40
    "Qual diante do algoz o condenado,
    Que já na vida a morte tem bebido,
    Põe no cepo a garganta, e já entregado
    Espera pelo golpe tão temido:
    Tal diante do Príncipe indinado,
    Egas estava a tudo oferecido.
    Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
    Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.

    41
    "Ó grão fidelidade Portuguesa,
    De vassalo, que a tanto se obrigava!
    Que mais o Persa fez naquela empresa,
    Onde rosto e narizes se cortava?
    Do que ao grande Dario tanto pesa,
    Que mil vezes dizendo suspirava,
    Que mais o seu Zopiro são prezara,
    Que vinte Babilónias que tomara.

    42
    Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
    O Lusitano exército ditoso,
    Contra o Mouro que as terras habitava
    D'além do claro Tejo deleitoso;
    Já no campo de Ourique se assentava
    O arraial soberbo e belicoso,
    Defronte do inimigo Sarraceno,
    Posto que em força e gente tão pequeno.

    43
    "Em nenhuma outra cousa confiado,
    Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
    Que tão pouco era o povo batizado,
    Que para um só cem Mouros haveria.
    Julga qualquer juízo sossegado
    Por mais temeridade que ousadia,
    Cometer um tamanho ajuntamento,
    Que para um cavaleiro houvesse cento.

    44
    "Cinco Reis Mouros são os inimigos,
    Dos quais o principal Ismar se chama;
    Todos exprimentados nos perigos
    Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
    Seguem guerreiras damas seus amigos,
    Imitando a formosa e forte Dama,
    De quem tanto os Troianos se ajudaram,
    E as que o Termodonte já gostaram.

    45
    "A matutina luz serena e fria,
    As estrelas do Pólo já apartava,
    Quando na Cruz o Filho de Maria,
    Amostrando-se a Afonso, o animava.
    Ele, adorando quem lhe aparecia,
    Na Fé todo inflamado assim gritava:
    --"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
    E não a mim, que creio o que podeis!"

    46
    "Com tal milagre os ânimos da gente
    Portuguesa inflamados, levantavam
    Por seu Rei natural este excelente
    Príncipe, que do peito tanto amavam;
    E diante do exército potente
    Dos imigos, gritando o céu tocavam,
    Dizendo em alta voz:--"Real, real,
    Por Afonso alto Rei de Portugal."

    47
    "Qual co'os gritos e vozes incitado,
    Pela montanha o rábido Moloso,
    Contra o touro remete, que fiado
    Na força está do corno temeroso:
    Ora pega na orelha, ora no lado,
    Latindo mais ligeiro que forçoso,
    Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
    Do bravo a força horrenda se quebranta:

    48
    "Tal do Rei novo o estâmago acendido
    Por Deus e pelo povo juntamente,
    O Bárbaro comete apercebido,
    Co'o animoso exército rompente.
    Levantam nisto os perros o alarido
    Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
    As lanças e arcos tomam, tubas soam,
    Instrumentos de guerra tudo atroam.

    49
    "Bem como quando a flama, que ateada
    Foi nos áridos campos (assoprando
    O sibilante Bóreas) animada
    Co'o vento, o seco mato vai queimando;
    A pastoral companha, que deitada
    Co'o doce sono estava, despertando
    Ao estridor do fogo que se ateia,
    Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

    50
    "Desta arte o Mouro atónito e torvado,
    Toma sem tento as armas mui depressa;
    Não foge; mas espera confiado,
    E o ginete belígero arremessa.
    O Português o encontra denodado,
    Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
    Uns caem meios mortos, e outros vão
    A ajuda convocando do Alcorão.

    51
    "Ali se vêem encontros temerosos,
    Para se desfazer uma alta serra,
    E os animais correndo furiosos
    Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
    Golpes se dão medonhos e forçosos;
    Por toda a parte andava acesa a guerra:
    Mas o de Luso arnês, couraça e malha
    Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

    52
    "Cabeças pelo campo vão saltando
    Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
    E doutros as entranhas palpitando,
    Pálida a cor, o gesto amortecido.
    Já perde o campo o exército nefando;
    Correm rios de sangue desparzido,
    Com que também do campo a cor se perde,
    Tornado carmesi de branco e verde.

