Felgueiras/saco azul: Procurador diz que Fátima Felgueiras envolveu-se na simulação de contratos
Felgueiras, 8 Set (Lusa) - O procurador do Ministério Público acusou hoje a presidente da Câmara de Felgueiras, Fátima Felgueiras, de ter estado envolvida em quatro "contratos simulados" para garantir a saída de verbas para a empresa Resin SA.
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Segundo a acusação do MP, esta empresa que operou no aterro sanitário, entregou avultadas verbas que foram utilizadas na campanha eleitoral autárquica de Fátima Felgueiras em 1997.
A presidente da autarquia responde neste julgamento pela alegada prática de 23 crimes e por ter lesado o município, num total de 785.349 euros.
Pinto Bronze, que falava no início das alegações finais do caso do saco azul, tentou convencer o colectivo de que quatro contratos celebrados entre 1993 e 1996 "envolviam clausulados que não correspondiam à verdade", utilizando "negócios jurídicos simulados".
Segundo sustentou, invocando prova documental e testemunhal, dois contratos foram celebrados com um particular proprietário do terreno onde funcionava a lixeira, na freguesia de Sendim.
Nestes dois contratos "congeminados" por Fátima Felgueiras e pelo seu antecessor na presidência, Júlio Faria, a câmara alegava que estava a indemnizar o proprietário pelos prejuízos causados no terreno e por atrasos na celebração de escritura de compra e venda.
"Os fundamentos invocados são fraudulentos e o dinheiro apenas servia para proceder a pagamentos à firma Resin", afirmou Pinto Bronze.
Os restantes dois contratos foram celebrados com duas empresas no âmbito de "concursos públicos a fingir" para trabalhos no aterro sanitário.
Na tese do procurador, que assentava na análise de prova testemunhal e documentos apreendidos pela PJ, o dinheiro também acabava por entrar na Resin, no âmbito de "uma conjugação de vontades" de Fátima Felgueiras e de pessoas ligadas aquela empresa, também arguidas no processo.
"Toda esta trama foi combinada. É evidente que Fátima Felgueiras sabia perfeitamente que o dinheiro chegaria à Resin", enfatizou Pinto Bronze.
Os concursos públicos para trabalhos no aterro sanitário eram ganhos por empresas com relações próximas com a Resin, inclusive com sócios comuns ou com contratos de consórcio. Segundo a acusação, era a própria Resin, que não tinha alvará para os objectos das empreitadas, que indicava à câmara quais as empresas a convidar para os concursos. As empresas que ganharam os dois concursos acabaram por fazer chegar o dinheiro à Resin através de facturação de serviços entre si.
Parte desse dinheiro, na tese da acusação, era mais tarde entregue a pessoas ligadas ao saco azul, nomeadamente Horácio Costa, e acabava por financiar as despesas da campanha de 1997.
Nesta primeira sessão destinada às alegações finais, Pinto Bronze sustentou que Fátima Felgueiras e Júlio Faria estiveram na origem da abertura da conta bancária que viria a ficar conhecida como saco azul.
Contrariando o depoimento da autarca, o procurador lembrou o depoimento de várias testemunhas para frisar que Fátima Felgueiras tinha conhecimento e influência sobre as questões dos pagamentos através da referida conta. Segundo anotou, a autarca até chegou a receber em dinheiro um donativo de 500 contos (2500 euros).
Nesta sessão, Pinto Bronze também procurou provar ao Colectivo que Fátima Felgueiras faltou "várias vezes à verdade" a propósito da importância que tinha, à data dos factos que constam da pronúncia, o seu antigo assessor e principal denunciante do caso, o arguido Horácio Costa.
Segundo o procurador, Horácio Costa, ao contrário do que afirmou Fátima Felgueiras em audiência, sempre teve gabinete na parte política dos Paços do Concelho.
"Havia uma relação de proximidade e de confiança política evidente entre ambos, como confirmou neste ulgamento o então número dois da Câmara, Edgar Silva", sublinhou Pinto Bronze.
Para o procurador, só uma relação de grande confiança justificava que Fátima Felgueiras tenha escolhido Horácio Costa para a lista autárquica em 1997.
Pinto Bronze afirmou que os sucessivos depoimentos de Horácio Costa devem ser considerados credíveis pelo tribunal, lembrando que o arguido, alterando uma postura inicial, se disponibilizou para se submeter ao contraditório dos advogados, "respeitando todas as regras legais".
No final, o advogado de Fátima Felgueiras disse à Lusa que já esperava este tipo de alegações do procurador, frisando que na altura própria vai rebater as teses da acusação.
"Mantenho o meu optimismo", disse.
Horácio Costa mostrou-se satisfeito por o Ministério Público ter reconhecido publicamente que o seu depoimento foi credível.
As alegações finais prosseguem terça-feira com o procurador a pronunciar-se sobre outras matérias que constam da pronúncia, num total de 11 capítulos e 53 volumes.
Neste Julgamento, além da presidente da Câmara de Felgueiras, respondem outros 15 arguidos, entre os quais o ex-presidente da Câmara, Júlio Faria, do PS, três gestores da empresa Resin-Resíduos Sólidos, SA, um técnico superior do município, cinco empresários e três ex-colaboradores do PS.
A autarca está acusada de 23 crimes: cinco de participação económica em negócio, seis de corrupção passiva para acto ilícito, quatro de abuso de poderes, três de prevaricação, dois de peculato, um de peculato sob a forma continuada e dois de peculato de uso, sob a forma continuada.
APM,
© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
2008-09-08 20:10:01
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