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O humanismo -
24/11/2007, 00h46
A perspectiva humanista, que se desenvolveu a partir do século XIV, está centrada na valorização daquilo que diz respeito ao ser humano, princípio ligado aos ideais renascentistas. O humanismo marcou o renascer de um individualismo e de uma atitude crítica intimamente ligados à redescoberta da cultura clássica e teve grandes repercussões na arte e na literatura da altura.
O humanismo, contudo, não será a única vertente do Renascimento. Muitos autores gostam de destrinçar entre duas correntes contemporâneas mas muitas vezes autónomas na cultura moderna. Por um lado, o humanismo propriamente dito, baseado no classicismo. Por outro, a revolução mental, científica e artística que constituíram os descobrimentos e a expansão. O classicismo seria, nesta perspectiva, especialmente vocacionado para o estudo e a prática das letras, com um ideal de formação literária e cultural criado a partir da leitura dos textos greco-latinos, do seu comentário e, depois, da sua recriação. Seria uma cultura essencialmente livresca e divorciada da realidade prática das coisas. Em Portugal, apesar do culto das letras greco-latinas remontar, pelo menos, ao segundo quartel do século XV, o humanismo atingiu o seu ponto alto no século XVI. Entre as figuras de maior destaque deste período, contam-se Aires Barbosa e Martinho Figueiredo (filologia), Sá de Miranda (poesia), Luís Teixeira e Diogo Pacheco (direito), Amato Lusitano (medicina), Damião de Góis e Jerónimo Osório (história) e André de Gouveia, que dirigiu o Colégio das Artes, em Coimbra.
O espírito experimentalista, pelo contrário, estaria intrinsecamente ligado à realidade e à observação de todos os fenómenos da natureza e do cosmos. Durante uma época como a da expansão, a constante novidade e mudança assumem o papel central na produção artística e cultural de todos que nela participaram - desde soldados, marinheiros e aventureiros e outros homens de acção que passaram a escrito as suas odisseias (Duarte Pacheco Pereira, Fernão Mendes Pinto, D. João de Castro), até botânicos (Garcia da Orta) e matemáticos (Pedro Nunes).
Em Portugal, e não obstante a sua magna importância enquanto principal contributo do país para a cultura e a ciência do Renascimento, a vertente técnico-naturalista do conhecimento acabaria por ser relegada para segundo plano. Muitos dos textos então redigidos só conheceriam a luz do dia no século XIX (Roteiros de D. João de Castro, por exemplo), ou mesmo no século XX (Tratado da Esfera, do mesmo autor, por exemplo).
No entanto, o humanismo puro dos livros estava também em crise. De facto, pode dizer-se que em Portugal, a partir de meados do século XVI, com a segunda fase do Concílio de Trento, a ideia de um compromisso entre protestantes e católicos, tal como era veiculado por Erasmo e seus seguidores, estava completamente posta de parte. Deu-se uma verdadeira cisão dentro do humanismo propriamente dito, entre os que defendiam uma versão humanista do cristianismo, na acepção erasmiana, e os que optavam pela comentarística e pelo saber livresco simples, sem questionarem qualquer orientação da Igreja. Esta última passou a ser a única corrente produzida pela Universidade, cada vez mais dominada pelos jesuítas e a única que passava pelas malhas da Inquisição.
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