    53
    "Já fica vencedor o Lusitano,
    Recolhendo os troféus e presa rica;
    Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
    Três dias o grão Rei no campo fiei.
    Aqui pinta no branco escudo ufano,
    Que agora esta vitória certifica,
    Cinco escudos azuis esclarecidos,
    Em sinal destes cinco Reis vencidos,

    54
    "E nestes cinco escudos pinta os trinta
    Dinheiros por que Deus fora vendido,
    Escrevendo a memória em vária tinta,
    Daquele de quem foi favorecido.
    Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
    Porque assim fica o número cumprido,
    Contando duas vezes o do meio,
    Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

    55
    "Passado já algum tempo que passada
    Era esta grão vitória, o Rei subido
    A tomar vai Leiria, que tomada
    Fora, mui pouco havia, do vencido.
    Com esta a forte Arronches sojugada
    Foi juntamente, e o sempre enobrecido
    Scalabicastro, cujo campo ameno,
    Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

    56
    "A estas nobres vilas sometidas,
    Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
    E nas serras da Lua conhecidas,
    Sojuga a fria Sintra o duro braço;
    Sintra, onde as Naiades, escondidas
    Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
    Onde Amor as enreda brandamente,
    Nas águas acendendo fogo ardente.

    57
    "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
    Facilmente das outras és princesa,
    Que edificada foste do facundo,
    Por cujo engano foi Dardânia acesa;
    Tu, a quem obedece o mar profundo,
    Obedeceste à força Portuguesa,
    Ajudada também da forte armada,
    Que das Boreais partes foi mandada.

    58
    "Lá do Germânico Albis, e do Rene,
    E da fria Bretanha conduzidos,
    A destruir o povo Sarraceno,
    Muitos com tensão santa eram partidos.
    Entrando a boca já do Tejo ameno,
    Co'o arraial do grande Afonso unidos,
    Cuja alta fama então subia aos Céus,
    Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

    59
    "Cinco vezes a Lua se escondera,
    E outras tantas mostrara cheio o rosto,
    Quando a cidade entrada se rendera
    Ao duro cerco, que lhe estava posto.
    Foi a batalha tão sanguina e fera,
    Quanto obrigava o firme pressuposto
    De vencedores ásperos e ousados,
    E de vencidos já desesperados.

    60
    "Desta arte enfim tomada se rendeu
    Aquela que, nos tempos já passados,
    A grande força nunca obedeceu
    Dos frios povos Cíticos ousados,
    Cujo poder a tanto se estendeu
    Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
    E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
    Que à terra de Vandália nome deram.

    61
    "Que cidade tão forte por ventura
    Haverá que resista, se Lisboa
    Não pôde resistir à força dura
    Da gente, cuja fama tanto voa?
    Já lhe obedece toda a Estremadura,
    Óbidos, Alenquer, por onde soa
    O tom das frescas águas, entre as pedras,
    Que murmurando lava, e Torres Vedras.

    62
    "E vós também, ó terras Transtaganas,
    Afamadas co'o dom da flava Ceres,
    Obedeceis às forças mais que humanas,
    Entregando-lhe os muros e os poderes.
    E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
    Se sustentar a fértil terra queres;
    Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
    E Alcácere-do-Sal estão rendidas.

    63
    "Eis a nobre Cidade, certo assento
    Do rebelde Sertório antigamente,
    Onde ora as águas nítidas de argento
    Vem sustentar de longo a terra e a gente,
    Pelos arcos reais, que cento e cento
    Nos ares se alevantam nobremente,
    Obedeceu por meio e ousadia
    De Giraldo, que medos não temia.

    64
    "Já na cidade Beja vai tomar
    Vingança de Trancoso destruída
    Afonso, que não sabe sossegar,
    Por estender coa fama a curta vida.
    Não se lhe pode muito sustentar
    A cidade; mas sendo já rendida,
    Em toda a cousa viva a gente irada
    Provando os fios vai da dura espada.

