Geografia e ciência náutica
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Par défaut Geografia e ciência náutica - 24/11/2007, 00h40

O conhecimento da Terra que os europeus tinham antes das viagens dos descobrimentos era o do mundo ptolomaico, que representava os continentes europeu e asiático sem comunicação por mar, sendo o Índico um mar fechado. Outra teoria corrente era a de Macróbio, que representava África como um rectângulo e unia o Atlântico e o Índico a partir da zona equatorial. Não se conheciam outros continentes, nem as dimensões da Terra.
Nesta época temos de destacar, acima de tudo, o carácter inovador da ciência náutica portuguesa, desenvolvida pela necessidade e pelo engenho nas viagens marítimas. Alguns dos conhecimentos práticos e teóricos herdados da Idade Média foram actualizados, corrigidos e aumentados, sendo um dos aspectos científicos mais importantes do período dos descobrimentos, que podem sintetizar-se em três áreas fundamentais.
Na astronomia, foi modificado o modo de orientação no mar, através da observação dos astros feita por instrumentos de medida e precisão. A arte da navegação evoluiu à medida que se avançava na expansão marítima, devido à necessidade de adaptação aos regimes de ventos e marés e a outros condicionalismos geográficos. Para além do astrolábio, o quadrante tornou-se um instrumento fundamental nos cálculos náuticos necessários aos navegadores, assim como a balestilha e a tavoleta. A progressão para sul tornou necessário desenvolver os cálculos de latitude a partir do Sol e já não apenas da Estrela Polar. Intensificaram-se também os estudos de outras estrelas aproveitáveis para a navegação.
Na cartografia, deram-se alterações no sistema das cartas portulano italianas, evoluindo para representações cartográficas que incluíam escalas, latitudes, planos hidrográficos e de costas, uma graduação da longitude (ainda que fictícia), registos de sondas. A determinação de distâncias e latitudes teve um grande desenvolvimento com o aprofundamento da observação astronómica, permitindo a anotação das latitudes dos locais mais frequentados. Uma das obras de navegação mais célebres deste período foi o Regimento do Norte, ou Regimento da Estrela Polar, que continha regras e valores de navegação, datando provavelmente do último quartel do século XV.
À medida que as viagens se realizam, os cartógrafos desenham cartas cada vez mais precisas e próximas da realidade. Os portugueses tornam-se especialistas em cartografia. Os mapas, por conterem informações completamente novas, tornam-se secretos e são objecto de espionagem. O incremento do comércio obrigou a aligeirar os navios nas formas, para terem maior capacidade de carga e para facilitar as manobras. As antigas barcas e barinéis vão ceder lugar à caravela, navio com velas latinas (triangulares), leve, de médio porte, com geralmente três mastros, muito manobrável e que permitia navegar à bolina. Esta aparece pela primeira vez em meados do século XV. A caravela foi uma embarcação muito utilizada nas viagens de expansão na costa ocidental africana. A sua tonelagem era média (à volta de 50 tonéis). Em situações de combate, podia usar remos. No século XVI aparece a chamada caravela redonda, que já tinha velas quadradas e um mastro mais curto e podia rodar de um arco limitado em torno do mastro.
A continuação das viagens marítimas pelo Atlântico Sul e pelo Oriente obriga a grandes modificações: aumento da capacidade de carga e passageiros, introdução de armas e de instrumentos de orientação em alto mar, como bússolas, astrolábios, quadrantes, cartas de marear, etc. O protótipo da conjugação destes requisitos surge com a nau. A nau era uma embarcação de grande tonelagem (500 tonéis), com duas ou três cobertas, velas redondas no mastro grande e no mastro do traquete e, mais tarde, no mastro da ré. Foi usada com frequência no final do século XV e durante todo o século XVI, especialmente na carreira da Índia. Foi-se tornando cada vez maior, para ser mais segura e transportar mais carga. Além de servir de transporte de pessoas e carga, também estava equipada com armas. Os guias naúticos, os livros de navegação, os diários de navegação, entre outros documentos, constituem a fonte de informação privilegiada de toda essa inovação na ciência náutica.


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