    65
    "Com estas sojugada foi Palmela,
    E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
    Sendo ajudado mais de sua estrela,
    Desbarata um exército potente:
    Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
    Que a socorrê-la vinha diligente
    Pela fralda da serra, descuidado
    Do temeroso encontro inopinado.

    66
    "O Rei de Badajoz era alto Mouro,
    Com quatro mil cavalos furiosos,
    Inúmeros peões, d'armas e de ouro
    Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
    Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
    Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
    Sentindo gente o bruto e cego amante
    Salteia o descuidado caminhante:

    67
    "Desta arte Afonso súbito mostrado
    Na gente dá, que passa bem segura,
    Fere, mata, derriba denodado;
    Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
    Dum pânico terror todo assombrado,
    Só de segui-lo o exército procura;
    Sendo estes que fizeram tanto abalo
    Não mais que só sessenta de cavalo.

    68
    "Logo segue a vitória sem tardança
    O grão Rei incansábil, ajuntando
    Gentes de todo o Reino, cuja usança
    Era andar sempre terras conquistando.
    Cercar vai Badajoz, e logo alcança
    O fim de seu desejo, pelejando
    Com tanto esforço, e arte, e valentia,
    Que a fez fazer às outras companhia.

  9. #99
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    69
    "Mas o alto Deus, que para longe guarda
    O castigo daquele que o merece,
    Ou, para que se emende, às vezes tarda,
    Ou por segredos que homem não conhece,
    Se até que sempre o forte Rei resguarda
    Dos perigos a que ele se oferece;
    Agora lhe não deixa ter defesa
    Da maldição da mãe que estava presa.

    70
    "Que estando na cidade, que cercara,
    Cercado nela foi dos Lioneses,
    Porque a conquista dela lhe tomara,
    De Lião sendo, e não dos Portugueses.
    A pertinácia aqui lhe custa cara,
    Assim como acontece muitas vezes,
    Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
    A batalha, onde foi vencido e preso.

    71
    "Ó famoso Pompeio, não te pene
    De teus feitos ilustres a ruína,
    Nem ver que a justa Némesis ordene
    Ter teu sogro de ti vitória dina,
    Posto que o frio Fásis, ou Siene,
    Que para nenhum cabo a sombra inclina,
    O Bootes gelado e a linha ardente,
    Temessem o teu nome geralmente.

    72
    "Posto que a rica Arábia e que os ferozes
    Eníocos e Colcos, cuja fama
    O Véu dourado estende, e os Capadoces,
    E Judeia, que um Deus adora e ama,
    E que os moles Sofenos, e os atroces
    Cilícios, com a Arménia, que derrama
    As águas dos dous rios, cuja fonte
    Está noutro mais alto e santo monte;

    73
    "E posto enfim que desde o mar de Atlante
    Até o Cítico Tauro monte erguido,
    Já vencedor te vissem, não te espanto
    Se o campo Emátio só te viu vencido,
    Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
    Tudo render-se ser depois rendido.
    Assim o quis o conselho alto e celeste,
    Que vença o sogro a ti, e o genro a este.

    74
    "Tornado o Rei sublime finalmente,
    Do divino Juízo castigado,
    Depois que em Santarém soberbamente
    Em vão dos Sarracenos foi cercado,
    E depois que do mártire Vicente
    O santíssimo corpo venerado
    Do Sacro Promontório conhecido
    A cidade Ulisseia foi trazido;

    75
    "Porque levasse avante seu desejo,
    Ao forte filho manda o lasso velho
    Que às terras se passasse d'Alentejo,
    Com gente e co'o belígero aparelho.
    Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
    Avante passa, e faz correr vermelho
    O rio que Sevilha vai regando,
    Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.

    76
    "E com esta vitória cobiçoso,
    Já não descansa o moço até que veja
    Outro estrago como este, temeroso,
    No Bárbaro que tem cercado Beja.
    Não tarda muito o Príncipe ditoso
    Sem ver o fim daquilo que deseja.
    Assim estragado o Mouro, na vingança
    De tantas perdas põe sua esperança.

    77
    "Já se ajuntam do monte a quem Medusa
    O corpo fez perder, que teve o Céu;
    Já vem do promontório de Ampelusa
    E do Tinge, que assento foi de Anteu.
    O morador de Abila não se escusa,
    Que também com suas armas se moveu,
    Ao som da Mauritana e ronca tuba,
    Todo o Reino que foi do nobre Juba.

    78
    "Entrava com toda esta companhia
    O Miralmomini em Portugal;
    Treze Reis mouros leva de valia,
    Entre os quais tem o ceptro imperial;
    E assim fazendo quanto mal podia,
    O que em partes podia fazer mal,
    Dom Sancho vai cercar em Santarém;
    Porém não lhe sucede muito bem.

    79
    "Dá-lhe combates ásperos, fazendo
    Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
    Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
    Mina secreta, aríete forçoso:
    Porque o filho de Afonso não perdendo
    Nada do esforço e acordo generoso,
    Tudo provê com ânimo e prudência;
    Que em toda a parte há esforço e resistência.

    80
    "Mas o velho, a quem tinham já obrigado
    Os trabalhosos anos ao sossego,
    Estando na cidade, cujo prado
    Enverdecem as águas do Mondego,
    Sabendo como o filho está cercado
    Em Santarém do Mauro povo cego,
    Se parte diligente da cidade;
    Que não perde a presteza coa idade.

    81
    "E coa famosa gente à guerra usada
    Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
    A Portuguesa fúria costumada
    Em breve os Mouros tem desbaratados.
    A campina, que toda está coalhada
    De marlotas, capuzes variados,
    De cavalos, jaezes, presa rica,
    De seus senhores mortos cheia fica.

    82
    "Logo todo o restante se partiu
    De Lusitânia, postos em fugida;
    O Miralmomini só não fugiu,
    Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
    A quem lhe esta vitória permitiu
    Dão louvores e graças sem medida:
    Que em casos tão estranhos claramente
    Mais peleja o favor de Deus que a gente.

    83
    "De tamanhas vitórias triunfava
    O velho Afonso, Príncipe subido,
    Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
    Da larga e muita idade foi vencido.
    A pálida doença lhe tocava
    Com fria mão o corpo enfraquecido;
    E pagaram seus anos deste jeito
    A triste Libitina seu direito.

    84
    "Os altos promontórios o choraram,
    E dos rios as águas saudosas
    Os semeados campos alagaram
    Com lágrimas correndo piedosas.
    Mas tanto pelo mundo se alargaram
    Com faina suas obras valerosas,
    Que sempre no seu Reino chamarão
    "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.

    85
    "Sancho, forte mancebo, que ficara
    Imitando seu pai na valentia,
    E que em sua vida já se exprimentara,
    Quando o Bétis de sangue se tingia,
    E o bárbaro poder desbaratara
    Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
    E mais quando os que Beja em vão cercaram,
    Os golpes de seu braço em si provaram;

    86
    "Depois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    87
    "Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, coa gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    88
    "Mas a formosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assim como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado Silves toma,
    E o bravo morador destrue e doma.

    89
    "E se tantos troféus do Mahometa
    Alevantando vai, também do forte
    Lionês não consente estar quieta
    A terra, usada aos casos de Mavorte,
    Até que na cerviz seu jugo meta
    Da soberba Tui, que a mesma sorte
    Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
    Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

    90
    "Mas entre tantas palmas salteado
    Da temerosa morte, fica herdeiro
    Um filho seu, de todos estimado,
    Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
    No tempo deste, aos Mouros foi tomado
    Alcácere-do-Sal por derradeiro;
    Porque dantes os Mouros o tomaram,
    Mas agora estruídos o pagaram.

    91
    "Morto depois Afonso, lhe sucede
    Sancho segundo, manso e descuidado,
    Que tanto em seus descuidos se desmede,
    Que de outrem, quem mandava, era mandado.
    De governar o Reino, que outro pede,
    Por causa dos privados foi privado,
    Porque, como por eles se regia,
    Em todos os seus vícios consentia.

    92
    "Não era Sancho, não, tão desonesto
    Como Nero, que um moço recebia
    Por mulher, e depois horrendo incesto
    Com a mãe Agripina cometia;
    Nem tão cruel às gentes e molesto,
    Que a cidade queimasse onde vivia,
    Nem tão mau como foi Heliogabalo,
    Nem como o mole Rei Sardanapalo.

    93
    "Nem era o povo seu tiranizado,
    Como Sicília foi de seus tiranos;
    Nem tinha como Fálaris achado
    Gênero de tormentos inumanos;
    Mas o Reino, de altivo e costumado
    A senhores em tudo soberanos,
    A Rei não obedece, nem consente,
    Que não for mais que todos excelente.

    94
    "Por esta causa o Reino governou
    O Conde Bolonhês, depois alçado
    Por Rei, quando da vida se apartou
    Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
    Este, que Afonso o bravo, se chamou,
    Depois de ter o Reino segurado,
    Em dilatá-lo cuida, que em terreno
    Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

    95
    "Da terra dos Algarves, que lhe fora
    Em casamento dada, grande parte
    Recupera co'o braço, e deita fora
    O Mouro, mal querido já de Marte.
    Este de todo fez livre e senhora
    Lusitânia, com força e bélica arte;
    E acabou de oprimir a nação forte,
    Na terra que aos de Luso coube em sorte.

    96
    "Eis depois vem Dinis, que bem parece
    Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
    Com quem a fama grande se escurece
    Da liberalidade Alexandrina.
    Com este o Reino próspero florece
    (Alcançada já a paz áurea divina)
    Em constituições, leis e costumes,
    Na terra já tranquila claros lumes.

    97
    "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
    O valeroso ofício de Minerva;
    E de Helicona as Musas fez passar-se
    A pisar do Monde-o a fértil erva.
    Quanto pode de Atenas desejar-se,
    Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
    Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
    Do bácaro e do sempre verde louro.

    98
    "Nobres vilas de novo edificou
    Fortalezas, castelos mui seguros,
    E quase o Reino todo reformou
    Com edifícios grandes, e altos muros.
    Mas depois que a dura Átropos cortou
    O fio de seus dias já maduros,
    Ficou-lhe o filho pouco obediente,
    Quarto Afonso, mas forte e excelente.

    99
    "Este sempre as soberbas Castelhanas
    Co'o peito desprezou firme e sereno,
    Porque não é das forças Lusitanas,
    Temer poder maior, por mais pequeno.
    Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
    A possuir o Hespérico terreno
    Entraram pelas terras de Castela,
    Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

    100
    "Nunca com Semirâmis gente tanta
    Veio os campos idáspicos enchendo,
    Nem Atila, que Itália toda espanta,
    Chamando-se de Deus açoute horrendo,
    Gótica gente trouxe tanta, quanta
    Do Sarraceno bárbaro estupendo,
    Co'o poder excessivo de Granada,
    Foi nos campos Tartésios ajuntada.

  10. #100
    Boeuf duarte1 is an unknown quantity at this point
    Date d'inscription
    octobre 2007
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    3 626

    Par défaut Re : PORTUGAL IMPERIO? JA NAO ES IMPERIO..QUE FIZERAM DE TI....

    101
    "E vendo o Rei sublime Castelhano
    A força inexpugnábil, grande e forte,
    Temendo mais o fim do povo hispano,
    Já perdido uma vez, que a própria morte,
    Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
    Lhe mandava a caríssima consorte,
    Mulher de quem a manda, e filha amada
    Daquele a cujo Reino foi mandada.

    102
    "Entrava a formosíssima Maria
    Pelos paternais paços sublimados,
    Lindo o gesto, mas fora de alegria,
    E seus olhos em lágrimas banhados;
    Os cabelos angélicos trazia
    Pelos ebúrneos ombros espalhados:
    Diante do pai ledo, que a agasalha,
    Estas palavras tais, chorando, espalha:

    103
    --"Quantos povos a terra produziu
    De África toda, gente fera e estranha,
    O grão Rei de Marrocos conduziu
    Para vir possuir a nobre Espanha:
    Poder tamanho junto não se viu,
    Depois que o salso mar a terra banha.
    Trazem ferocidade, e furor tanto,
    Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

    104
    --"Aquele que me deste por marido,
    Por defender sua terra amedrontada,
    Co'o pequeno poder, oferecido
    Ao duro golpe está da Maura espada;
    E se não for contigo socorrido,
    Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
    Viúva e triste, e posta em vida escura,
    Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

    105
    "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
    O corrente Muluca se congela,
    Rompe toda a tardança, acude cedo
    A miseranda gente de Castela.
    Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
    De pai o verdadeiro amor assela,
    Acude e corre, pai, que se não corres,
    Pode ser que não aches quem socorres."--

    106
    "Não de outra sorte a tímida Maria
    Falando está, que a triste Vénus, quando
    A Júpiter, seu pai, favor pedia
    Para Eneias, seu filho, navegando;
    Que a tanta piedade o comovia
    Que, caído das mãos o raio infando,
    Tudo o clemente Padre lhe concede,
    Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

    107
    "Mas já co'os esquadrões da gente armada
    Os Eborenses campos vão coalhados:
    Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
    Vão rinchando os cavalos jaezados.
    A canora trombeta embandeirada,
    Os corações à paz acostumados
    Vai às fulgentes armas incitando,
    Pelas concavidades retumbando.

    108
    "Entre todos no meio se sublima,
    Das insígnias Reais acompanhado,
    O valeroso Afonso, que por cima
    De todos leva o colo alevantado;
    E somente co'o gesto esforça e anima
    A qualquer coração amedrontado.
    Assim entra nas terras de Castela
    Com a filha gentil, Rainha dela.

    109
    "Juntos os dous Afonsos finalmente
    Nos campos de Tarifa estão defronte
    Da grande multidão da cega gente,
    Para quem são pequenos campo e monte.
    Não há peito tão alto e tão potente,
    Que de desconfiança não se afronte,
    Enquanto não conheça e claro veja
    Que co'o braço dos seus Cristo peleja.

    110
    "Estão de Agar os netos quase rindo
    Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
    As terras como suas repartindo
    Antemão, entre o exército Agareno,
    Que com título falso possuindo
    Está o famoso nome Sarraceno.
    Assim também com falsa conta e nua,
    À nobre terra alheia chamam sua.

    111
    "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
    Do rei Saul, com causa, tão temido,
    Vendo o pastor inerme estar diante,
    Só de pedras e esforço apercebido,
    Com palavras soberbas o arrogante
    Despreza o fraco moço mal vestido,
    Que, rodeando a funda, o desengana
    Quanto mais pode a Fé que a força humana:

    112
    "Desta arte o Mouro pérfido despreza
    O poder dos Cristãos, e não entende
    Que está ajudado da Alta Fortaleza,
    A quem o inferno horrífico se rende.
    Co ela o Castelhano, e com destreza
    De Marrocos o Rei comete e ofende.
    O Português, que tudo estima em nada,
    Se faz temer ao Reino de Granada.

    113
    "Eis as lanças e espadas retiniam
    Por cima dos arneses: bravo estrago!
    Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
    Uns Mafamede, e os outros Santiago.
    Os feridos com grita o Céu feriam,
    Fazendo de seu sangue bruto lago,
    Onde outros meios mortos se afogavam,
    Quando do ferro as vidas escapavam.

    114
    "Com esforço tamanho estrui e mata
    O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
    Totalmente o poder lhe desbarata,
    Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
    De alcançar tal vitória tão barata
    Inda não bem contente o forte braço,
    Vai ajudar ao bravo Castelhano,
    Que pelejando está co'o Mauritano.

    115
    "Já se ia o Sol ardente recolhendo
    Para a casa de Tethys, e inclinado
    Para o Ponente, o Véspero trazendo,
    Estava o claro dia memorado,
    Quando o poder do Mauro grande e horrendo
    Foi pelos fortes Reis desbaratado,
    Com tanta mortandade, que a memória
    Nunca no mundo viu tão grã vitória.

    116
    "Não matou a quarta parte o forte Mário
    Dos que morreram neste vencimento,
    Quando as águas co'o sangue do adversário
    Fez beber ao exército sedento;
    Nem o Peno asperíssimo contrário
    Do Romano poder, de nascimento,
    Quando tantos matou da ilustro Roma,
    Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

    117
    "E se tu tantas almas só pudeste
    Mandar ao Reino escuro de Cocito,
    Quando a santa Cidade desfizeste
    Do povo pertinaz no antigo rito:
    Permissão e vingança foi celeste,
    E não força de braço, ó nobre Tito,
    Que assim dos Vates foi profetizado,
    E depois por Jesu certificado.

    118
    "Passada esta tão próspera vitória,
    Tornando Afonso à Lusitana terra,
    A se lograr da paz com tanta glória
    Quanta soube ganhar na dura guerra,
    O caso triste, e dino da memória,
    Que do sepulcro os homens desenterra,
    Aconteceu da mísera e mesquinha
    Que depois de ser morta foi Rainha.

    119
    "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
    Que os corações humanos tanto obriga,
    Deste causa à molesta morte sua,
    Como se fora pérfida inimiga.
    Se dizem, fero Amor, que a sede tua
    Nem com lágrimas tristes se mitiga,
    É porque queres, áspero e tirano,
    Tuas aras banhar em sangue humano.

    120
    "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
    De teus anos colhendo doce fruto,
    Naquele engano da alma, ledo e cego,
    Que a fortuna não deixa durar muito,
    Nos saudosos campos do Mondego,
    De teus fermosos olhos nunca enxuto,
    Aos montes ensinando e às ervinhas
    O nome que no peito escrito tinhas.

    121
    "Do teu Príncipe ali te respondiam
    As lembranças que na alma lhe moravam,
    Que sempre ante seus olhos te traziam,
    Quando dos teus fermosos se apartavam:
    De noite em doces sonhos, que mentiam,
    De dia em pensamentos, que voavam.
    E quanto enfim cuidava, e quanto via,
    Eram tudo memórias de alegria.

    122
    "De outras belas senhoras e Princesas
    Os desejados tálamos enjeita,
    Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
    Quando um gesto suave te sujeita.
    Vendo estas namoradas estranhezas
    O velho pai sesudo, que respeita
    O murmurar do povo, e a fantasia
    Do filho, que casar-se não queria,

    123
    "Tirar Inês ao mundo determina,
    Por lhe tirar o filho que tem preso,
    Crendo co'o sangue só da morte indina
    Matar do firme amor o fogo aceso.
    Que furor consentiu que a espada fina,
    Que pôde sustentar o grande peso
    Do furor Mauro, fosse alevantada
    Contra uma fraca dama delicada?

    124
    "Traziam-na os horríficos algozes
    Ante o Rei, já movido a piedade:
    Mas o povo, com falsas e ferozes
    Razões, à morte crua o persuade.
    Ela com tristes o piedosas vozes,
    Saídas só da mágoa, e saudade
    Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
    Que mais que a própria morte a magoava,

    125
    "Para o Céu cristalino alevantando
    Com lágrimas os olhos piedosos,
    Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
    Um dos duros ministros rigorosos;
    E depois nos meninos atentando,
    Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
    Cuja orfandade como mãe temia,
    Para o avô cruel assim dizia:

    126
    --"Se já nas brutas feras, cuja mente
    Natura fez cruel de nascimento,
    E nas aves agrestes, que somente
    Nas rapinas aéreas têm o intento,
    Com pequenas crianças viu a gente
    Terem tão piedoso sentimento,
    Como coa mãe de Nino já mostraram,
    E colos irmãos que Roma edificaram;

    127
    --"Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
    (Se de humano é matar uma donzela
    Fraca e sem força, só por ter sujeito
    O coração a quem soube vencê-la)
    A estas criancinhas tem respeito,
    Pois o não tens à morte escura dela;
    Mova-te a piedade sua e minha,
    Pois te não move a culpa que não tinha.

    128
    --"E se, vencendo a Maura resistência,
    A morte sabes dar com fogo e ferro,
    Sabe também dar vicia com clemência
    A quem para perdê-la não fez erro.
    Mas se to assim merece esta inocência,
    Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
    Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente,
    Onde em lágrimas viva eternamente.

    129
    "Põe-me onde se use toda a feridade,
    Entre leões e tigres, e verei
    Se neles achar posso a piedade
    Que entre peitos humanos não achei:
    Ali com o amor intrínseco e vontade
    Naquele por quem morro, criarei
    Estas relíquias suas que aqui viste,
    Que refrigério sejam da mãe triste."--

    130
    --Morte de Inês de Castro
    "Queria perdoar-lhe o Rei benino,
    Movido das palavras que o magoam;
    Mas o pertinaz povo, e seu destino
    (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
    Arrancam das espadas de aço fino
    Os que por bom tal feito ali apregoam.
    Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
    Feros vos amostrais, e cavaleiros?

    131
    "Qual contra a linda moça Policena,
    Consolação extrema da mãe velha,
    Porque a sombra de Aquiles a condena,
    Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;
    Mas ela os olhos com que o ar serena
    (Bem como paciente e mansa ovelha)
    Na mísera mãe postos, que endoudece,
    Ao duro sacrifício se oferece:

    132
    "Tais contra Inês os brutos matadores
    No colo de alabastro, que sustinha
    As obras com que Amor matou de amores
    Aquele que depois a fez Rainha;
    As espadas banhando, e as brancas flores,
    Que ela dos olhos seus regadas tinha,
    Se encarniçavam, férvidos e irosos,
    No futuro castigo não cuidosos.

    133
    "Bem puderas, ó Sol, da vista destes
    Teus raios apartar aquele dia,
    Como da seva mesa de Tiestes,
    Quando os filhos por mão de Atreu comia.
    Vós, ó côncavos vales, que pudestes
    A voz extrema ouvir da boca fria,
    O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
    Por muito grande espaço repetisses!

    134
    "Assim como a bonina, que cortada
    Antes do tempo foi, cândida e bela,
    Sendo das mãos lascivas maltratada
    Da menina que a trouxe na capela,
    O cheiro traz perdido e a cor murchada:
    Tal está morta a pálida donzela,
    Secas do rosto as rosas, e perdida
    A branca e viva cor, coa doce vida.

    135
    "As filhas do Mondego a morte escura
    Longo tempo chorando memoraram,
    E, por memória eterna, em fonte pura
    As lágrimas choradas transformaram;
    O nome lhe puseram, que inda dura,
    Dos amores de Inês que ali passaram.
    Vede que fresca fonte rega as flores,
    Que lágrimas são a água, e o nome amores.

    136
    "Não correu muito tempo que a vingança
    Não visse Pedro das mortais feridas,
    Que, em tomando do Reino a governança,
    A tomou dos fugidos homicidas.
    Do outro Pedro cruíssimo os alcança,
    Que ambos, imigos das humanas vidas,
    O concerto fizeram, duro e injusto,
    Que com Lépido e António fez Augusto.

    137
    "Este, castigador foi rigoroso
    De latrocínios, mortes e adultérios:
    Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
    Eram os seus mais certos refrigérios.
    As cidades guardando justiçoso
    De todos os soberbos vitupérios,
    Mais ladrões castigando à morte deu,
    Que o vagabundo Aleides ou Teseu.

    138
    "Do justo e duro Pedro nasce o brando,
    (Vede da natureza o desconcerto!)
    Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,
    Que todo o Reino pôs em muito aperto:
    Que, vindo o Castelhano devastando
    As terras sem defesa, esteve perto
    De destruir-se o Reino totalmente;
    Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.

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